Anjo Salvador - 14  

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Sessão 14

Vale da Neblina - Norte de Doleris - Princesa 26 de 590E



A consciência de Dan parte e retorna em intervalos esporádicos, conforme o frio lhe assola. Não apenas é o fim do inverno, como ele está encharcado dos pés à cabeça, como também nota que o curativo que fizera para não escorrer sangue está empapado e o sangue novamente escorre, em menor quantidade, mas ainda livremente. Sabendo que se ficar ali parado irá ser levado pelo frio ou hemorragia, se não pela neblina que o cerca e os horrores de além do véu, decide seguir as palavras de Ivdan: “Movimento é vida”, e retornando para perto do rio decide por seguir sua caminhada rio acima.

Em um ponto porém suas forças lhe falham, e o mago de guerra cai de joelhos. Seu corpo está gelado e tremendo, e suas roupas pesam. Decide então por tentar criar uma fogueira, erroneamente acreditando que para isso basta seguir os passos que observou Ivdan e outros realizarem. Crava a espada ao chão e monta uma cobertura para a chama com sua capa encharcada, junta gravetos e pedaços de raízes que acredita servirem, bem como duas pedras quaisquer que mais se parecesse com as pedras usadas pelo patrulheiro.

Tac. Nada.

Tac tac.

Tac Tac. Tac. Tac tac tac. Nem uma fagulha.

“Maldita seja”, tac tac tac tac. Umas faíscas, mas elas não acendem a madeira como esperado.

Logo um movimento mais forte lhe causa um machucado na mão e ele se irrita, arremessando as pedras para longe. Ainda congelando, ele troca o curativo no torso; a aparência é horrível, mas um novo tecido servirá para que não deixe um rastro de sangue. Livra-se então do peso extra de suas roupas tipicamente regionais: peles e casacos extras não lhe aqueceriam encharcadas como estavam, e apenas serviam de peso extra para suas parcas forças carregarem.

Sem conseguir enxergar muito no escuro absoluto iluminado pelas estrelas, e apenas com o som das corredeiras como companhia, o mago de guerra então manca rio acima, afastando-se da neblina que aproxima e usando sua espada como bengala. Em sua mente apenas consegue pensar em calor.


***

Templo de Ceanndubháin - Norte de Doleris - Princesa 26 de 590E

 
 
A fogueira crepita alegremente aquecendo os corpos e corações dos membros do acampamento. Dividem uma refeição de peixes assados pescados pelo próprio e alegre Ivdan, que fuma erva em seu longo cachimbo. Era claro que o homem havia aproveitado sua missão com a bala de ferro frio para aproveitar um pouco o romance da situação, e isso o era óbvio pela sua expressão menos fechada que o de costumem. Kniaz e Rose-Marrie riam contando histórias engraçadas, e mesmo o estoico Roderic Calhart não deixava de lançar sorrisos aqui e ali.

“Mas tu tiveste então um encontro e tanto, não Ivdan? Contai vossa experiência”, brincava Kniaz.

“Não diga tais coisas”, diz sem jeito Ivdan.

“Ivdan e Aisling. Se bei-jan-do”, canta como uma criança Rose-Marrie.

“Não é exatamente isso. Cuidem de vossas vidas”, eventualmente irrita-se o homem.

Os corações estão leves e aquecidos, não apenas com o calor da amizade e da bebida mas também com a leveza de reconhecer que os rumores de que alguma das folhas usava de demonologia era falsa; ainda havia um complô contra Luthien, e o assunto ainda não estava resolvido, mas dos males o menor. Rose-Marrie então incentiva que Roderic aproveite um pouco o Finn, ele que parece estar sentado ali desde que chegaram. Originalmente o nobre mantêm-se impávido perante tais ofertas, mas eventualmente acaba por ceder ao carisma da jovem, que pede que Kniaz o acompanhe; ela não se importa em cuidar do acampamento e ler um bom livro. Roderic também liberta, novamente, seus soldados para que aproveitem e socializem-se; apesar de deixar claro que devem estar em situação de prontidão logo pela manhã.

Os dois homens caminham pelos acampamentos conversando e dividindo boas cervejas, e eventualmente são abordados quando assistiam um povo a dançar alegremente.

“Jovem Roderic Calhart”, diz um homem simpático e bigodudo, segurando o ombro de Roderic.

Originalmente o jovem não o reconhece, culpando a cerveja por isso, até o homem se apresentar como Edmund, marido de Volara, que haviam lhe dado uma torta de carne e lhe dado algumas direções.

“Eu te trouxe minha filha para vocês se conhecerem”, ele diz, sorridente. “Querida, venham aqui, sim?”

Aproxima-se então a senhora Volara acompanhada de uma jovem, uma menina que talvez tivesse quinze anos. Ela não era a maior beldade que Roderic havia visto nessa região -um prêmio que descansava firmemente nas mãos das Folhas, de fato-, mas tinha grandes olhos azuis brilhantes, encantados com sua beleza e porte. Roderic por sua vez fora pego de surpresa, acreditara que tal “um dia devíamos” assemelhava-se ao de seu povo, ou seja, efetivamente nunca, e não que o homem iria de fato buscar e trazer sua filha!


