Anjo Salvador 05  

Posted by Diego Bastet in



Sessão 05

Montes Gelados - Nigallin - Rei 17 de 588E


Os cadetes esporeiam seus cavalos pelo caminho o mais rápido que a segurança lhes permite. O caminho é pedregoso e coberto de neve velha de vários dia atrás, mas permite que sejam relativamente céleres. Pelas diversas curvas e subidas do caminho passam por mais torres de vigia destruidas e mesmo por cavalariços da Brigada que não os param, e que parecem sim estar assustados e fugindo da batalha. Conforme os minutos passam eles cruzam com mais dessas almas, alguns mesmo a pé, quebrando formação e abandonando seus postos em favor de suas vidas.

Eventualmente a grande fortaleza se avultua perante eles. Drakenmont fora um castelo grande, cercado de uma cidadela e uma cidade fortificada. Os prédios eram da mesma pedra cinza da montanha, fazendo uma pequena cidade com prédios de dois ou três andarem em um estilo duro e rústico diferente do estilo de Eimland. Muitos deles estão ruídos com o tempo, incluindo suas muralhas e pavimento, mas tantos outros estão queimados e chamuscados, marcas enegrecidas que não saem com o toque, tendo marcado a própria pedra, dando força à assustadora história de que o local foi destruido pela ira de um dragão.

É possível notar que nos portões frontais ocorre batalha. Por volta e meia o diparo de um mangonel acerta uma torre ou aparente fortificação, bem como magias elementais acertam onde besteiros ou conjuradores se escondem. Na saída de trás da cidade há mais caos entre os feridos da Brigada, conforme vários abandonam as fortificações para tentar a sorte nas rotas de suprimentos. E é exatamente um desses que Roderic exige que capturem tão logo desmontam dos cavalos.

O jovem, talvez recém completado a maioridade com seus 15 anos, está manchado de sangue no rosto e diz que é apenas um aprendiz de ferreiro. O que ele tem a dizer é pouco, que as tropas haviam fortificado os portões frontais mas que a Ordem chegou com grandes números, juntos com as forças de Honorest, e a batalha estava perdida mesmo antes de começar. Ele jura por sua vida que não sabe de nenhuma refém pois é um mero aprendiz de ferreiro, e apenas implora para ser deixado ir embora.

“Alguém vai ter que cuidar dos cavalos”, diz Igros, apontando com a espada os fugitivos roubando os cavalos que são capazes de encontrar para abandonar o local, “ou não conseguiremos sair daqui. Encontre ela, lorde Calhart”, completa, segurando o antebraço de Roderic.

Eles então seguem pela cidadela, tomando cuidado para usar becos em que não dêem em nenhum foco de luta nem nas reservas da Brigada; não estão uniformizados com as cores de Nigallin ou Honorest, nem tem o porte ou equipamento de um membro da Brigada; ambos os grupos podem assumir que são inimigos. Logo fica claro que as Ordens mandaram muitas tropas para essa batalha, e que no meio do cáos absoluto a melhor chance que possuem é encontrar o comandante Johelm antes que ele faça algo com Meline.

Para tal dirigem-se para perto dos portões principais, se deparando com uma praça central que é o centro de uma guerra. Dezenas de homens das Ordens enfrentam outras dezenas de homens da Brigada em uma desordem absoluta. Uma lanceira de Honorest crava sua lança na garganta de um garoto da Brigada, enquanto um rufião de machado coloca o medo de deus no coração dos cavaleiros da Ordem a sua volta, enquanto um homem da brigada abandona honra e tática e golpeia diversas vezes com seu elmo o rosto de um soldado da Ordem com quem rola no chão. Mas a Brigada está perdendo, já tendo sido cortada do acesso ao pátio frontal do castelo, onde de longe são capazes de ver os cavaleiros da Ordem, incluindo Elbrich no comando.

 Elbrich Calhart

Evitando a luta principal, eles dão a volta e aproximam-se de uma muralha caída que dá acesso ao pátia principal. Lá é possível ver forças da Brigada mortos, com um grupo misto de soldados de Honorest e Nigallin liderados pelo próprio Cavaleiro Devoto. Do outro lado do pátio, atrás de fortificações de madeira, as tropas da Brigada ameaçam seus inimigos, e o homem de barba e cabelos escuros e espessos, Johelm, tem espada em riste e a pobre Milene sendo usada como escudo humano.

