Anjo Salvador - 26  

Posted by Diego Bastet in



Sessão 26

Arredores de Sobieski - Táurida, Falonde - Mago 22 de 590E



O emabte entre os dois lados é caótico, especialmente pelas táticas sujas de Zigrun, que lança-se sobre Roderic com lâminas envenenadas, mas que também arremessa bombas de gás venenoso que não apenas tira a força dos heróis como também não parece afetar os inquisidores ou o próprio; o que leva a pensar que haviam fortalecido seus corpos com anti-toxinas previamente, em preparação para o momento.

O que o lado inimigo não contava era com a proeza marcial combinada de Kniaz, Karissa e Kane.



Não demora para que os oponentes sejam sobrepujados, e mesmo seu número maior e feitiços divinos sejam incapazes de superar a defesa montada pelos três. Pouco seguros estão, pois a maioria dos avanços são montados contra Roderic, inclusive virotes envenenados disparados das sombras, certamente por Zigrun que abandonara o campo de batalha.

A fim de virar a mesa, a assustada Eleonora convoca espíritos de além do véu para realizarem uma caçada, e manda os lobos selvagens atrás de Zigrun. O feitiço não funciona como a feiticeira queria porém, e novamente ela é incapaz de controlar sua fúria selvagem; os lobos imediatamente ignoram suas ordens e voltam-se contra os inquisidores, especialmente os feridos, lançando suas mandíbulas sanguinolentas em direção as gargantas dos feridos ou rendidos. Logo roderic ordena que Eleonora cesse o massacre, mas quando finalmente consegue fazê-lo já não há mais inimigos em pé e, de fato, há poucos sequer vivos.

Ian coloca-se a exterminar os que ainda estão vivos, parabenizando Eleonora por sua ação decisiva, enquanto Roderic coloca seu corpo a frente de Ian para não permiti-lo. Os dois discutem então sobre a natureza da vida de seus oponentes, e quanto à sabedoria de deixá-los viver.

Ian aponta que é mais fácil para todos que eles morram, e de uma forma ou de outra eles livres saberão de seu envolvimento com o Herege, o que colocará o destino de todos em risco; Roderic porém o confronta mostrando como deixá-los viver é o certo a se fazer, lhe informando que eles serão prisioneiros dos Lâminas até tudo ser resolvido.

O Ovelha Negra não se move pelas palavras de Roderic, e com uma ordem discreta Mildred lança uma garrafa ao chão, que aberta rapidamente espalha uma neblina branca e baixa nos arredores. Demoram alguns instantes para que Roderic compreenda o que ocorre, até as tosses e gemidos desesperados começarem, revelando que a neblina baixa é tóxica, especificamente perfeita para matar homens caídos e feridos. Roderic e Eleonora ainda tentam salvar uma das líderes dos inquisidores, a mulher chamada de Amelia, mas ao fim não conseguem evitar que sucumba à toxina.

Com isso colocado de lado, Ian novamente aponta que não são inimigos, mesmo que seus caminhos sejam completamente diferentes, e os incentiva a queimarem os corpos ali mesmo, a fim de não deixar cadáveres para demônios tresloucados possuírem. Os muitos corvos de Táurida não ficam contentes com a decisão, fazendo um coro de grasnados enraivecidos conforme os corpos são colocados à pira.



Discutem os próximos passos, inclusive ir atrás de zigrun (que mildred dissera "não irá longe", pois "não apenas ele sabe lidar com venenos"), quando uma nova figura chega a cavalo. A mulher, chamada de Jancina, é revelada por Ian como sendo uma de suas aliadas enviadas pela igreja. Ela trás a Ian más notícias, especificamente de que lhe chegara um corvo mensageiro de um de seus agentes na Fortaleza Impenetrável; a mensagem dizia que o Duque havia partido para Bel'Toras junto de sua guarda de honra, os Cavaleiros Prateados de Falonde, o que Ian chateia-se ao saber, dizendo que não há nada que possam fazer para impedir o plano da igreja agora.