 Olhara então para o lado, em busca de seu companheiro Kniaz, mas encontrara apenas uma assento vazio no tronco, o qual a menina logo usa para senta-se. Kniaz a muito já havia partido, com uma agilidade contrária à seu tamanho, ou talvez simplesmente desapercebido pelo suavemente enebriado e desatento Roderic.

“Rapaz? Está me ouvindo?”, dizia a senhora.

“Ah, sim milady, perdoe-me. Estava apenas, ahn, distraído pela beleza de sua filha...?”, esquiva-se Roderic.

“Iglad, milorde”, diz a menina, curvando-se de forma elegante antes de sentar-se.

“Como eu lhe disse, rapaz, uma menina jovem, trabalhadora, que crescerá a ter um corpo belo como a mãe”, dizia o homem.

“Ai não na frente dos jovens, Edmund!”, brincava a mulher.

“Mas eu digo verdade. Alguém para aquecer sua casa e sua cama. Um jovem como você precisa firmar raízes, raízes fortes, no verdadeiro sal da terra”, ele então dá uma cutucada em Roderic. “E nada como semear um belo terreno, heim?”

“Pai!”, contraria-se a moça, corando.

“Iremos deixar vocês a sós para conversarem então”, fala a mulher.

“Enquanto isso, ahem, “concederme-ia-lhe essa singela dança, milady”, ay?”, brinca o homem.

“Ay! Como você é romântico, Edmundo, parece um cavaleiro!”, ela responde, conforme os dois se afastam para a dança, deixando um sem jeito Roderic.

“Você é tão bonito, milorde...”, diz a menina, com olhos brilhantes.

“Ótimo, uma selvagem ignorante...”, pensa Roderic. “Obrigado milady Iglad”, ele fala. “Tu também és muito bela, jovem. Diga-me, quanto anos tem?”

“Quase quinze milorde!”, ela fica atenta. “Estarei pronta para casar-me no próximo verão, se é isso que quer perguntar.”

O cavaleiro tenta se explicar que não era isso que falava, mas logo a animada garota pergunta.

“O senhor é de Nigallin não? A terra ao leste?”.

Os olhos do cavaleiro se enchem de brilho e indagação.

“Eu... eu vi em um livro. Os seis territórios, as bandeiras, os escudos e cavaleiros. Duas espadas sobre azul e branco.”

“Ela tem salvação...”, pensa um Roderic se abrindo um pouco mais.


***




Uma mistura de mãos, braços, coxas e cabelos loiros e ruivos se emaranha na tenda de Rhaoggan, conforme o patrulheiro e sua esposa Eleonora encontram prazer um nos braços do outro. Os sons de sexo, bem como os gemidos de prazer, são bem menos “modestos” do que os civilizados estão acostumados, e isso é verdade não apenas desse casal, mas de outros pelo acampamento. Se são simplesmente mais soltos, se suas relações são melhores, ou se fazem isso para causar inveja em seus pares, é algo que os civilizados passeando pelas terras do templo não serão capazes de entender, mas ali, no calor da paixão e envoltos nos braços um do outro, Rhaoggan e Eleonora pouco se importam o que outros acharam de suas vocalizações.

“Eu não vou durar nada assim”, expressa-se uma corada Eleonora, conforme seu marido curva-se sobre ela, uma mulher que não é pequena e frágil como as moças civilizadas, mas some debaixo do musculoso saqueador . O ritmo acelera-se, e as risadinhas e gemidos são gradualmente substituídos por gemidos cada vez mais altos, que eventualmente começam a ser substituídos por verdadeiros gritos de êxtase da druida. Toda a energia e paixão acumulam-se cada vez, levando a um inevitável pico, até um grito cortar o ar.

“CRAAAAAAAAAAAAAAAAAA!”



“Paf!” é o som que é ouvido quando o corvo de três olhos de Dan entra pela tenda dos amantes, surpreendendo-lhe e fazendo com que quase morram do coração, cortando seu coito e fazendo o caçador reagir por impulso e meter-lhe uma tapa que o faz voar, bater na lateral da tenda e cair, atordoado.

“...craaaa?”

“Espírito maldito!”, grita o saqueador aproximando-se para esmagar a criatura, mas é impedindo por uma Eleonora que recuperar-se e, ainda corada, toma a criatura em suas mãos.

“É um Familiar!”, ela grita.

“Está tudo bem???”, grita um dos parceiros de Rhaogan, espada em punho, entrando pela tenda para averiguar os gritos de sustos. “Pela Galhada!” ele diz, chocando-se ao ver o assustador corvo com um olho a mais.

A criatura por sua vez apenas oferece a pata com o bilhete amarrado.


***


Ivdan e Kniaz que também estavam por perto se aproximam do acampamento dos caçadores para ver uma Eleonora efetivamente nua, mas coberta por uma capa de pelos segurando a criatura. Ela tem a mão o bilhete desenrolado. Os dois civilizados não tem tempo de corar-se perante a imagem antes de terem o bilhete esticado a sua frente.

