Anjo Salvador - 24  

Posted by Diego Bastet in



Sessão 24

Acampamento dos Lâminas Púrpuras - Ermo - Guerreiro 27 de 590E



“Um momento, comandante”, dizia preocupado Zigrun, “nada havia sido dito de viajar através de... magia...”, ele completava, braços cruzados e expressão preocupada.

“Faz-se algum problema, tenente?”, indaga Roderic.

“Sim senhor. Eu...”, o homem bruto olha de lado, procurando palavras.

Outros soldados e capitães ali em volta também parecem consternados, mas ninguém ousara criticar Zigrun ou acusá-lo de covardia, dada sua fama.

“Tu não se sentes confortável com tal viagem”, Roderic finalmente diz, poupando o homem de maior humilhação.

“Não lhe tomava como tipo receoso de algo, Zigrun”, comenta Eleonora, sua intenção não exatamente certa.

“Pois bem, Eleonora, aguardai, irei brevemente solicitar outra companhia”, rapidamente adiciona Roderic, fulminando Eleonora com desaprovo no olhar.

Enquanto seguem seu caminho para Falonde, haviam decidido por realizar algumas poucas outras coisas no caminho; nada que fosse atrapalhar sua viagem ou atrasá-la significativamente. Haviam decidido-se por contatar Luthien, a bruxa branca, para não apenas contar-lhe o que se sabem, e assim evitar que tal segredo extingua-se com eles caso pereçam, como também para solicitar sua ajuda com um tipo de feitiço.

Eleonora havia proposto contatarem alguns de seus aliados e pessoas com informações, mas tal sendo feito através de poderosa magia mental. Oneiromancia, a arte dos sonhos como explicava, permitiria que viajassem à mente de um conhecido e em seu sonho ter com ele; tal sonho seria lembrado de forma vívida ao acordar. O perigo porém residia em abrir sua mente demais; o feiticeiro mandaria sua mente, ou ainda de forma mais perigosa, a mente de outra pessoa, para o mundo dos sonhos de outrem; não apenas a viagem astral pelo véu era perigosa de forma que todas as teorias mágicas explicam, como também havia o risco de que outra mente retornasse; distorcida, manipulada ou substituída por um espírito faminto do Além.

Sua intenção era utilizar as barreiras, pactos e proteções de Ceandubhain, bem como o auxílio da feitiçaria poderosa de sua amante, para realizar tal feitiço de forma mais segura. Para isso teria de viajar até o templo, e estava confiante em utilizar ainda outro feitiço para tal; a arte da Translocação.

Teorias mágicas explicam à leigos, de forma didática, que a arte da Translocação resume-se em abrir um rasgo no véu, adentrar por ele e como tal tornar-se espírito, para viajar rapidamente até outra localização e reverter o processo. Como todas as artes que envolvem a manipulação do Véu, o risco estava em não retornar. Existem diversos feitiços estudados e quantos outros secretos que realizam tal, com distâncias maiores cada vez mais difíceis -e, perigosas- de se alcançar; com a maneira mais segura sendo utilizar Guias, ou Chaves, marcos que ligam o feiticeiro a um certo ponto e o guiam automaticamente a esse ponto, sem necessidade de metafisicamente “guiar-se” através do véu.

Apesar de limitados, os estudos de Roderic e Dan eram o suficiente para compreender as leis da teoria mágica, bem como os riscos envolvidos em artes como a Translocação. Eleonora porém estava segura na utilização de outro processo, comum aos druidas e desenvolto pelos povos Antigos para tornar o processo mais seguro: Seu feitiço utilizaria as míticas Linhas de Ley para realizar a conexão. Tais linhas, pelo que explicara, eram os fios que ligavam todas as coisas vivas e seus espíritos; “fios do destino” por assim dizer. Certas linhas eram mais fortes, porém, linhas que ligavam a pontos espiritualmente importantes, como por exemplo o Templo do Cavaleiro Chifrudo, e essas linhas comumente manifestavam-se em grandes árvores anciãs. Ela estava segura que seria capaz de apaziguar o espírito de uma árvore anciã e através dela utilizar as Linhas de Ley para translocar a si e a alguns aliados a uma árvore central do Templo.

Zigrun porém não ficara contente com o prospecto de ser um dos que iria.

E devido a isso Roderic procurara por Rose-Marrie, que encontrara ajudando a descarregar caixas de um vagão. A jovem fora designada para proteger uma das Jóias enquanto o grupo partiria, a outra sendo cuidada por Aurele. Conforme Roderic explica-lhe que precisarão de sua ajuda não apenas por que Zigrun acovardara-se mas também por ela possuir forte intuição, a jovem parece tudo menos animada com o prospecto da Translocação, mas ainda assim engole em seco e aceita seu dever.

“Tens medo?”, o comandante indaga.

“Não!”, ela responde rapidamente, e então desvia magistralmente o assunto, “é apenas que Eleonora odeia-me, logo suas companheiras também devem fazê-lo...”

“Diz Luthien”, o comandante corta.

“...ela deve me odiar ainda mais...”, ela então tenta esboçar um sorriso. “Ela assusta-me.”

“A mim também.”

Templo de Ceandubhain - Ermo de Doleris - Guerreiro 27 de 590E

Entrar na árvore, bem como sair dela, fora uma das experiências mais estranhas que os tenentes passaram, “enxergando” cores, símbolos, sentindo cheiros e tato de sensações diversas, mas especialmente, quando caem do lado de fora de outra árvore, desequilibrados e de joelhos, é o fato que tudo pareça um sonho que torna a experiência mais estranha.

“Veja só quem retorna para mim”, diz uma voz. “Seja bem-vinda, raposinha.”



 "Tira o olho Dan" - Eleonora

Era Luthien, a bruxa branca, vestida em um justo e fino vestido branco, acompanhada de quatro outras bruxas, uma delas a folha Aisling e outras jovens iniciadas ainda fora de idade reprodutiva, Sementes. A líder do local ajuda Eleonora a levantar-se de seus joelhos, e então as duas imediatamente envolvem-se em calorosos abraços e beijos. Coçando a nuca Aisling ajuda os outros a levantarem-se também, que não perdem tempo em comentar sobre o ambiente, o clima e o tempo, tudo menos as duas druidas que beijam-se. As crianças até escondem risinhos, e Aisling até parece um pouco desconcertada, mas tal é devido ao fato que Luthien estava a ser uma má anfitriã e esquecera seus convidados; demonstrações de afeto e paixão são comuns em seu povo, ignorar convidados não.

“Como sabias que viria?”, diz uma sorridente Eleonora entre beijinhos.