“Não há para onde fugir, Johelm. A Brigada está em frangalhos e teus portões caíram”, esbraveja, solene, Elbrich Calhart.

“Meia-volta! Rápidos como o vento, ou o sangue dessa garota irá banhar de rubro a neve que cai!”, ameaça o homem de armadura preta.

“Elbrich! Elbrich!!!”, grita Roderic, se esforçando para se aproximar da muralha caída e escalá-la, para ser visto pelo irmão, mas os sons da batalha bem como a distância deles afoga todo som.

“Não testem minha paciência! Essa fortaleza tem tanta pólvora guardada que seria capaz de mandar todos vós para o lar do Criador se não forem céleres em sua retirada!”, grita novamente Johelm.

“A Ordem das Lâminas Gêmeas não se curva perante a ameaça de bandidos como ti.”

“Retirem-se de uma vez! Ou o sangue dessa ovelha estará em suas mãos, Elbrich Calhart!”

“Isso não muda nada, rufião!”, responde o general.

“Lorde-comandante, mais inimigos tentam fugir pelo Passo. Dois grupos, talvez três. Uma figura que parece Algus está entre eles, senhor!”, interrompe um mensageiro que ali chega.

“Muito bem, nós iremos encontrá-los. Preparem os cavaleiros, a última cabeça dessa vil Hidra será cortada hoje, homens, e eu mesmo acabarei com Algus!” Ele então se vira para o grupo de soldados ali, e os cadetes podem reconhecer Reiny como um dos soldados do grupo de Honorest, e faz um gesto de cabeça para ele. “Pyle, faça valer o nome de Honorest e limpe o lugar. Não deixe um cão sarnento de pé!”

“Com prazer, milorde!”, responde Reiny, conforme Elbrich e os cavaleiros esporeiam seus cavalos para interceptar os fugitivos da batalha. O jovem de Honorest dá ordens rápidas para seus homens, pega a besta de um dos besteiros e dispara.

Johelm, que não estava atrás de cobertura alguma e apenas usava Meline como escudo, mesmo na mira de cinco besteiros, é pego de surpresa quando o virote acerta mortalmente a irmã de Ian, que cai de joelhos e então ao chão, a cor deixando seu rosto. Ele mal tem tempo de murmurar “...deus...” quando Reiny imediatamente ordena “Agora!”, e seus besteiros disparam todos ao mesmo tempo, acertando o tenente-comandante da Brigada.

Ian havia apenas acabado de subir pelos escombros e presenciar a cena, e junto de Roderic grita a plenos pulmões quando Reiny acerta Meline. Ambos descem os escombros com armas nas mãos, mas param quando Reiny ordena os soldados das Ordens a chocarem-se contra os remanescentes, e agora devidamente desesperados, soldados da briga, e volta a ameaça bem real de vários besteiros apontando armas para os dois.

“Aonde tu pensas que vai, Ian?”, diz, lhe apontando a espada.

“Seu filho de uma meretriz. Eu irei cortar sua garganta!”, grita Ian, dando passos duros em sua direção, espada em riste.

“Ah, isso será uma luta então? Decidiu mostrar tua face traidora e voltar tuas espadas contra a Ordem? Que seja, filhote! Eu irei te mostrar que sangue comum não gera nada além de um homem comum!”, e deixando os besteiros ele se choca com Ian, gerando uma luta de três partes entre os cadetes, os soldados das Ordens e os homens das Brigadas.

Os outros demoram um pouco para lutar, mas logo Roderic e Ian estão envoltos demais na luta para que não façam nada, e Berforan é o primeiro a usar seu vasto corpanzil para proteger os aliados dos disparos dos besteiros.

“Vós estois loucos! Estam atacando um rebento da casa Calhart!”, ele grita.

“Tu és louco, sangue-ruim! Tu planejaste isso, fizeste de propósito pelo teu ódio ao povo simples!”, é possível mais ou menos entender Laura entre berros e desvarios incompreensíveis.

“Eu apenas segui as ordens de seu lorde irmão, Roderic. O que tu desejavas? Que nos curvássemos e oferecêssemos a honra da Ordem em troca da segurança de uma garota de taverna qualquer?”, grita Reiny, lutando junto dos homens de Honorest e evitando os golpes de Ian e Roderic.