“Um bilhete. Escrito no idioma comum de Eimland. Esse familiar fora enviado a mim para trazê-lo. O que diz, Kniaz?”

O soldado pega o bilhete, e o olha com cuidado. “Dan está em apuros”.

Antes que pudesse explicar mais, chega ao acampamento, ferido e cambaleando, Fearghal. O homem parece ter entrado em uma luta com um bando de gatos selvagens e perdido, repleto de arranhões ensanguentados pelo corpo, e alguns outros ferimentos escondidos pelas roupas.

“Eleonora! Luthien! Ela está controlando demônios, e atacou a mim e Dan!”

Kniaz, sabiamente, esconde o bilhete.

***

Dentro da tenda do casal, Fearghal conta sua história: Dan havia lhe perguntado sobre alguns rumores, sobre coisas que haviam descoberto, e que tipos de histórias ele conhecia ou tinha ouvido falar da briga de sucessão. Também o contara que tinham motivos para acreditar que alguém do templo tinha sido corrompido por demônios, e que estava infiltrado. Ele acabara por descobrir que a floresta parecia estar amaldiçoada, que fetiches espirituais eram encontrados pela floresta em locais onde ninguém deveria ir, onde apenas a Bruxa poderia passar. Não apenas isso, mas alguns juravam ter visto Luthien pela floresta, dançando e cruzando com espíritos negros terríveis, verdadeiros demônios, em troca de poder.

Tudo isso poderia ser apenas história, não fosse o fato que quando estavam discutindo o assunto foram emboscados pela própria. A mulher estava fora de si, e havia ouvido pelos espíritos demoníacos que eles sabiam a verdade. Ela então chamara os lobos da Grande Caçada sobre eles, que os perseguiram tencionando fazer-lhes em pedaços. Dan fora heroico e temerário, e jogara-se no rio para distrair as feras, que o perseguiram corredeira abaixo. O próprio Fearghal conseguira escapar apenas por causa disso, e se escondera, vindo o mais rápido que pode após o perigo passar. Tudo havia acontecido a poucas horas, ao anoitecer.

Surge um choque ali: Rhaoggan ira-se e tenciona juntar seus homens para tomar Luthien de assalto, Eleonora acredita que o resgate de Dan é prioridade. Uma briga se faz conforme o saqueador a acusa de que está deixando o calor entre as pernas nublar seu julgamento, e a druidesa não consegue convencer o marido do contrário. Fearghal pede que parem de brigar, e que irá ajudar a encontrar Dan, mas Eleonora insiste que ele permaneça para trás, devido aos ferimentos, mas na verdade preferindo duvidar do bardo do que de sua amante (a qual, rhaoggan não sabe, mas que testara por influência demoníaca durante uma longa tarde de sexo e carícias).

Decidem então por separar-se: Eleonora acompanha o bando de Rhaoggan ao templo atrás de Luthien, exigindo dele apenas o direito de ser ela a conversar com as Folhas e a Bruxa; Kniaz irá buscar Roderic e avisar os outros, e Ivdan preparará um grupo de busca com Endor, um dos companheiros de Rhaoggan.


***


“Alto, o que pensam que estão fazendo aproximando-se do Templo como bandidos?”, grita Aisling a guerreira, do topo das escadas do templo.

“Queremos ter com a Bruxa, Aisling. Deixe-nos passar, a vida dela corre perigo!”, ordena Eleonora.

Mas a Folha não leva tão bem as ordens de Eleonora, e logo os acusa de ofenderem os espíritos e o próprio templo com sua violência bêbada. Os gritos de Rhaoggan e seus outros companheiros, sedentos de sangue por causa de Fearghal ferido, também não ajudam, mas eventualmente, e especialmente devido à chegada do Guardião Verun, Eleonora os convence da razão, abaixam as armas e caem de joelhos pedindo desculpas pela atitude errônea.

Aisling então os informa que a Bruxa não está, que saiu ao anoitecer, após o “encontro” das duas, e que é seu direito o fazer caso assim o queira; ela é a Bruxa afinal. Uma fenda se faz entre Rhaoggan e Eleonora, conforme ele cada vez mais acredita que o julgamento de Eleonora está afetado, e mais ela tenta defender Luthien. Por fim o homem diz que ele e seus caçadores irão atrás da Bruxa, e que ela vá atrás desse “Dan”.

“Tu vai engolir tuas palavras, Rhaoggan”, sibila a irada druida.

“Eu espero mesmo. Espero muito estar errado e engoli-las. Mil vezes essa vergonha à vergonha de saber que minha esposa não possui um julgamento confiável.”

***
 Como ela via a coisa ao menos...

“Uau milorde, essas armas são muito belas, e afiados. O senhor deve ser um cavaleiro e tanto”, elogia a sonhadora garota, fascinada por Roderic.