“Bom”, responde Luthien, soltando a druidesa. “Eu não seria lá grande Bruxa se não soubesse do que ocorre; e o que ocorrerá, em meu Domínio.”

***



Posteriormente têm com a Bruxa acerca dos assuntos que passaram, contando-lhe sobre os eventos que passaram-se desde que deixaram Ceandubhain no Imbolic. Os arredores do templo estão sendo preparados para festividades, especificamente o Beltaine, o Festival do Verão, onde postes com fitas coloridas são erguidos, fogueiras são acesas e os jovens dançam em volta dela, e o homem e seus animais são abençoados. Diferente do Imbolic, não haverá um Finn, e enquanto é certo que haverão visitantes ao templo, muitos permanecem em suas vilas para acender as chamas; motivo pelo qual diversas das Folhas mais velhas viajaram até as vilas maiores para realizar as celebrações.

Estressam o quanto era importante que alguém poderoso e repleto de recursos como Luthien soubesse dos ocorridos, nem que fosse para Assumir o Manto caso algo lhes ocorresse. Indagam também o que a Bruxa sabe sobre o assunto, visto que comunga com os espíritos e como tal pode ter acesso a informação que eles mesmos desconhecessem. Sobre o assunto do Primeiro, dividem com ela a opinião de que os Daemon possui esse tipo de religião, e que pretendem de alguma forma usar as Jóias para trazer-lhe ao mundo. Revelam até mesmo o que ocorrera com Doranos, que fora trazido de volta pelo poder de uma das Jóias.

De primeiro Luthien preocupa-se, pois feitiçaria de ressurreição é sempre muito arriscada; o feiticeiro precisa ter a sabedoria de quando usar um feitiço desse tipo -não permitindo que a força vital deixe completamente o corpo e tecendo novamente os fios que a prendem-, e, especialmente, a sabedoria de quando não a utilizar. Mais de uma história de horror é contada sobre uma pessoa sobre quem é lançado um feitiço de ressurreição por exigência ou desespero de seus parentes ou do conjurador; emoções fortes como essas nunca são um bom sinal na magia, e o indivíduo até retorna a vida, mas não como uma pessoa. De cadáveres ambulantes a monstros ensandecidos, de espasmos de dor e desespero pedindo para serem mortos a entidades estranhas usando o corpo como montaria e esconderijo, a arte de Atalma é perigosa.

Sua surpresa é maior quando explicam como ele retornara, e, especialmente, como não apenas estava perfeitamente bem, e são, como também dissera ouvir uma voz que lhe falava para retornar; acreditavam que as intenções do usuário ditavam o poder da Jóia, que o artefato não era, em si, maligno. Luthien então os elucida em conhecimento que possui e recebera dos espíritos, que os espíritos compreendem essas Jóias como um tipo de entidade que existe no dois mundos ao mesmo tempo, existindo no meio do Véu. Serve tanto para trazer mais Magia, a essência da neblina do Além para a realidade, como para levar Realidade ao Além. Do outro lado, ela explica, as Jóias devem ser como a luz de um Farol. Exatamente por isso parabeniza-lhes por não terem tentado Translocar as joias através das linhas de Ley; apesar de ofendidos que não confiem nela perto das Jóias, nem ela nem os espíritos sabem dizer o que poderia acontecer.

Além disso, Luthien também lhes explica um pouco sobre a possessão, e como espíritos mais poderosos, criaturas muito mais perigosas por superarem o caos simplório das emoções e tornarem-se mais do que “meros” demônios, muitas vezes precisam de receptáculos poderosos para manifestarem-se nesse mundo. Muitos demônios mais fracos não são capazes de quebrar a vontade de outrem para controlar seu corpo, e por vezes não possuem habilidade em reconhecer uma pessoa viva de uma morta, e onde o Véu não é forte acabam por possuir cadáveres.

Espíritos mais poderosos, enquanto mais hábeis e espertos em seus métodos de possessão -bem mais hábeis do que simplesmente gritar e arranhar a “porta” até ela abrir-, precisam de espíritos progressivamente mais “aptos”; é por isso que as histórias mais terríveis de possessão que todos conhecem envolvem feiticeiros de algum tipo, pessoas capazes de abrir o véu e servir como um conduto para o Além. Espíritos poderosos progressivamente precisam de mais e mais “pré-requisitos” para atravessar a cruel barreira do Véu.

Ela também fala, em um certo tom em que não se pode negar certa reverência, que acredita que a Jóia rubra tenha atraído um dos espíritos mais raros e poderosos, um espírito do Amor. Toma-se que tudo do outro lado do Véu é um demônio pelo simples fato que a maioria dos espíritos que interessam-se pela vida e mundo Mortal são espíritos agressivos, amargos ou de alguma forma invejosos da vida. Outros tantos espíritos menos prejudiciais são neutros, e de certa forma apáticos, como espíritos que feiticeiros prendem e transformam em Familiares ou invocam para lutar. Tal cria a ilusão de que não existem espíritos “bons”.

 O amor de dois irmãos pode ser... sufocante.


Apesar de “bem” e “mal” serem invenções do homem, espíritos que fariam bem ao homem raramente se mostram, acredita-se que por simples desinteresse, por serem completos em si mesmo. O amor dos gêmeos, bem como o poder da joia Rubra -ligada, entre outras coisas, ao calor das emoções- certamente atraíra um espírito do amor, que usara seu poder para reparar os fios da vida do Nagajah. Roderic até postula que outras joias possam entrar atrair outros espíritos “bons”, como Esperança para a verde, ou Coragem para a vermelha; Luthien acredita que sim, e acredita ser exatamente tal “uso” que gerara as histórias dos Heróis das Estrelas.

Luthien postula que os Daemon necessitem não apenas de receptáculos particularmente poderosos, como também situações, ambiente e outros fatores perfeitamente bem alinhados, e menciona a história de Algus como exemplo, um homem cujo amargor crescera como uma doença e que a espalhara em outros, “infectando” seus corações com seu ideal. Por fim as ações da nobreza, e de Roderic, o levaram a uma espiral de desespero, amargor e impotência que lhe corroeram por dentro até o ponto de entregar-se a uma organização que não acreditava para enfrentar seu “nemesis”.

É certo que o Cardeal, um verdadeiro Chefe Guerreiro entre homens tivera uma situação igualmente extrema para servir como receptáculo; tanto quanto é certo que a Guerra das Duas Coroas e, talvez, a Guerra dos Cinquenta Anos, estejam sendo manipuladas por essas entidades. Luthien diz que os homens não precisam de espíritos para serem cruéis e matarem uns aos outros -espíritos são reflexos da vida mortal afinal-; mas que a pura e simples maldade dessa guerra atual supera e muito outras. Não se cantarão histórias sobre Honra e sobre como os soldados da Guerra das Duas Coroas seguiram o Velho Código, pois tal não é feito, e atrocidade atrás de atrocidade marca essa guerra civil.