“Não fale assim dela, Pyle! Ela é minha irmã!”, esbraveja Roderic, controlado pelas emoções e não lutando direito devido a isso, antes de levar um soco no rosto que lhe faz perder o equilíbrio.

“Já não é chegada a hora de acordar para o fato que nós somos diferentes deles? Eles são de nascimento inferior, e por causa disso destinados a terem papeis inferiores nessa vida! A culpa não foi minha; o plebeu e sua irmã nem deveriam estar envolvidos nisso tudo! Se eles estivessem cuidando de cavalos como seus pais os ensinaram, ao invés de fingirem-se de nobres, a garota não teria sido confundida por uma aristocrata, nenhum deles teria que ter passado por isso, e ela ainda estaria viva!”, grita ele, subindo as escadarias do castelo e colocando-se por trás de seus homens.

“Nem toda a nobreza é podre como ti, Pyle!”, esbraveja Laura, bloqueando os golpes dos cavaleiros, mas logo ela abaixa a guarda e é acertada em cheio por uma espadada nas costas, caindo gritando de dor no chão.

“Laura! Não!”, grita Roderic, antes de virar-se para Reiny. “Tu pagarás por isso, Pyle!”.

“Poupe-me de tua ladainha, Roderic! Tu és um Calhart, queira ou não! Tua é uma linhagem de campeões, de lordes entre os homens! Realizar grandes feitos é teu destino, é teu dever. Há muito que não pode ser realizado nesse mundo, exceto por mãos governantes como as suas. Cabe a ti agir onde nós, meros mortais, não podemos. Olhe bem para mim, olhe bem para teus companheiros e irmãos em armas. Famílias que dançam a gerações a dança dos Calharts. Uma dança  que serve nossos propósitos, é claro; o nome Calhart é a égide deles, o escudo que permite que prosperem, a mão que os alimenta! E você volta-se contra essa Égide em benefício de meros plebeus!”

É nesse momento que Roderic deixa a luta, ele bloqueia um último golpe e dá alguns passos para trás, confuso e tentando raciocionar as palavras. Olhando em volta ele vê seus companheiros feridos ou caídos, e Ian na frente de tudo, ferozmente batendo-se contra os cavaleiros, tentando abrir caminho para Reiny.

“Ele tem razão! Abaixem as armas, Reiny tem razão. Não é lutando contra nosso nome que mudaremos alguma coisa!”

Os outros ali presentes ficam confusos com as palavras de Roderic, e Mildred grita, evitando um golpe “Enlouquecestes de vez, Calhart???”.

“Abaixem as armas, eu disse! Ian, cesse!”, ele grita.

“Não! Eu irei acabar com você reiny!” e então vira-se para Roderic, os olhos cheios de lágrimas e o semblante de um homem descontrolado. “E depois eu irei acabar contigo, traídor!”.

Talvez querendo deixar claro seu ponto, talvez realmente se sentindo ameaçado, ou talvez confuso como uma criança, Roderic não admite a ameaça de Ian, e conjura um feitiço sobre ele, aquecendo sua espada ao ponto dela ficar vermelha, tencionando desarmar Ian. O jovem plebeu porém é determinado, e mesmo com as mãos fumegando não para de lutar, segurando a espada firmemente. A dor porém o desacelera, e um dos cavaleiros aproveita a vantagem e atravessa sua espada pelo peito de Ian, que cospe sangue e vai ao chãos, de joelhos.

“Calhart! Maldito!!!”, grita Mildred, que abandona seus oponentes para saltar sobre Roderic. A espada voltada ao pescoço é aparada, mas não a joelhada voadora em seu queixo. O jovem calhart perde o equilibrio e logo se vê preso por uma chave de braço de Mildred, que aperta seu pescoço com ódio. “Louco traidor!!”, ela grita, ao ponto que Berforan corre até eles para separar a luta.

“Te entristece, Ian, ver toda a verdade de tua fraqueza perante ti? Nenhum simples plebeu é capaz de deixar sua marca na história! Você não tem o poder para tal; compreenda-o e lamente-o, pois é tudo que é capaz de fazer, e muito mais do que merece!”, diz Reiny, rindo da situação e se aproximando do ajoelhado e ferido Ian.

“Tua língua bifurcada terminou de flertar? Não são palavras que desejo ouvir saídas de tua garganta...”