A fogueira do acampamento crepita e reflete os detalhes das armas e armadura decoradas de Roderic. O acampamento é apenas deles, Rose-Marrie misteriosa e providencialmente desaparecida. Conversavam ali fazia bons longos minutos. Roderic descobrira que a menina é a terceira filha, e que seus pais são donos de um moinho; os dois mais velhos, um homem e uma mulher, foram enviados a outros clãs morar com a família de seus cônjuges, e por isso seus pais queriam trazer um homem bom, firme e sábio para a família, para ter a quem deixar. A garota conhecia alguma coisa dos Seis Territórios por histórias de livros e figuras de cavaleiros, mas admitia que nas viagens que havia feito para as terras baixas nunca tinha visto um cavaleiro como ele. Para ela, ele parecia um príncipe, e ela seria muito feliz se casando com um príncipe...

“Roderic! Dá licença menina”, diz um esbaforido Kniaz, tirando a moça de lado. “Dan está em apuros, perdido no Vale da Neblina. Pegue suas coisas, estamos montando um grupo para buscá-lo!”, ele diz rapidamente, jogando o bilhete à Roderic, que o lê.

Kniaz entra em sua tenda para vestir-se com sua pesada armadura de cavaleiro, enquanto Roderic pega armadura leve e uma espada de suas coisas. Kniaz não encontra grande sucesso em colocar sua armadura rapidamente, e a menina se oferece para ajudá-lo.

“A esposa de um cavaleiro deve saber isso, não?”, ela brinca. “É melhor eu ir treinando...”

“Muito bem. Ajude-o então. Kniaz, encontrarei Ivdan enquanto isso. E quanto a ti, lady Iglad, consegue encontrar seus pais após ajudá-lo?”

“Si...sim milorde”, ela diz. “Não devo esperá-lo?”

“Não, vá até seus pais. Encontrarei-lhe amanhã. Eu prometo”, ele diz, lhe dando um beijo na mão antes de partir. A menina, fica lá, de olhos grandes e brilhantes, vendo o belo e firme cavaleiro se afastar, perdida no espaço e tempo, absorta em pensamentos puros, maliciosos ou talvez uma mistura de ambos, alheia ao mundo.

“Ei!”, a trás de volta Kniaz, a chamando para ajudá-lo com a armadura, “Ir treinando, lembra???”



Redores do Templo - Norte de Doleris - Princesa 26 de 590E
 

O bilhete de Dan, e o relato de Farghal, revelam que Dan fora levado pela correnteza do rio até perto de uma cachoeira. Como há dois rios com corredeiras que levam a cachoeiras nessa alta região, decidem seguir para a mais próxima.

Chegando na ponte, Ivdan, Roderic e o patrulheiro observam um pouco o ambiente em volta, e não demora para encontrarem sinais de luta: Na ponte de pedra pode ser encontrado sangue humano, bem como sangue negro corrompido: Quando um demônio possui uma criatura e transforma o seu corpo, quando tornam-se uma coisa só, até seu sangue é corrompido e torna-se uma bile enegrecida, exatamente como a encontrada.

Ivdan porém estranha algo. Não há marcas de luta em volta da margem do feroz rio. Deixa de lado porém a investigação para alcançar da forma mais rápida possível o companheiro: Nadando.

Para o desespero de seus companheiros Ivdan se joga nas águas turbulentas, rapidamente sendo arrastado.

“Ele.... pulou?”, encontra-se em choque o patrulheiro que os acompanha.

“...ele...”, pisca Roderic, incrédulo. “OH CRIADOR! POR ALENE, PRECISAMOS SALVA-LO!!!”, e ambos partem atrás do patrulheiro.

Ivdan por sua vez suavemente superestimou sua habilidade de nado, e é jogado contra as rochas, balançado para os lados e levado em grande velocidade e com diversos acidentes pelo caminho. Nem tudo é tão ruim, até ouvir o rugido de uma cachoeira.

“Nãonãonãonãonão!”, nega conforme se aproxima da queda, não uma queda alta que o levaria a um lago, mas sim uma sequência de cinco ou mais quedas rochosas de aparência particularmente dolorosa. Sua habilidade de alcançar a margem falha, porém... “Nãaaaaaaaaaaao”



***

De primeiro Ivdan sentia apenas frio. E então molhado. Daí pinicadas nas suas costas. E finalmente molhado e quente pelo seu rosto inteiro.

Acorda para ver que fora arrastado para fora do rio, na margem repleta de cascalho de um lago feito não muito após as selvagens quedas. A partir dali o rio era mais calmo novamente, e sua imensidão gélida seguia para as terras baixas. Um grande cachorro domesticado lhe lambia o rosto e cobria-lhe de baba. O homem que o salvara informava que estava em Ainburg, uma vila local.

Ainburg não era uma nome estranho, era uma das vilas que passaram na subida para o Templo; haviam escolhido o rio errado, e ele havia se precipitado. Tentou levantar-se, mas seu corpo ainda estava muito dolorido das contusões seguidas da queda.

O senhor o ajudara, o levando para o centro da aldeia simples de pessoas simples, oferecendo-lhe a hospitalidade de secar as roupas junto à fogueira e comer algo quente para evitar que congele. Mas Ivdan porém é sutil como uma nevasca, e grosseiramente informa que precisa voltar montanha acima para pular no outro rio que leva ao vale na neblina onde seu amigo pulou e agora está preso.