Conforme realizam que derrotarem a forma física dos Daemon provavelmente só servira para banir-lhes para o éter novamente, os forçando a uma busca -possivelmente longa- por um receptáculo perfeito, fica claro que sua influência ainda pode ser sentida, e utilizada no mundo mortal. Basta alguns sussurros, ou incentivar uma ação desonrada ou cruel, e o Homem é perfeitamente capaz não apenas de fazê-la como também racionalizar suas atitudes; ou, como a Bruxa coloca, enforca-se com o pouco de corda que lhe é dado.

É nesse ponto que Rose-Marrie tem uma realização, juntando fragmentos de pensamentos que diversos possuíam e dando-lhes voz; notícias dizem que as tropas que lutam pelo Rei Kylan abandonam o fronte e o impasse dos últimos longos meses, e prepara-se para um ataque decisivo a Bel Toras. A fortaleza de Bel Toras é a segunda mais forte de Falonde, e controla o acesso à Doleris; não apenas isso ela é também a mão que alimenta Falonde, onde os alimentos e grãos vindos de Táurida, e, através dela, do mar e do comércio, são distribuídos.

As mentes estratégicas dos tenentes já haviam compreendido anteriormente que o vitorioso desse embate será o vitorioso da Guerra; as perdas seriam tão grandes que o perdedor não conseguiria defender-se mais. A compreensão de o que Rose-Marrie quis dizer logo cai sobre os tenentes, conforme suas mentes consciente absorvem os detalhes: As forças de Volstan preparam um ataque total, o qual as forças de Drewsaw precisarão defender-se também com todo seu poder; o embate será longo, brutal, e extremamente sangrento. Milhares morrerão nesse combate, em um único local, conforme é certo que essa batalha repetirá tudo o que houve de pior durante essa guerra.

Milhares morrerão por causa de batalhas longas e sangrentas; doenças e exaustão; fome e fraqueza; táticas sujas e desonradas; tortura e execução de prisioneiros.

Guerra; Peste; Fome; Traição; Conquista.

Exatamente como os Daemon querem.



***

Ainda mais posteriormente, Luthien conversa com Eleonora sobre a natureza de sua “condição”, e sobre como ela preocupa-se com a criança. A bruxa deixa claro o quanto está contente pela amante, especialmente por que ela tem chance de não apenas ser mãe como mãe de um filho do Deus; uma criança abençoada. Sua preocupação porém é com a natureza do receptáculo que escolhera para Deus, Dan, um homem possuído.

Luthien tenta não julgar-lhe; ela não gosta de Dan por não gostar dele, e pode haver razões e razões pela qual escolhera o caminho de um demonologista. Não apenas isso, mas também chances são grandes que o homem não faça mal à uma mosca, se alguém tão doce como Eleonora decide tomar parte em sua companhia ao invés de expulsar-lhe do grupo mercenário. Ainda assim, ela fizera uma má escolha.

Eleonora admite que escolhera mal, especialmente por que o fizera de impulso, apenas como uma forma de fazer pouco caso das tradições antigas que seguiam, como uma forma de alfinetar a amante; na época estava ofendida com a concepção dos sacrifícios humanos que iam contra os ensinamentos de Sandy, e tradição antiga por tradição antiga, como não podia fazer nada para mudar a opinião de Luthien sobre os sacrifícios, iria “vingar-se” ao macular a tradição do Deus e da Deusa.

A druida admite que olhando para trás fora algo infantil e que ela realmente não considerara as consequências, ou ainda mais provavelmente, não acreditava que haveriam consequências além de enfurecer a amante; já não fazia pouco tempo que considerava-se estéril, portanto jamais imaginaria que a semente de Dan daria fruto.

Suas preocupações se provam verdadeiras quando Luthien a examina, e, consternada a leva até Dan. Eleonora havia lhe contado sua condição por pura exigência da amante; Luthien dissera que se Eleonora não o fizesse antes do exame, ela mesma o faria. O homem fora pego com as “calças à mão” como disseram, um misto de alegria, surpresa e melancolia, e agora bebia junto dos outros homens.

De fato, mais Dan bebia do que os outros, até mesmo o pouco sutil Ivdan preferindo ir com calma na cerveja, todos deixando para Dan que bebe de forma desvairada, em partes comemorando seu legado, em outros preocupado -ou ainda, aliviado- que não seja o pai e por isso não teria responsabilidades, em outras triste que não era digno. Mesmo Eleonora tendo sido clara que o filho era dela e espiritualmente do Deus, ainda era sua semente física, e como tal, parte dele e de seu legado.

Sua bebedeira é interrompida bruscamente quando a Bruxa retorna acompanhada de Eleonora. Ela faz algumas orações e rituais menores sobre Dan, purificando-lhe com algum tipo de benzimento com ervas, antes de subitamente fazer-lhe um corte profundo no antebraço, que sangra profusamente. Surpreso e preocupado, o mago de guerra demanda saber qual era o propósito disso, mas a Bruxa apenas interessa-se em usar seu sangue para um ritual, onde não apenas pinta-se com o sangue como parece farejá-lo. Não encontrando o que procurava a mulher entrega seu símbolo abençoado para o bruxo, e a preocupação em seus olhos torna-se horror o homem o segura -após muito evitar- e nada ocorre com ele.

“Estaria eu... Curado?”, diz o próprio Dan surpreende-se -e esfrega o símbolo no rosto.

Eleonora porém abaixa os olhos e deixa escorrer algumas lágrimas. Rose-Marrie sobre a boca com as mãos, Ivdan permanece de olhos arregalados e Roderic e Kniaz trocam olhares furtivos e consternados.

“...não?”, Dan pergunta ao notá-los.

Luthien suspira, antes de confirmar as preocupações.

“A criança está possuída no lugar do pai.”



***

A criança no ventre de Eleonora estava possuída por um espírito maligno. Tal tipo de possessão não era como outras porém; tendo sido feita no momento em que a nova vida fora concebida, saltando de Dan para o ovo dentro de Eleonora durante o espasmo de paixão de ambos, a entidade tomaria total controle da nova vida. De certa forma, a nova vida seria o demônio, nascido em um corpo mortal. As histórias desses cambiões são terríveis, algumas falam de crianças inteligentes mas vazias, que tornam-se as piores pessoas, outras falam de mães sendo rasgadas de dentro para fora por filhos monstruosos, outras de crianças deformadas jogadas fora que crescem para se tornar Trolls ou coisas ainda piores.