Roderic porém desafia o destino, dizendo a Ian que não é tempo de desistir; os Lâminas Púrpuras partirão à Bel'Toras imediatamente; Roderic possui uma prova contra os planos da igreja, algo que pode convencer o Conde a lançar ao menos uma tregua, evitando que o plano dos Daemon tenha sucesso. Partiriam logo pela manhã, e com sorte alcançariam Bel'Toras antes que o Duque. Ian lhes deseja sorte, e informa que enquanto isso retornará à Fortaleza Impenetrável, onde reside a princesa, ou melhor, Rainha Valerie.

Conforme os Lâminas Púrpuras partem, a feiticeira Amelia aproxima-se do cavaleiro.

"Tu usas mesmo teus amigos em teus planos. Mesmo eles não passam de peões para ti, não?", ela desafia.

O ovelha negra, que até agora mantivera uma aparência calma, fria e controlada, mesmo durante a luta, explode com a mulher.

"Tu não sabes do que fala! Controle tua língua, mulher, se tencionas mantê-la!", ele esbraveja. "Tu não entendes! Nenhum de vós entenderias!"

"Hmph...", a mulher vira o rosto, dando um passo para trás e mudando o tom. "Tais explosões não lhe caem bem... Ser."


***

As coisas não estão melhores entre os Lâminas Púrpuras porém, pois por baixo da fachada de união perante um possível aliado ou oponente, Ian, há discórdia fervendo os ânimos dos tenentes. Kane provoca Eleonora, que ofende sua mãe em resposta, provocando o homem a saltar sobre ela e tentar estrangular-lhe antes de serem separados; Karissa exige de Roderic uma posição mais firme, tendo visto as atitudes desonradas de Dan e Kane, que não apenas preferiram o banho de sangue à parola, como também um é um cavaleiro negro, e o outro é um rufião mal-educado, que lutara como um bárbaro, cuspindo nos inquisidores conforme provocava sua honra. Rose-Marrie culpa-se, e junto de si a todos os outros, pelo destino de Zigrun, e mesmo Kniaz deseja saber o que será feito quanto ao traidor, que possivelmente ainda está vivo e envenenado. No fogo cruzado encontra-se Roderic, ainda ferido do embate, abalado com a traição de Zigrun, que não consegue tomar uma atitude rápida.

A discussão em meio à chuva Tauridana é levada a uma estalagem de beira de estrada, onde podem aumentar ainda mais a temperatura de seus ânimos enquanto param de congelar. Eleonora exige que suas habilidades sejam respeitadas, informando que não permitirá críticas às consequências de seus atos, e defende as atitudes de Dan, que ela diz que apenas estava se defendendo, ignorando toda sua falta de porte e atitude vergonhosa, mesmo enquanto o próprio se desculpa pelos seus atos; Karissa confronta Dan, dizendo que arrepende-se de ter lhe dado uma chance, pois tudo o que fizera com sua chance fora tornar-se uma pessoa pior; Rose-Marrie inutilmente tenta acalmar a todos, apontando para que deixem suas diferenças de lado momentaneamente.

Dan porém não o faz, e acusa Karissa de ser "moralista", revelando que possui um ponto de vista de "praticidade" que muito é diferente do comportamento correto de uma pessoa honrada, mas não apenas isso, com suas palavras deixa claro que tal atitude e ponto de vista é o padrão dos Lâminas Púrpuras, e que ali ela, Karissa, é a estranha, e não ele. Não apenas isso, mas o homem também ofende a honra de Karissa, indicando como tudo estava muito bem antes de que ela chegasse, e que apenas ela está trazendo discórdia à situação, e que sua presença de nada lhes serve. Ofendida, a cavaleira exige uma posição de Roderic, pois não terá sua honra atacada por um rufião; como o comandante não toma nenhuma atitude decente, a cavaleira levanta-se e informa que voltará a seguir seu caminho sozinha, honrada demais para tirar a vida de Dan em duelo por sua ofensa. Os outros olham para Dan de forma acusatória, mas o homem deixa claro em sua expressão que está orgulhoso de o acabara de fazer.