O povo simples ali não lhe dá ouvidos, e isso o deixa mais irritado e violento, até que eventualmente o patrulheiro começa a ficar cada vez mais cansado e sonolento, finalmente notando que o drogaram.

“...eu vou... matar, todos... voc...”




Templo de Ceanndubháin - Norte de Doleris - Princesa 26 de 590E

  
“Não é assim que o faz garota”, diz um irritado Kniaz.

“Desculpe meu senhor, eu sou nova nisso”, responde a jovem Iglad.

“Mão firme garota. Mão firme”, ele então solta um gemido surpreso, “Não! Não é para espremer! Ugh! Você deve encaixar, não apertar!

“Oh como sou desastrada, me desculpe meu senhor. Assim está mais de seu gosto?”

“Hmph, um pouco melhor...”

“Mil perdões senhor. Eu irei...”, ela fazia força, e falava entre pausas de respiração “...treinar mais... para ser... uma boa esposa de cavaleiro.”

“Apenas termine isso logo, eu não tenho todo o tempo do mundo.”

“Eu posso parar...”, a garota diz, tímida.

“Não. Qualquer coisa é melhor que fazer isso com minhas própria mãos. Prossiga.”

Do lado de fora, Rose-Marrie cerrava os olhos.



***


A discussão que se seguiu, ou ainda melhor, o surto de Rose-Marrie perante o que ela ouvira, delonga-se grandemente com a pequena e aparentemente frágil garota ameaçando obviamente a menor e ainda mais frágil jovem selvagem. A situação somente é desativada por completo quando Eleonora chega para botar panos quentes. Tendo acabado de sair de uma discussão com seu marido ela era capaz de entender o que acontecia ali.

Finalmente, Rose-Marrie termina de ajudar Kniaz, após ter arremessado nele diversos pedaços de sua armadura, e Eleonora relata o que soube no templo. Por mais que fora firme com Rhaoggan ela já não está tão certa, especialmente com Luthien suspeitosamente desaparecendo.

Dirigem-se ao corvo então, para que ele os guie. Como Eleonora não consegue se comunicar com ele pede que Rose-Marrie o faça, mas aparentemente o fato dela ser ligada a um familiar faz com que o pássaro negro não queira nada com ela. Mesmo assim, o conhecimento de Rose-Marrie sobre a inteligência limitada dessas criaturas ajuda Eleonora a comandar o ser a levá-los a Dan, o que ele faz com imensa velocidade, voando rápido, as vezes sumindo nas sombras e depois surgindo novamente.

Eleonora lança um feitiço de velocidade sobre Kniaz e transforma-se em uma coruja marrom para seguir o corvo, sempre um passo a frente. Kniaz porém, mesmo enfeitiçado, ainda está coberto de placas e correndo por uma floresta selvagem, no escuro, enquanto os outros dois voam. Logo ele os perde, e para junto a uma árvore para respirar.

É então que ouve um som, uma sequência de sons de algo chacoalhando ao vento. A floresta está completamente silenciosa, sem a presença de um único animal, apenas esse. Quando olha para cima é capaz de encontrar um fetiche feito de cabelo e ossos, um tipo de Apanhador de Pesadelos macabro. Ele ouvira histórias que bruxas e feiticeiros praticantes de magia negra utilizam artefatos semelhantes para capturar almas e prender demônios. Magia negra pesada, ali, em uma árvore do território sagrado das druidesas.

Bem como em diversas outras árvores em volta.


 ***

Subindo o rio, Dan encontra-se no limite de suas forças, conforme o frio lhe abraça. O pouco de sangue que lhe preenche ferve porém quando ele ouve um som na floresta. Sacando a espada de ferro batido ele se vira para encarar seu algoz, e um terrível monstro árvore, como o que havia visto antes, sai do mato para lhe encarar.

A criatura não parece nem um pouco assustada com as ameaças de Dan, e facilmente desvia a garrafa de óleo que ele arremessa. Sua expressão monstruosa, bem como seu passo lento e determinado, logo desarmam Dan de sua coragem, e, presando pela própria vida e largando as aparências, ele é tomado pelo mais puro terror, arrastando-se futilmente o mais rápido que pode, mesmo sabendo que a criatura seria capaz de alcança-lo se decidisse acelerar nem que apenas um pouco o passo.

Mas a criatura para, porém, e Dan a encara. O ser dá dois passos para trás, e com um som que seria um rosnado gerado por uma garganta que é apenas madeira, corre de volta para a neblina. Dan é um homem esperto, e também lera livros o suficientes para saber que a criatura não fugira dele, e que sim de algo que está exatamente atrás dele. Esperando por uma druida com arco apontado para ele ou outra pessoa com quem tivesse que negociar, ele vira-se.

Sua mente não estava preparada para o que viu em seguida.

***



“Nãaaao! Brhgbrhgbrbrbr”, é uma representação válida do som que Eleonora ouve, ainda em forma de pássaro, quase tendo perdido o familiar de vista. Chega para observar uma cena terrível, onde um monstro árvore de talvez quatro vezes a altura dos outros apertava Dan com uma poderosa “mão” feita de vinhas e galhos retorcidos, o interrogava e, insatisfeito com a resposta o colocava de cabeça para baixo dentro do riacho furioso. Não apenas isso, mas Dan estava pálido, e seu sangue escorria pela “mão da criatura”.