Luthien ainda tenta convencer Eleonora de não matar a criança, lhe fala de um ritual, uma forma que poderia ser usada para purificar o infante. Conta-lhe então uma história, sobre uma druidesa que morrera antes de dar o parto; a bruxa local notara que a criança ainda vivia, mas que não o faria por muito tempo, removera o cálice da mãe com o bebê ainda dentro, e entregara-lhe aos espíritos para que esses terminassem a gestação. O bebê crescera dentro de uma flor cuidada pelos espíritos, e após os meses restantes nascera forte e saudável; parte espírito, parte mortal.

A criança era Verun, o guardião; e Luthien acreditava que seria possível purificar a criança da perdição demoníaca através desse processo. Toda magia tem seu preço, porém, e o cálice de Eleonora teria de ser arrancado para tal, mas Luthien acredita que tal possa valher a pena, visto que a criança sobrevivera à Peste, à Licantropia e a ser, temporariamente, transformada em um Morto Vivo.

Eleonora não o aceita; enquanto importa-se com a criança, e importa-se que é um filho do Deus, também importa-se com seu marido. Por muito tempo achara que era infértil, pois ela e Rhaoggan tentaram  tanto, de tantas formas diferentes. Não apenas com Rhaoggan, tentara com outros homens em suas viagens, tentara com homens conhecidos como viris e com diversos filhos, tentara mesmo com mais de um em dia que de acordo com seu ciclo seria seu dia fértil, tentara até ser a Deusa em anos anteriores e com as bênçãos de Riona, mas nunca conseguira.

Agora que sabia que não o era, porém, não poderia fazer isso consigo, e, acima de tudo, não poderia fazê-lo com seu marido; não podia negar-lhe o direito de um filho legítimo, um herdeiro legítimo; não apenas não podia amaldiçoá-lo a ter apenas bastardos, como também não queria simplesmente ser trocada por alguém que pudesse dar-lhe filhos. Faria todos os tratamentos que tivesse de fazer, mas daria filhos a seu marido.

É um momento em que ela salta sobre Luthien, realizando que talvez a amiga esteja protegendo-lhe de uma dura verdade. Pensando que talvez Luthien tivesse de alguma forma arranjado para a gravidez de Eleonora ocorrer, indaga-lhe se ela não é, de fato, infértil. Luthien é pega em um raro momento de fraqueza e desvia-se do assunto.

“Nem mesmo a Bruxa é capaz de saber tais verdades, raposinha...”, diz, olhando de lado. “E se soubesse, não esconderia uma verdade...”

“Nem para proteger quem ama?”, incisa Eleonora.

“...eu chamarei Riona...”



***

Luthien deixara claro seu desaprovo quanto a decisão de Eleonora, mas também o faz com a confirmação de quem sempre estará ao lado dela, e tal não o seria diferente agora. Apenas diz que ela deve avisar o pai físico da criança, dizendo que o homem merece saber. Eleonora tem com Dan, explicando o que foi informada. Ela lhe conta o que Luthien o contara, mas o poupa de saber que haveria uma forma de manter a criança viva. O próprio Mago de Guerra tenta lhe convencer, dizendo que não é um destino, nem um espírito, tão ruim; de fato ele o acompanhara durante muito tempo e o protegera de muitos perigos. Eleonora porém é adamante.

“Dan, eu não vim pedir-lhe permissão. Vim avisar-lhe. Por respeito.”

O homem cala-se, olhando de lado e torcendo o queixo.

“Por sinal deverias cuidar desse braço”, ela fala antes de partir, apontando para as bandagens ensanguentadas onde Luthien o cortara.

“Com todo respeito druidesa”, o homem responde em um tom baixo pouco característico de seu jeito animado, “de meus problemas cuido eu.”


***

Dan recolhe-se à solidão, afastado do acampamento que montaram e dos olhares preocupados de seus colegas, bebendo cerveja de um pequeno barril aos pés. Ao longe alguns visitantes e trabalhadores preparavam as piras para o Beltaine. Ele porém ficava ali, afastado de tudo.

Mas sua solidão não duraria, pois conforme o coração da pequena massa de carne que um dia poderia ser uma criança, arrancada de Eleonora como o fora, para de bater e o ser para de se mexer, envolto pelos panos limpos de Riona, e conforme Luthien segura a mão de sua chorosa amiga, algo ocorre com Dan.

Primeiro, seus colegas veem o mago de guerra se contorcer e debater, gritando de dor. Logo o homem cai ao chão, travado, e começa a se contorcer em direções que não deveria, bem como tremer e babar em convulsões selvagens. O homem está claramente sendo possuído, especialmente quando ameaça se contorcer de maneiras que seriam efetivamente fatais, precisando que o forte Kniaz o mantenha travado.

“Luthien! Chamem Luthien!!!”, grita Roderic, “LUTHIEEEEEN!!!”



???

Uma brisa agradável soprava descendo a colina verde, fazendo a relva balançar. Acima, Dan via o céu do crepúsculo, pintado em belos tons de púrpura e laranja, pouco escondendo brilhas estrelas nas partes mais anil do céu. Ao longe crianças corriam junto com filhotes de cães, e o ambiente era calmo se não por trovões à distância.

“Ei menino”, perguntava Dan, que colocava-se de pé, “onde estamos?”

Um dos meninos, que tinha acabado de cair, levanta-se e ri, antes de sair correndo rumo ao resto de sol, sendo acompanhado por um trovão.

“...bom...”, Dan olha em volta, e nota que tem uma cesta de piquenique junto com ele, repleta de boa cerveja, “...deve ser o céu...”

Mas tão logo o fala os trovões tomam conta do ambiente, e olhando para o por do sol pode ver a pintura mudando, o céu torna-se vermelho e queimando, chovendo fogo e cinzas, as crianças sendo consumidas pelas chamas enquanto os filhotes de cão os fazem em pedaços com presas maiores do que deveriam ser. Todo o ambiente parece ruir, conforme mais um esconderijo de Dan é quebrado, e mais uma memória é engolida.

Logo a algo na frente dele, uma abominável rubra que apenas poderia ser descrita como “humanoide” por alguém cego.

“Tudo que é seu, pertence a mim”, a criatura rosna, “e meu, será!”

“Nunca!”, diz Dan, desafiador, antes de toda a realidade a sua volta ser desfeita. “NÃAAAAAAO!!!”