Como se não o bastasse, Eleonora também discute com Roderic após a cavaleira partir. Em seu argumento Roderic coloca sua honra e imagem de herói antes de seus companheiros, e a critica pelas consequencias de seus feitiços, como os inquisidores mortos. Lhe é apontado como ela ordenara que os lobos partissem atrás de Zigrun e não os inquisidores, e como Roderic criticara o descontrole da magia de Eleonora, mas a druidesa ignora esse argumento, apontando como suas táticas deveriam ser valorizadas e não criticadas. Adiciona também o fato que nas terras civilizadas tudo que ela faz é visto por uma lente negativa, e como sente-se uma "inimiga". Nenhum outro ergue a voz para tentar solucionar o assunto, conforme Eleonora ergue argumentos que, se falhos, ela plenamente acredita, e que Roderic não consegue, ou não está disposto, a dar valor.

Por fim Eleonora diz que Roderic está livre da promessa com Luthien, pois ela retornará para suas terras, ao ponto que o próprio diz que Eleonora não tem o poder de livrá-lo de uma promessa a outra pessoa. Pedindo que mandem lembranças às pessoas que ela gosta, Eleonora sai à chuva, transformando-se em uma coruja que voa para longe.

Conforme Rose-Marrie chora baixo, repetindo "...mas eles estão errados...", Roderic vira um olhar cansado para Kniaz, como quem espera mais uma crítica ou ataque.

Em silêncio o gigante segura sua caneca com as duas mãos e bebe um ruidoso gole de sopa quente.

 Kniaz e Rose-Marrie ali... (ou ainda, Kniaz e Rose-Marrie -sempre-)


***

Cavalgam noite adentro em direção à um bosque local, ainda debaixo de chuva. Kane havia lhes assegurado que seria capaz de localizar Zigrun, afinal "não há um homem que já tenha sentido o gosto do sangue que não seja capaz de encontrar". Haviam deixado os cavalos para trás ao entrar no bosque, e já caminhavam a um bom tempo iluminados apenas pela lanterna furta-fogo de Roderic. Eventualmente, ouvem um som estranho, e notam uma figura atrás de uma árvore, os observando.

Conforme a luz da lanterna de Roderic pousa sobre a pessoa vêem que é um soldado, um homem de armas com as cores de Eimland, o uniforme da Guerra dos 50 Anos, roupas manchadas de sangue e sujeira. Mais importante, o homem está morto e putrefato,  lentamente tirando vermes de seu abdome e fazendo os movimentos de comê-los, como quem displicentemente come sementes de um saco de ração militar. Quando a luz ilumina o cadáver possuído, seus olhos se enchem de ira e ele joga-se sobre Roderic, portador da luz.

Quatro homens fortemente armados e experientes de muitas guerras são perfeitamente capazes de sobrepujar um oponente único e que não possui inteligência ou tática em seus ataques, mas o que não deixa de chocá-los um pouco é a resistência da criatura; incapaz de sentir dor, ou mesmo de importa-se com seus ferimentos, o morto-vivo apenas para de lutar quando partes de seu corpo são separadas e sua cabeça esmagada, e o horror de um ataque de não-vivos fica bastante claro: Imagine um contingente de soldados incapazes de sentir dor, que não tem medo, honra ou saciedade, que desejam apenas destruir e que não são parados por trauma e sim apenas pela completa destruição de seus corpos.

Kane os guia silenciosamente pela floresta, conforme vêem mais soldados não-vivos à distância, ou ainda, ouvem seus gemidos. Os mortos usam uniformes de Eimland e Londolor, homens e mulheres da Guerra dos 50 anos que não tiveram seu descanso final correto e foram abandonados no campo de batalha onde morreram; seus corpos tomados por demônios menores, incapazes de distinguir um mortal vivo ou morto, e que agora ficam presos e insanos desse lado do véu. Por mais que sejam bem-treinados, um embate contra múltiplos mortos pode se provar desastroso para os quatro.



Eventualmente encontram Zigrun caído encostado em uma árvore. Suas veias estão escuras e saltada, e um dos dois ferimentos de perfuração no peito escorre sangue borbulhante, sinal de que seu pulmão fora perfurado e que não há muita escapatória para ele. Kniaz até estuda seus ferimentos conforme fora ensinado por Eleonora, mas o homem está além de suas habilidades, não apenas por causa dos ferimentos, mas por causa do veneno que lhe tira a força dos músculos. Tardiamente Kniaz pondera que deveria ter tido alguma atitude quanto à Eleonora.