De primeiro Eleonora tremeu ao ver o monstro impossível, mas logo fez um som de choque ao ver os restos esmagados do corvo família de Dan. Esse som fora o suficiente para a criatura a notar, e em um movimento rápido pegá-la com uma outra “mão”.

“Bem bem bem” a criatura cheirava Eleonora. “Não és uma viajante qualquer, mas uma druida. Diga-me, pequena Folha, não sabes que apenas a Bruxa deve andar por essas terras? Tu não tendes o controle necessário para não acordar os espíritos!”

Ela havia ouvido as histórias de guardiões do vale, espíritos antigos que viviam as voltas dos menires, e havia ouvido falar de Troncoduro, um espírito guia em forma de árvore, que, assim como tudo no vale, apenas as Bruxas poderiam acessar.

“Eu sou Eleonora, serva do Senhor da Galhada. Não era minha intenção invadir seu território, espírito ancião”, ela diz.

“A floresta não é segura para crianças. Especialmente a noite. É mais seguro que vá embora; mas primeiro preciso terminar de lidar com esse Bruxo aqui”, responde a assustadora criatura árvore, com uma voz que mais se assemelha a um rosnado gutural.

“Na verdade, anciente, ele está comigo. Por favor, largue-o, ele é meu amigo. E oh não, ele está morrendo, precisa me deixar salvá-lo!”

A criatura porém não reage bem à essa nova informação, acusando as filhas das tradições antigas à unirem-se a magia negra e pactuantes com espíritos das trevas, e quase os esmaga ali mesmo. Porém no meio de sua ira ele para, e retorna à sua voz neutra.

“Vós não devias estar aqui. É por isso que existem os ritos, as tradições antigas; para serem seguidas. Vós não tendes o controle suficiente sobre tuas vontade; não sabem o mal que estão fazendo a esse lugar. Se eu não fosse um espírito da Paciência vós estariam mortos agora. Mortos, eu digo”, e o diz como se falasse sozinho, andando a imensamente largos passos pela floresta, carregando-os como se fossem dois brinquedos.

***


Eleonora e Dan tentam se explicar, e falar do mal entendido, conforme foram jogados em uma grande clareira com terra escavada no centro. O ancião árvore vai até a terra escavada e crava suas raízes lá, seus vários braços/galhos se erguendo para a lua como uma árvore normal, enquanto sua face monstruosa e terrível, mas séria, os observa.

Eles explicam que estavam atrás de um traidor entre o grupo de Luthien, e que temem que uma das folhas compactua com as trevas. Mais ou menos mantendo a calma, e tentando não ser contaminado pelas emoções dos mortais, o ancião lhes revela que de fato isso é verdade: Há uma Bruxa, usuária de magia negra antiga, que faz de partes da floresta seu lar. Essa bruxa negra roubara suas sementes, e as está usando para prender espíritos destrutivos dentro de árvores, criando monstros terríveis. Ele, como um espírito, não é capaz de entrar em grandes partes da floresta, onde essa bruxa erguera proteções mágicas; de fato, com toda sua idade e sabedoria ele não pode defender suas árvores devido à essa magia antiga.

Ele informa que a Bruxa Branca, a druida líder do templo, sabe de tudo isso, que ele já a informou de tal. A Bruxa Branca já está o ajudando, utilizando de seus vastos poderes e habilidades para lidar com isso; mais um motivo pelo o qual simples filhotes não deveriam pisar nesse território e envolver-se em assuntos que não são capazes de lidar.

O coração de Eleonora vai ao chão quando ouve que Luthien já fora informada pelo espírito ancião dessa bruxaria negra, mas que mesmo assim não fez nada, suas suspeitas de que ela tenha, de fato, utilizado de magia negra para chegar onde chegou, e esteja fazendo sacrifícios de sangue e humanos para essa magia negra, crescem e tomam-lhe conta.

“Eleonora, Dan, cuidado!”, grita um esbaforido Kniaz, que chega a clareira tendo seguido os berros do ancião nos momentos em que era contaminado pelas emoções dos mortais.

Não se pode culpar o guerreiro por seu heroísmo, mas tão logo ele vê o imenso monstro árvore, ele não apenas nota que está segurando um machado como também nota que o monstro está com os olhos fixos em dito machado. A criatura, contrário à sua natureza, explode em ira, levantando-se e partindo por sobre Kniaz, que firma-se para enfrentá-lo.

A situação apenas não é pior pela intervenção de Eleonora, que coloca-se entre os dois, de braços abertos.

“Ancião, esses não são seus sentimentos! É minha própria raiva e culpa! Seja paciente com nós filhotes tolos!!!”