Templo de Ceandubhain - Ermo de Doleris - Guerreiro 28 de 590E

Os tenentes acompanhavam preocupados o progresso de Dan. Uma das Folhas mais jovens cuidava eventualmente do homem, dando-lhe água e plantas medicinais. O homem tivera de ser amarrado por sua própria segurança, visto que passava de momentos de delírio e múrmuro a momentos de contorcer-se e debater-se furiosamente enquanto gritava em línguas. Estava assim desde o dia anterior, e os tenentes ali não tinham respostas, por Luthien comungava com os espíritos sobre sua condição.

Eleonora até tenta ir atrás da Bruxa, mas é impedida pelo Guardião, precisando esperar independente de quem seja. Eventualmente a Bruxa vem até eles, coberta apenas por uma longa capa vermelha com capuz e coberta por pouco atraentes pinturas em sangue e tinta azul.

A mulher então explica, para a tristeza geral, que conforme o infante possuído morrera, o espírito perdera seu corpo enquanto preso desse lado do Véu. Certamente enlouquecido de raiva ou dor, ele atacara novamente a Dan, com quem passara tanto tempo, e agora Dan travava uma batalha contra o invasor. Ela explica tristemente que o demônio irá devorar as memórias de Dan e lentamente tomar conta dele; por mais treinado e mais forte que ele seja, esse é o destino de quem deixa um demônio entrar, sua mente, existência e vontade deixando de existir.

Clamam para que ela faça algo, mas não apenas Luthien não é nenhuma exorcista, como exorcismos costumam matar o hospedeiro, mas acaba por revelar algo; um ritual que era usado antigamente era parecido com a Oneiromancia que Eleonora tenciona usar para encontrar-se com Karissa; um processo perigoso em que o feiticeiro entra nos sonhos do possuído e de dentro fecha a conexão com o demônio. Obviamente que esse ritual não é um ritual perdido à toa, muitos feiticeiros e druidas incautos acabaram por perder suas almas nesse ritual, conforme não são fortes o suficiente para possuir o demônio e saem da mente da vítima também possuídos.

A bruxa é categoria em negar-lhes o pedido de ajudarem dessa forma seu amigo, não apenas pelo ritual ser perigoso como por que também ela não seria capaz de protegê-los; por mais que mais de uma pessoa certamente ajudariam a erguer barreiras mentais mais fortes e dariam mais tempo para que Dan lutasse contra o demônio, caso o homem falhasse eles todos estariam perdidos dentro de sua mente; estariam efetivamente mortos, e isso ela não pode, e não irá, permitir.

Timidamente Rose-Marrie oferece então uma solução. De sua forma de sempre, sem entrar em detalhes, a garota diz que talvez seja capaz de ajudar de alguma forma.

“E como o faria, Rose-Marrie?”, indaga Kniaz.

“...eu...”, ela murmura.

“Não me diga algo como “não posso dizer”, coisinha!”, esbraveja Luthien.

“...eu... não... posso dizer?”, ela diz, com um sorriso tímido.

“Não sei como você aguenta isso”, bufa a Bruxa.

“Tu acostuma-te”, meneia a cabeça Eleonora.

Eleonora

***

Dentro do templo, Luthien os leva até a parte central, às fontes sagradas onde uma estilizada estátua do Homem Chifrudo encontra-se, exatamente onde o Deus e a Deusa dividiram seus momentos carnais. A Bruxa fora convencida a fazer o ritual apenas com a promessa de proteção de Rose-Marrie, especialmente pelo argumento de Eleonora: “Se não o fizer, eu mesma farei, e eu sou muito pior que ti.”

A jovem Rose-Marrie chama pela gata Cherrie, que timidamente entra pelo ambiente, em tom de questionamento.

“Cherrie, avise para Ele o que estou fazendo”, ordena a moça.

“....meow?”

“Tu entendeste sim. Entrarei com meus colegas na mente desse homem possuído”

“Meow!”, a gata fecha a expressão.

“Sim, e nós não possuímos nenhuma forma de nos defender contra seus ataques.”

“Meow, meooooow!”

“De fato, e poderemos todos termos nossas almas capturadas e tomadas pelo demônio”

“Meow”, a gata parece ameaçar, cerrando os olhos pra garota.

“Tu não tem poder para impedir-me. E além do mais, imagine o que Ele faria contigo se descobrisse que sabia e não o avisou...”, a moça cerra os olhos também.

A gata arregala os olhos, aparentemente realizando a verdade nas palavras da moça, e imediatamente vira-se e corre, desaparecendo em um “puf” de luz. Imediatamente Rose-Marrie perde a atitude corajosa e durona, e começa a tremer de nervosismo.

“Pronto!... devemos... ficar bem!”
Perigosíssimas, vocês duas...

???

Eleonora está de pé, mas abre os olhos como quem acorda de um sonho. A primeira coisa que nota é a claridade do ambiente, uma paisagem de uma fazenda bonita, esverdeada, que toma conta de uma gentil colina, com trabalhadores nos campos e uma confortável casa ao longe. Como um sonhador lúcido ela porém nota como tudo parece errado; as nuvens não mexem, a estrada para longe da fazenda não vai a lugar algum, uma carroça está carregada de alhos do tamanho de porcos.

Não apenas isso, como ali próximo a ela há uma imensa figura metálica, um Golem de Aço do tipo que arquimagos realizam rituais terríveis para criar. Não apenas isso, mas ela está acompanhada também de um Anjo, um homem careca, de pele reluzente em óleo e olhos de fogo, com um par longo de asas e carregando uma trombeta de prata; ao lado há um confiável arqueiro real de Doleris, em armadura leve dourada e vermelha e com um arco; e um pouco atrás, quase imperceptível, um  bicho de pelúcia branco e felpudo.



 Kniaz

 Eleonora

 Roderic

 Ivdan

 Rose-Marrie




“Kniass?”, ela fala, e nota que sua voz sai suave como o vento. Olhando para si mesma vê que é a Deusa, sua pele é azul, uma lua prateada flutua em frente a sua teste, e seus cabelos são anil, chegam quase ao solo e parecem mover-se em resposta a uma brisa.

“Tu. És. A. Deusa”, fala o gigante metálico.

“É sserto que éss Kniass”, ela sussurra.

“FAZ SENTIDO!”, ressoa a poderosa voz do anjo. “FORMAS DE COMPREENDER-NOS! ARQUÉTIPOS!”

“Tu. Seria. O. Líder”, ele então aponta a massiva mão para Eleonora. “Tu. A. Deusa. Que... Bem... Dividiste... Tempo...”, ele fala de uma forma a conseguir transparecer timidez mesmo na voz sem emoção.

“Ssim, ssim, nãao precissass continuaar”, ela sussurra.