O homem não os recebe bem, acusando talvez injustamente Roderic de estar centrado apenas em seu próprio umbigo, e que não se importa com os que estão debaixo de seu comando. Isso sozinho não seria um crime, visto que a maioria dos líderes militares o fazem com os que não são próximos a ele,  mas Roderic vende-se como um homem diferente. Descobrem que a igreja havia encontrado sua irmã e que ameaçaram lhe causar mal caso Zigrun não cooperasse. Enquanto Dion é um tecnocrata e qualquer ação contra ele certamente seria vingada pelo burgomestre, a jovem não possui o mesmo tipo de proteção política.

Acusa também Dan, quando esse tenta intervir, o chamando de cínico e falso, e alertando que Dan lhes trará infâmia e ruína. Dan é um demonologista, e ele sofrera o suficiente na mão de famílias demonologistas insanas, e diz saber bem o fim que essas histórias têm. Quando parecia que Dan preparava uma resposta ao moribundo, Rose-Marrie lhe pousa a mão no antebraço, lhe convidando a respeitar a opinião de um homem à beira da morte, por mais que discorde dela, afinal ele estava usando suas últimas forças para dizê-la.

Zigrun apenas pede para que não o deixem gorgolejar no próprio sangue, e que não deseja "servir de casca para essas criaturas nojentas", conforme diz. Roderic saca sua espada para fazê-lo, mas o homem o nega, dizendo que nem esse favor quer de Roderic. Seu triste fim cai às mãos de Kniaz, que numa atitude rara não perde tempo ponderando e rapidamente livra o homem de seu sofrimento. Uma execução raramente é algo belo, e o homem  geme de dor e tem espasmos fortes antes de morrer, mas mesmo isso é melhor que morrer lentamente de hemorragia, veneno ou devorado por um não-vivo.

"As coisas serão diferentes de agora em diante", diz Roderic, conforme pegam o corpo do tenente traidor.

"Comandante, eu", começa Dan.

"As coisas. Serão. Diferentes. Dan", responde o comandante, baixo mas ferozmente, enquanto remói as palavras de Madre Jeaninne. "Tu deves conhecer cada um debaixo de ti. Não é amor, vitória ou dinheiro que compra a lealdade de um homem; é sim o valor que se dá à sua história. À sua vida."




Arredores de Sobieski - Táurida, Falonde - Mago 23 de 590E

É madrugada quando retornam para o acampamento dos Lâminas. Os poucos guardas de vigia chamam a atenção do acampamento, e tão logo fica claro que o grupo retornara com três membros a menos e um cadáver, não demora para que praticamente o acampamento inteiro esteja de pé, em seus pijamas e casacos na chuva e lama da madrugada, para saber o que acontecera.

Os homens muito questionam, mas os tenentes pouco respondem conforme levam o corpo de Zigrun para a tenda de enfermaria, onde uma chocada irmã Hiltrude, vestida em sua camisola de dormir e um casaco acolchado, lhes indaga o que ocorrera.

"Pelo criador... Zigrun, não... O que ocorrera?", ela pergunta, aflita.

"Zigrun nos", começa Dan.

"Nos protegera às custas de sua vida", corta Roderic, friamente encarando o "mago de guerra".

Conforme as questões dos homens ali fora tornam-se mais constantes e mais incisivas, fica claro que desejam saber o que ocorrera não apenas com os feridos ou com o corpo, mas também com os que não retornaram.

Roderic então dirige-se a seus homens, mesmo ali debaixo da chuva incessante de Táurida. Ele lhes responde as perguntas enquanto discursa; lhes conta do ataque dos inquisidores bem como sua infeliz morte, os conta sobre a honradez e firmeza de Zigrun que infelizmente caíra durante a luta; lhes conta também das manipulações desonradas de Ian, e que ao permitirem essas atitudes acabaram por melindrar Lady Karissa, que em sua honra não seria capaz de permiti-lho. Fala também sobre o abandono de Eleonora, e as diferenças sociais que fizeram com que ela considerasse melhor retornar às suas terras, mas que não deveriam preocupar-se pois encontrariam outro feiticeiro para o grupo.