“Hmmmrrrr...”, o monstro pensa, voltando a seu normal. “Saiam desse local sagrado. E mandem-me a Bruxa Branca. Ela deve responsabilizar-se pelos estragos que seus filhotes causaram...”, ele então se aproxima de Dan, e estica uma “mão” feita de galhos, espinhos e vinhas. “Chupe meu dedo”

De primeiro Dan acha a situação toda meio absurda, conforme o monstro árvore tem um dedo “indicador” esticado para ele, e troca primeiro olhares duvidosos com Eleonora, que o incentiva a fazê-lo, e então para com o ancião.

“Não conseguiria sair dessa floresta com vida de outra forma: Teus ferimentos são graves demais, teu corpo não resistiria; pela manhã estaria morto. Minha seiva da vida curará seu débil corpo. Faça-o, e não teste minha ilimitada paciência.”

O que se segue é milagroso: O terrível ferimento no peito de Dan começa a se fechar, como um ferimento pequeno o faz quando o corpo se regenera: As paredes do ferimento se juntam, uma massa vermelha se forma na fenda, um pouco de pus escapa do ferimento, e logo a massa vermelha torna-se dura e marrom, eventualmente suas bordas secam e ela cai, deixando apenas uma linha branca de cicatriz. Tudo em menos de um minuto.

***

O mago de guerra, a druidesa ruiva e o gigante finalmente chegam até a ponte onde Dan caiu. Ao longo do caminho ele lhes contara sobre os eventos com Fearghal, que ele lhe contara sobre uma mulher na floresta, o trouxera até ali, o esfaqueara e chamara lobos demoníacos sobre ele.

À ponte porém logo são encontrados por Roderic Calhart, a cavalo, que vem tranquilamente pela estrada. De primeiro acreditam se tratar de um espírito maligno disfarçado, talvez o próprio Fearghal ou a Bruxa, mas logo chega também o caçador Endor trazendo na garupa do cavalo um desmaiado Ivdan.

Eventualmente todos revelam o que descobriram, e notam que não possuem muito tempo. Eleonora, ainda se negando a acusar a amante, deixa claro que “algo” está ocorrendo, e que se o complô conseguiu colocar o povo de Luthien contra ela, eles não tem mais tempo a perder. Luthien está em perigo, e se eles não solucionarem isso toda a sociedade de Eleonora também o estará.

A conclusão que chegam é a única plausível: Precisarão eles mesmos encontrarem a Bruxa e acabarem com ela e seus feitiços, tudo isso antes que Luthien e Rhaoggan se matem. Para isso terão que ir ao Vale da Neblina, mesmo sem permissão, mesmo sem saber para onde ir, mesmo cansados, mesmo de noite.

Ivdan fica incumbido de retornar ao acampamento e avisar aos homens que eles precisam partir dali antes do amanhecer; talvez eles não retornem do vale, e caso isso ocorra chances serão grandes que eles, como estrangeiros, sejam culpados. Também fica incumbido de trazer as Jóias das Estrelas e Rose-Marrie, as primeiras por que enquanto não conhecem seus poderes eles poderão acabar precisando deles para enfrentar bruxaria negra, e a segunda por que apesar de tudo o que Eleonora tenha contra ela, não pode negar que Rose-Marrie tem algo essencial: Ela é esperta.

Ivdan porém alcança dois problemas: Primeiro Roderic havia liberado os homens, juntá-los fará com Rose-Marrie demore; e segundo carregar as duas gemas juntas é um esforço sobre-humano. Acaba tendo por decidir entre levar Rose-Marrie ou organizar o acampamento para que ele vá embora, e decide pela segunda opção; a garota loira fica para trás para juntar os homens e partir antes do amanhecer.


Vale da Neblina - Norte de Doleris - Princesa 27 de 590E



Ivdan calcula que seja madrugada quando unidos alcançam a cachoeira onde Dan quase caíra. Obviamente isso não passa de uma intuição e dom natural para tal, pois o céu é impossível de ser observado com detalhes através da fina mas presente neblina que os cerca.

O ambiente ali é parado, por falta de uma expressão melhor; não há sons de animais nem insetos, os cheiros e mesmo os sons da natureza são abafados à distância, e é como s mil olhos os observassem por todos os lados. Ali é uma terra dos espíritos, um local de véu fino ou talvez rasgado; claramente não é um local para criaturas de carne.

Ivdan precisa lhes conseguir uma trilha que desça o penhasco da cachoeira, e conforme procura algo ele vê uma luz à distância, um fogo fátuo que brilha e segue por uma trilha que desce.

“Vocês viram isso???”, ele desespera-se.

“Não. O que?”, saca a arma Roderic.

“Uma luz, uma luz.... mágica, espiritual, algo!”, diz, apontando para a direção.

“Fogos fátuos, Ivdan”, diz calmamente Eleonora. “Em locais onde o véu é bastante fino espíritos menores podem ter uma manifestação no nosso mundo sem precisar possuir algo. Geralmente uma luz.”

“Ótimo. Demônios que não precisam possuir algo. Per-fei-to”, ironiza o patrulheiro.

Ele tenta por uns bons 15 minutos encontrar outra rota que desça, que não seja a por onde a luz passou, mas não consegue encontrar um outro lugar semelhantemente seguro. Acabam por usar essa rota a muito contragosto de Ivdan, que eventualmente vê a luz de novo, que se forma em um espaço no caminho e desce ao solo. O choque maior é chegar ao ponto e ver que ali há algumas pedras soltas, que talvez nesse escuro Ivdan não tivesse notado, e que poderiam provocar uma queda fatal caso alguém pisasse.