“Ah é??? E eu???”, diz uma fina e incômoda voz que sai do bicho de pelúcia. Seus colegas riem, da forma que podem.

“HAHAHA!”, ri como trovão o anjo. “DESCULPE POR ISSO!”

“Eu. Te. Levo. Rose. Marrie”, diz o golem esticando uma mão, conforme o grupo começa a andar rumo à fazenda.

“Não! Eu manterei o que puder de minha parca dignidade!”, diz a coisinha, que então precisa quase correr para acompanhar os passos dos demais.

***



Não demora para estarem na fazenda. Nela algumas pessoas trabalham vestidos em roupas comuns do povo, inclusive Dan, que trabalha junto com algumas crianças. O próprio Dan está vestido nas roupas de um infante, e pelas conversas ele é um ainda nessa lembrança, apesar de que sua forma é a do mesmo homem adulto, alto, forte e, especialmente, barbudo, que eles sempre conheceram.

Logo ele é avisado que tem visitas por um senhor barbudo, que se mostra como seu tio. Ele parece reconhecer seus amigos imediatamente, e nenhuma menção é feita à suas formas estranhas. Eleonora realiza que como imagens costumam ser as memórias mais fortes, provavelmente a imagem de como eles são fora uma das primeiras a lhe ser roubada, sobrando apenas formas de entendê-los.

Explicam para Dan o que está acontecendo, que ele está alucinando e enfrentando a possessão demoníaca, e também a preocupação de que o demônio devorará todas suas memórias e essência antes de controlá-lo; eles estão ali para ajudá-lo, para dar mais força à suas memórias, mas correm tanto risco quanto ele. Dan mesmo lhes revela que não entende muito o que acontece em sua mente, mas que muitas memórias foram tomadas, e que sua presença é anunciada por trovão e tempestade que se aproxima.

São obrigados então a seguir o fluxo do sonho, conforme o tio de Dan pede para que ele receba bem seus visitantes, afinal “nunca duvide-se da hospitalidade de um Redleaf”, e apenas pede para que ele leve o alho para sua tia na casa grande. Dan nota que o alho é gigante, e que isso é errado, não é como suas memórias eram. Tão logo ele o nota o tempo parece fechar um pouco e um trovão se faz à distância.

Eleonora desafia o demônio, falando para que se mostre, mas os outros a relembram que isso seria uma péssima ideia, afinal de contas eles não apenas não tem como defender-se do demônio como estão tentando encontrar o momento em que Dan se abre ao demônio para então fechá-lo. Realizam também que os “erros” nas memórias de Dan são sinais de que o demônio está começando a desfazer suas memórias e aproximar-se, o que indica que precisam ser céleres.

À casa grande, são recebidos por uma mulher gorda e simpática, que se identifica como tia de Dan. Ela os convida para entrar e lhes oferece bolos de milho, que ao serem mordidos se mostram repletos de cerveja; a memória de como bolo de milho é já fora arrancada da memória de Dan, alarmando os tenentes.

Falam para Dan ir ao momento em que abriu-se para o demônio, mas ele mesmo não consegue se lembrar direito, nem sequer forçar os sonhos para frente, precisando fazê-los de uma forma mais ou menos “linear”. O homem é esperto, e então fala para sua tia que precisa ir para Doleris, pois precisa estudar algo muito importante. A memória parece triste, mas lhe dá sua bênção, e lhe entrega uma capa de couro marrom, capa que fora de seu pai e lhe protegerá do clima.

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Dan está vestido com os robes cinzas de um iniciante dos três primeiros anos, sentado à sua cama em um quarto pequeno de pedra com suas camas e duas escrivaninhas; um dormitório da Academia. Em seus braços há uma garota com os robes abertos, revelando seu corpo semi-nu; sua pele é clara e seus cabelos são escuros, e a garota deve ter 13 ou 14 anos. Conversavam romanticamente até o grupo aparecer.

“Dan! Quem são essas pessoas???”, a moça se assusta e se cobre.

“Acalme-se, tudo está sobre controle. Eles são meus amigos”, ela diz, sorridente.

“Ahn Dan, eu não sou esse tipo de garota...”

Eleonora rola os olhos e Rose-Marrie cobre os seus com as patinhas enquanto a moça se veste e sai do quarto despedindo-se de Dan com um selinho. O mago de guerra lhes explica que pelas suas roupas ele está na academia arcana, treinando para ser um mago.

Seu colega de quarto então entra, passando por baixo das pernas do golem e parando um instante para observar as curvas da Deusa, antes de jogar-se à cama e conversar com Dan como se eles não estivessem ali. O rapaz, um menino com talvez uns dez anos, diz que o professor dos Naturais parece querer que todos falhem os testes, dando para eles uma poção de Verbena para que estudem; material que os Iniciados não mexem antes do primeiro ano como Aprendizes, que, nem um pouco coincidentemente, é depois do Teste. Também discutem ódio sobre certos professores e a mentira que é o processo, os Naturais sendo mantidos separados dos Herméticos e a igreja mantendo olhos sobre eles como se fossem demonologistas em potencial, coisa que os nobre com dinheiro e sem talento, os Herméticos, nunca têm que passar.

Eleonora ignora os pré-adolescentes discutindo, e nota algo errado, questionando Dan sobre sua idade. Quando é informada que ele tem 9 anos, Eleonora o aponta o paradoxo de uma garota de 13 anos, que já passara o teste e é uma Aprendiz, esteja interessada e se envolvendo com um garoto de 9 que nem o teste na fizera ainda. Dan parece chocado, e seu mundo vai ao chão, especialmente quando seu colega confirma que ela é de fato a garota mais bonita da escola, e que quase todos os mais novos dariam um braço para serem um pouco mais velhos e estarem com ela.

Um trovão se faz, mostrando que o demônio começara a adaptar suas táticas.

Eleonora é célere em dizer para Dan acelerar suas memórias, mas ele é incapaz de fazê-lo, sendo preciso chegar a algum ponto em que isso faça naturalmente sentido. Decidem por ir estudar, afinal Eleonora poderia ajudá-lo a fazer as poções corretamente, e conforme andam pelo público veem entre os aprendizes vestidos de preto a bela garota de cabelos negros. Cutucam Dan para que ele não interaja com ela, afinal não foi assim que ocorreu no mundo real, e ela passa por eles, parando em frente a outro jovem. O jovem é um pouco mais velho, deve ter perto dos 15 anos, tem ombros largos de um esportista, e os cabelos loiros, lisos e compridos. Ela o dá um beijo e os dois saem de mãos dadas.

Dan não reconhece, mas Kniaz e Eleonora sim, e enquanto Kniaz é incapaz de fazê-lo, Eleonora arregala os olhos ao reconhecer que o esportista mais velho é o mago de guerra Reinhard.