“Risada, então? Pois isso tu ouvirás em breve, sangue-comum! Abaixe a cabeça perante seus melhores e termine no anonimato de onde não deveria ter saído!”, diz, erguendo a espada.

“Ninguém me ordenará... Nem você, nem ninguém...”, fala Ian, desafiador perante a morte.

Mas tal morte não chega, pois enquanto era sufocado vivo por Mildred, Roderic consegue observar fumaça saindo do castelo, e logo a terra treme. O tenente-comandante não estava blefando, e logo pequenas explosões se fazem dentro da fortaleza.

E então a cidadela toda vai pelos ares.




***

“Eu vivi minha vida da única forma que sabia vivê-la. Mas quando os pilares que a sustentavam racharam perante meus olhos, eu não permaneci para observá-los ruir. Eu dei as costas. E fui embora.”

***


Monastério de Gofren - Fronteira de Himline - Ladrão 12 de 589E

“Então foi assim que o conheceu...”, fala baixo comandante Zackary Le’Berry, terminando de limpar o sangue do nariz quebrado. A sua volta os outros mercenários ouviam a história de Roderic, enquanto o batedor Ivdan e a selvagem Eleonora foram buscar os cavalos na floresta.

“Sim comandante. Eu tenho certeza que era ele. Só não sabia que ele tinha sobrevivido...”, responde Roderic, o olhar distante.

O guerreiro Kniaz encara Roderic com estranheza, mas se algo pensa não o divide com os demais. Não demora para que de dentro do monastério saia o cavaleiro do dragão Dryfolk, meneando a cabeça.

“O cavaleiro capturado se recusa a falar. Ele passa bem, milady”, e faz uma mesura para a capitã Karissa.

“Ele carrega a princesa consigo. De certo não chegará longe”, diz a capitã, cobrindo a cabeça com um capuz de viagem.

“E tu tencionas persegui-lo?”, pergunta o comandante.

“E o que mais? Eu não retornarei para a Coroa em desgraça!”

“Pois não terá ajuda nossa. Nosso contrato não mencionava nada sobre perseguições.”

A capitã cirra os olhos. “E eu não aceitaria vossa ajuda nem que a oferecesse, lorde. Um verdadeiro cavaleiro é jurado à justiça. Ele defende os indefesos. A Guarda do Dragão irá cumprir seu dever; com vosso apoio, ou não”. O cavaleiro Dryfolk meneia a cabeça, observando a situação.

É então que Eleonora se aproxima do grupo, tendo encontrado os cavalos na floresta. Ela chama atenção de Le’Berry e descreve como além de seus cavalos, exceto um que se perdeu mesmo, eles também encontraram algo peculiar: Dois cavalos estavam corretamente amarrados na floresta, não muito longe da colina do monastério, e dois soldados armados e portando as cores da Ordem da Lótus estavam próximos, assassinados, um com a garganta cortada e outro trespassado pelo peito.

“Comandante, talvez devêssemos fazer algo. Não cairia bem com nossa reputação...”, começa Roderic.

“Tolice Roderic, isso não é de nosso interesse, homem!”, responder Le’Berry.

“E quanto nos custaria vossa ajuda, comandante?”, pergunta Dryfolk, que se aproxima. Do cavalo Karissa os observa com uma expressão de poucos amigos, seu orgulho ferido demais para implorar ajuda dos mercenários.

“Tu desejar ir atrás desse teu amigo, não é mesmo?”, fala de lado Le’Berry.

“Sim comandante. Eu desejo”, responde Roderick, altivo.

“...demônios...”, ele bufa, e então se vira para o cavaleiro do dragão. “O dobro ou nada”, e invoca um sorriso pouco disfarçado de Kniaz.

“Ultrajante...”, murmura Alissas, seu cabelo loiro claro caindo molhado na face.

“Pois bem, lorde. Receberás o dobro, tão logo tenhamos a princesa em segurança”, finaliza Dryfolk, antes de montar em seu cavalo.

“Muito bem preguiçosos, montando! Não estamos sendo pagos por hora, e temos um bom caminho até Larássis, pegar nossos homens e descobrir para onde o amiguinho de Lorde Calhart foi!”

E com risadas e olhares maldosos os mercenários montam, deixando os cavaleiros do dragão enojados e Roderic com seus pensamentos...

 Roderic Calhart