Não apenas isso, mas Roderic também fala sobre suas falhas, e com isso as falhas dos Lâminas. Especificamente, ele fala sobre as atitudes fáceis mas erradas que ter permitido, e com isso envenenado o que os Lâminas Púrpuras deveriam representar. Roderic lhes informa que a partir desse momento os Lâminas Púrpuras comportar-se-ão da melhor das formas, sendo prático ou não; não mais serão permitidas táticas desonradas ou baixa educação com seus oponentes, igualmente falta de misericórdia não será tolerada, nem por ação, nem por inação. Finalmente, o comandante completa avisando que sabe que está pedindo a mais alta moral de seus homens, e que portanto aqueles que não estiverem dispostos a fazê-lo poderão partir, seus contratos serão quebrados sem punição, e seus fundos serão pagos inteiramente; mas aqueles que decidirem ficar e lutar pelo grande ideal dos Lâminas o farão portando-se como Heróis, não vilões.


 As reações são em geral mistas. A maioria dos homens concorda com as palavras de Roderic, mas alguns poucos dissidentes murmuram opiniões contra, especialmente um certo sentimento de falha: A Guarda do Dragão representa alguns dos pensamentos mais nobres e mais puros de Eimland; se uma guarda do dragão se sentira ofendida por seu comportamento e partira para não manchar sua honra com sua companhia, então onde haviam errado?

O capitão Reinhard é um dos que dá voz à sua dissidência; mesmo não sendo um tenente, muitos ali o respeitam por sua sabedoria, proximidade ao comandante e carisma (com a exceção notável de Dan, que aparentemente o odeia). O homem volta-se contra o comandante, afirmando que não acredita que diferenças políticas afastaram Eleonora dos Lâminas, e que sim acredita que isso tenha sido causado por uma coisa muito menor e inútil: Ego.

Antes que o comandante o critique ele diz que acredita que não apenas o comandante, mas que a própria druidesa deixaram-se cegar por ego, e apenas pede a liberdade de ele mesmo ter com a druidesa. Como uma parte neutra e com carinho por ambos ele sabe que será capaz de mostrar a ela seus próprios erros; e se não ao menos despedir-se corretamente. Se não mais nada precisa fazê-lo pois Eleonora era a única feiticeira poderosa entre eles; grupos de homens de armas usam feiticeiros como "seguro", pois feiticeiros evitam enfrentar outros feiticeiros pois o resultado costuma ser morte; logo um grupo sem um mago de batalha, um feiticeiro combativo poderoso, é presa fácil a grupos com, em um tipo cruel de xadrez.

Conforme Roderic o permite, Sera Chauson também ergue a voz, solicitando ao comandante a permissão de partir com alguns homens atrás de Lady Karissa, para não apenas servir como porta-voz dos Lâminas Púrpuras em um pedido formal de desculpas como para também lhe falar sobre o argumento do comandante, sobre a honra que irá guiá-los a partir de então, sem exceção.

Kniaz ainda tenta consolar Rose-Marrie, que se culpa pelo ocorrido. Ela diz que não deram chances à Zigrun, que sempre o mantiveram afastado, quase um pária que apenas servia para lutar. Quando sua família se viu ameaçada não era de se duvidar que não recorreria aos Lâminas: Não possuía amigos entre eles, e nenhuma razão para acreditar que poderiam colocar-se em risco por ele, ou ainda, por sua irmã. O mundo que Zigrun vivera fora duro e cruel com ele, e eles não fizeram nada para mostrar que poderia ser diferente.

Conforme Kniaz lhe diz que não é sua culpa, Rose-Marrie o explica por que o é: Ela não é nenhuma grande feiticeira, e é capaz de alguns poucos bons truques; ela não é uma líder de homens forte como Chausson ou Reinhard; ela não é uma curandeira ordenada ou sequer trás a maestria de alguma perícia como alquimia, ferraria ou mesmo cozinha. Tudo o que ela tem a oferecer ao comandante, e ao acampamento, é sua amizade e seu coração; ambos os quais ela não estendera a Zigrun. E agora ele estava morto. Mas mais que morto, pois esse destino todos poderiam ter, ele vivera sozinho e distante, e morrera abandonado e amargurado com o mundo e com eles.