“Quem. É. Esse?”, indaga o golem.

“Um almofadinha”, responde Dan, de coração partido abrindo a porta da biblioteca. “Vamos, eu preciso estudar”

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“Dan, tu saíste muito bem em todos os testes teóricos até agora. Sua escrita é desenvolva, mostraste conhecimento sobre a teoria mágica, e provara conhecer bem o caminho das plantas, ervas, poções e componentes”, diz um velho barbudo.

Ao lado dele, em uma sala sombria, há mais quatro velhos; todos são magos de cabelos e barbas brancos compridos, e todos são genericamente iguais. Dan sabe que eram os Arquimagos, mas também o sabe que não eram todos iguais, ou sequer pareciam-se dessa forma. Mais ao fundo da sala diversos cavaleiros em prata e vermelho, cavaleiros da Inquisição Ardente, a postos para garantir que os magos não façam nada errado.

“Seu próximo teste é o teste mais importante, e definitivo. Toque a orbe.”

Dan toca a orbe ao centro da sala, disposta sobre um pedestal, e tudo muda. Ele está em um ambiente astral de céu de cores diversas para todos os lados, com plataformas de pedra dispostas em meio ao nada. Um cavaleiro templário em armadura prateada o aguarda ao fim da pedra em que está, junto de seus companheiros.

Dan então passa pelos cinco desafios, e conforme derrota cada um, um caminho é aberto ao próximo.

-O cavaleiro lhe faz uma charada sobre um homem que dormia e que fora pego pelo seu contratante, mas que não fora mandado embora. A pergunta era que palavra ele disse para não ser mandado embora; Dan respondera “Amém”.

Após a primeira plataforma o grupo é acostado por um espírito de um jovem, que talvez tivesse também dez anos, em robes azuis o jovem se apresenta como um Natural que falhara o teste e que os Mestres mataram o corpo antes dele retornar; ele agora era um espectro nessas “terras” e tentava ajudar aqueles que, como ele, eram Naturais e por isso odiados pelo sistema. Ele se dispõe a ajudar dando dica a Dan e explicando a natureza dos guardiões.

-A segunda questão lhe exigia rapidez, uma charada sobre um homem sentenciado à morte, que deveria escolher entre três salas qual lhe seria menos perigosa; Dan escolhera a sala com leões famintos que não comem a três meses, pois estariam mortos.
-A terceira prova é um desafio de sagacidade, que fala de três irmãos, um mais gordo e mais lento, um do meio, e outro que apesar de ser o mais rápido era também o segundo; Dan identifica os irmãos como os ponteiros do relógio.
-A quarta questão é dada por um dragão, que fala que o viajante tem negócios a lidar na vila das pessoas que falam apenas a verdade e não na vila das pessoas que só falam mentira, e que encontrando uma pessoa de uma das vilas descobre com uma única pergunta qual vila deve ir; Dan responde que a pergunta fora “de onde vem?”, ao ponto que o dragão lhe diz estar errado.



O guardião diz que Dan ficará preso para sempre ali, pois não possui a sagacidade para continuar com algo tão simples não teria também capacidade para controlar a magia. Dan e seus amigos discutem, com Dan entregando-se ao desespero por um tempo. Kniaz e Eleonora tentam criar um plano para escapar, imaginando que seria nesse momento que Dan se renderia ao demônio, mas não o é. Dan encara o dragão e explica por que ele está certo, mesmo com Kniaz raciocinando de forma diferente.

Após fazer seu caso, o dragão lhe diz que esse era o desafio verdadeiro, as três questões de antes eram apenas uma forma de fazê-lo sentir-se à vontade com a ideia de charadas, e que independente de o que ele respondesse o guardião diria que ele estava errado; ele o faria duvidar de si mesmo, bem como incontáveis magos já duvidaram de si. É nesse momento de fraqueza que o mago falha e sucumbe à demonologia, mas que se ele sempre confiasse em si mesmo e se mantivesse firme, tal não aconteceria.

O desafio final é uma figura sombria, que desafia Dan para um embate. A criatura é capaz de magias poderosas, mas o mago espiritual que lhe acompanha lhe mostra que ali é uma terra de sonhos, e que ali ele pode ser criativo e ser o que quiser. Seus companheiros se rendem a tal também, utilizando poderes e habilidades que não possuem, mas que seus arquétipos sim, e Kniaz como um golem enfrenta a criatura em corpo-a-corpo, até subjugá-la debaixo do poder de seus golpes fortes como marteladas e a magia de seus aliados.

O desafio da criatividade está vencido, e o jovem mago espiritual pede a Dan se ele poderia levá-lo para fora. Ele explica que não se importa em ser uma alma penada, de virar um fantasma, mas que ali onde está ele se sente cada vez mais fino, e vai simplesmente deixar de existir e virar apenas pensamento, o que o deixa desesperado. O grupo acredita que esse é o momento em que Dan se rendeu ao demônio, e ele o nega e deixa para trás.

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Tal não o era, pois Dan saira do teste vitorioso mas os inquisidores querem levá-lo; os arquimagos notaram que ele teve ajuda de espíritos durante o teste, e não podiam arriscar. Um mero garoto de nove anos tivera que escapar dos inquisidores e fugir pelos salões do castelo. Preso num quarto e sem ter pra onde correr, o jovem se jogara da janela, preferindo à morte a cair nas mãos da inquisição.

Tivera sorte de cair através de um celeiro, englobado por metros de feno que seguraram sua queda. Não se lembrava de como escapara, mas estava no ermo de Doleris, congelando escondido em uma caverna conforme chovia pesado lá fora. E ele não estava sozinho, uma voz falava com ele.

A voz falava sobre o sistema, e lhe dizia sobre os perigos que ele enfrentaria; dizia o quanto ele estava sozinho e que fizera tudo certo; dizia como ele poderia aprender magia se alguém ensinasse, e como ele estava disposto a ser esse tutor; dizia ser seu amigo, que sempre estivera ali, com ele, para quando ele precisasse.

Dano o nega porém, dizendo que prefere seguir seu próprio rumo e não depender. O espírito das sombras lhe diz que isso será impossível, por que sempre estiveram juntos, e que Dan duvida, ele irá mostrar-lhe. Seus companheiros chegam logo em seguida, e tentam formular um plano. Sem saber o que fazer, são obrigados a seguir o jogo do demônio, e seguem pela floresta atrás da iluminação de archotes que talvez seja uma vila.