Eventualmente alcançam o solo abaixo, e discutem um pouco que opções possuem para localizar a Bruxa. Mesmo considerando a parte do Vale mais próxima do templo do Senhor da Galhada, a região ainda é composta de florestas virgens, repletas de neblina e iluminadas apenas pela lanterna de Roderic. Sugerem talvez um ritual de adivinhação. Eleonora porém tem outra resposta.

“Em uma cidade, tu procuras uma biblioteca para ler sobre tavernas locais, ou tu pergunta ao povo? Estamos na casa dos espíritos; tudo que precisamos fazer é mostrar nosso respeito às suas leis.”

A druida então faz uma pequena cerimônia, chamando por qualquer espírito curioso que esteja por perto, pedindo por sua ajuda e agradecendo por recebê-los em sua terra. Após um tempo, um fogo fátuo, azul como o que guiara Ivdan, surge frente a eles.

“Obrigada por responder meu chamado, nobre espírito”, diz a druida, abaixando a cabeça e pondo ao chão a oferenda de ervas e óleos sagrados.

“É bom ver que ainda há aqueles que conhecem os antigos acordos...”, diz uma fina voz feminina vinda da luz.

A luz diminui, revelando a forma pode dentro dela. Talvez sejam contos de fadas, ou histórias que os magos contam, mas a maioria ali presente esperava por uma feminina ou andrógena figura minúscula, talvez nua e possivelmente com pele de cor estranha, com asas de borboleta ou mariposa, e possíveis olhos ou antenas de inseto. A verdadeira figura é o suficiente para que Ivdan arregale os olhos e outros, menos Eleonora, se surpreendam.

 
O alienígena espírito fala com as diversas cabeças ofídicas, e explica que a maioria dos espíritos não agressivos não tem interesse por mortais ou seu mundo, mas que ele como um espírito do cuidado não poderia deixar que se ferissem com o penhasco, nem poderia deixar de responder a um pedido de ajuda de pessoas perdidas. Ele também responde as indagações sobre uma Bruxa, e diz que de fato uma bruxa negra faz seu covil no vale, erguendo proteções que impedem que os espíritos passem, e usando de sua magia terrível para trazer espíritos malignos e negros dentro de árvores e animais.

“Nós podemos levar-lhes.” “Mas pedimos, por favor, fiquem seguros.” “Nos mataria por dentro saber que se feriram por nossa culpa.” “Por que aceitamos levar-lhes ao território da Bruxa.” “Sigam-nos.”

***



O espírito os leva até uma região mais afastada e sombria da floresta. A sensação alienígena de neutralidade é trocada por uma presença assustadora, predatória, e muito, muito ofensiva à intuição dos mais sensitivos. O espírito não pode prosseguir, mas os heróis de carne e osso sim, e não demoram para que comecem a encontrar fetiches espalhados pela floresta; seja uma cruz de ossos de pássaro decorada com penas e cabelo, a um apanhador de sonhos feito de forma similar, a pequenos bonecos e representações colocadas ao chão como pequenos guardiões, diversos pontos da floresta possuem tal decoração grotesca.

Prosseguem pela escuridão até notarem um reflexo distante: A luz da lanterna de Roderic refletira o brilho lustroso de sangue em uma árvore. A árvore em si tinha uma parte oca, parte a qual fora escavada rusticamente em um altar com uma “pia” manchada de sangue. Algumas velhas velas vermelhas adornam o local, bem como diversas runas de magia negra e canais que descem da pia pelo tronco até uma placa de rocha com um símbolo desenhado.

Eleonora tem um mau pressentimento e pede que deixem esse altar profano para trás, porém é tarde demais, pois ouvem um estranho som pela escuridão da floresta, como se alguma coisa respirasse com dificuldade e corresse mancando.

Roderic gira a tocha para iluminar em volta, conforme todos se armam, e por um momento rápido ilumina uma mão pálida, impossivelmente fina, longa e magra, que ao ser banhada pela luz começa a ficar com a pele rosada como um fruto do mar. A criatura rapidamente foge para as sombras com um sibilado de dor, e volta a cercá-los.

“A Luz, não é capaz de suportar a luz!”, anuncia um atento Dan.

É tarde para tentar proteger a chama porém, conforme uma voz rasgada lança um feitiço ao ar e então o próprio vento resposta, soprando uma rajada forte e contínua sobre os heróis, que faz com que a chama desprotegida balance e eventualmente se apague. Tão logo a luz cai, e enxergam pouco mais que a frente de seus narizes, ouvem um guincho temível, algo misturado entre ira e dor absoluta, conforme um monstro saído dos pesadelos lança-se sobre eles. A criatura é fêmea, impossivelmente magra, fina e pálida, com a cabeça sem olhos dominada por uma única imensa boca vertical com um olho vermelho dentro, seus quatro braços terminando em unhas longas e curvas.