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A estrada os leva a uma vila de pessoas pouco amistosas e que não gostam de estrangeiros. Dan diz que nunca a viu antes, e decidem pedir informação ou ajuda a alguma das casas. São recebidos em uma casa por um patriarca velho e mal educado, que antes de qualquer coisa demanda saber por que Dan está com a capa de couro de seu filho. Dan protesta, dizendo que a capa era de seu pai, uma das poucas coisas que ele ainda tem dele, mas o velho chama seu filho, um homem duro de cabelos castanho e olhos verdes profundos, que acusa Dan de ser um ladrão de varal, pois essa capa ele mesmo fizera de couro de jacaré.

Eleonora entende o que ocorre, e sugere Dan a devolver a capa; eles dizem que na verdade estavam congelando e desesperados, e que só gostariam de um lugar para passar a noite, nada mais; a capa fora roubada por puro desespero. Precisam de um tanto, mas logo o patriarca chama seu outro filho, mais velho e de barba grossa castanha, para levá-los a um celeiro.

No celeiro, criam um plano de investigar a casa, e logo Dan finge que estão famintos e que só queriam um prato de sopa; podem pagar. O homem barbudo se apieda, e xingando a si mesmo o leva para dentro, onde as mulheres da casa o recebem. Conforme Dan come a sopa, ele tenta descobrir informações, talvez de uma criança que esteja para nascer, e é informado que de fato há uma mãe para dar a luz; a mulher do filho mais novo do patriarca.

Com muito jeito, Dan menciona como uma de suas companheiras de aventura é uma parteira por profissão, e talvez pudesse dar uma olhada na mãe como pagamento pela refeição. Os caipiras fechados desconfiam por não gostar de estranhos, mas eventualmente cedem por algum motivo; não demora para que Eleonora descubra por que: A moça grávida tem tido uma  gravidez muito dolorosa, e a criança está virada. Enquanto ela é capaz de desvirar a criança, o parto será difícil e há risco de vida para ambos, e como tal tentam convencer a família da isolada vila a confiar em “estrangeiros” para fazer o parto. Eleonora também não pôde deixar de notar um símbolo estranho usado como decoração em portas, quadros e móveis, algo desconhecido a ela mas que lhe trás sensação de horror.

A família não tem certeza quanto a isso, afinal são tão reclusos e a vila cuida de si mesma, e por isso chamam o Sacerdote, um ancião cego e de longa barba branca. O velho ouve o caso de Eleonora, e ao final apenas aceita com a condição de que ela faça tudo para salvar a criança, e que partam no dia seguinte.

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O parto é um processo árduo e extremamente doloroso para a jovem e ruiva mãe de primeira viagem. A garota, recém chegada a idade adulta, desespera-se e chora, segurando a mão de sua mãe, mas eventualmente não resiste. Eleonora consegue trazer a criança ao mundo, praticamente tendo de arrancá-la de dentro da jovem, mas a mãe não resiste.

Mais chocante ainda é o fato que enquanto a mãe chora por sua filha, o Sacerdote toma a criança ainda nem limpa e junto com os outros homens saem à madrugada e chuva mesmo, levando a criança. Conforme deixam a falecida mãe para trás, Dan não consegue deixar de tentar fixar à memória o rosto da jovem, antes de seguir seus amigos.

Os homens da casa chamam quantos outros da vila e os levam para um casebre de madeira. O choque do grupo é ao encontrar os homens lá dentro cantando um cântico macabro repetindo Hyath, enquanto o velho cego segura uma adaga próxima da criança em um altar. Sem pensam duas vezes metem-se pelo casebre, ordenando que parem. Quando o velho diz que não, e corta a mão e passa no peito da criança, o grupo ataca, o grande golem arremessando homens longe enquanto a Deusa voa até o pescoço do homem e o joga ao chão, apertando-o com firmeza.

Tudo para porém, tornando-se cinza e frio, esfumaçado como um sonho que se perde. Das sombras, a mesma figura de cabeça vermelha surge, ameaçando o grupo.

“Eu não o aceito!”, grita Dan, sem saber o que fazer.

“Não é tua escolha. Teus pais eram meus cultistas, e ofereceram a ti, uma criança que nascera com magia, a mim. Eu esperei por ti por muito, muito tempo Dan.”

“Pois tu não conseguirá ter-me novamente. Eu não permitirei!”, esbraveja o mago de guerra.

“Nem. Eu.”, adiciona o Golem.

“Quão tolos são de achar que possuem algum dizer nisso? Esse é MEU reino, MEU mundo, e logo TU também serás MEU Dan!”, o monstro grita.

Ondas de dor percorrem o grupo, conforme a criatura logo a frente deles rapidamente ataca suas mentes e começa a rasgá-las, sem que consigam fazer algo para defender-se. Mas perecer ali não seria seu destino, pois logo ouvem o som de casco galopantes fora ao casebre, e em não muito tempo um poderoso cavalo de guerra branco salta para dentro da casa, através da janela de madeira fechada, destruindo tudo em seu caminho.

Do corcel de guerra armadurado salta um cavaleiro de talvez dois metros de altura, uma figura bela ao extremo, mas ao mesmo tempo temível e perigosa. Ele pousa graciosamente e em um movimento saca um sabre e passa-lhe através do peito do demônio, que sibila de dor afastando-se.

“Ninguém ameaça tomar-me o que é MEU! Cometeste um grande equívoco a relar tuas fétidas mãos sobre MINHA propriedade!”, ele esbraveja, em uma fala bela e cantada, enquanto fulmina Rose-Marrie com seu olhar perfurante.




Templo de Ceandubhain - Ermo de Doleris - Guerreiro 28 de 590E

“Oooooi”, diz Luthien, conforme Eleonora acorda.

A Bruxa tem a druidesa em seu colo, sua cabeça descansando em seus fartos seios. Apesar de sentir-se como ferro batido, Eleonora não consegue deixar de abrir um sorriso ao notar onde está.

“Oooooi”, ela responde.

“Rose-Marrie, estás bem?”, diz Kniaz, que rapidamente acorda procurando a jovem.

“AH NÃO OLHE!”, grita a menina puxando a capa de Luthien para cobrir-se.

Os pudicos rapidamente vestem-se ou cobrem-se, pois tiveram de estar nus para o ritual, e logo Dan também acorda.

“Fantástico... uma festa?”, diz ao ver as pessoas se vestindo e se notar nu dentro da fonte.

O próprio homem não se lembrava de nada, apenas de ter sentido algo ruim e desmaiado. Os outros se olham, sem certeza do que devem falar, exceto por Rose-Marrie.

“Kniaz”, ela diz, tremendo. “Eu posso precisar aceitar aquela oferta de ajuda... em breve...”