E por isso ela não poderia se perdoar; teria de se tornar melhor.




Ermo de Theodosia - Táurida, Falonde - Mago 23 de 590E



É pouco depois do amanhecer quando um grupo misto anda por um bosque a algumas horas de distância do acampamento. O batedor que segue à frente agacha-se perante um tronco caído, passo o dedo em um musgo e o lambe.

"E então?", indaga o capitão Reinhard.

"Musgo", o homem responde, provocando uma reação de desagrado do mago de guerra, mas logo cessa com as brincadeiras e faz um gesto positivo com a cabeça.

"Lady Eleonora, nós sabemos que estás aqui e a nos ouvir! Mostre-se, por obséquio!", ele grita às árvores.

"Eu tenho uma pena sua!", diz o batedor.

Não demora para que a druidesa, que estava sobre uma árvore, atenda seu chamado, transformando-se em uma mulher novamente antes de pousar ao chão. Ela os recebe carinhosamente, conforme a meia dúzia de homens e mulheres ali -reinhard, um batedor, uma maga de guerra, dois soldados e um carregador- lhe chovem questões sobre como está, o que ocorrera, por que partira sem adeus e outros.

Reinhard, hábil em palavras e retórica, serve como porta-voz do grupo, que viria dentre outras coisas descobrir por que partira e lhe convencer de que não o faça. Um dos argumentos, o mais racional, é que Eleonora é a única feiticeira realmente hábil entre eles, e que por mais que o comandante dissesse que poderão encontrar outro, as chances de tal ocorrerem com sua má fama de herege são ínfimas. Mas mais importante, Reinhard fala sobre as pessoas que importam-se com Eleonora e que tem suas qualidades como um modelo; é verdade que ela possui defeitos, alguns deles muito sérios, mas acredita que eles possam ser lidados.

Ele fala sobre o estopim para isso, o descontrole da magia de Eleonora. Há uma razão para que magos possuam sua atitude distante, fria e controla, e isso é por que são ensinados desde cedo que o estado do conjurador pode interferir de forma muito negativa no véu. O outro lado do véu é repleto de espíritos que representam emoções afinal, e de certa forma pode-se dizer que a magia e o véu é um mar de emoções; controlar um fluxo de energia vindo do véu é um exercício difícil à todos os feiticeiros, e enquanto cada tradição o faz de forma diferente, magos aprendem a manter-se frios, calmos e serenos em toda situação a fim de não "contaminar" sua magia. Enquanto ele compreende por que a magia de Eleonora sairia de controle (ela tem medo da inquisição, e feras acuadas tornam-se selvagens), ele não acha que a druidesa possa ignorar ou esperar que outros ignorem isso; mas especialmente, acredita que é capaz de ajudá-la com treinamento inter-disciplinar.

De fato, o homem diz não compreender as razões lógicas de rusga de Eleonora para com Roderic: Eleonora possui tradições e costumes diferentes dos costumes dos civilizados, mas a maior parte da população está disposta a aceitá-la enquanto ela mantê-las para si; de fato o louvor aos deuses antigos é permitido se mantido em paralelo ao do Criador e suas tradições não batam de frente, exemplo claro mostrado em Táurida, que ainda segue a tradição de vários deuses antigos como uma tradição secundária à fé no criador. Reinhard sabe que Eleonora não é ingênua o suficiente para acreditar que teria toda a liberdade que teria em suas terras, mas também não entende por que a culpa dessa sociedade ser diferente recai sobre Roderic. De fato, ele acredita que Eleonora saiba que essa rusga não seja recíproca, e que Roderic não possui nada contra ela; no máximo contra algumas de suas atitudes.

O homem conclui dizendo o mesmo que disse ao comandante, que não há racionalidade alguma nisso, e que há sim problemas pessoais, problemas de ego. Ele fala sobre motivações, e como sobre a maioria dos homens com quem conversa não está trabalhando para os Lâminas Púrpuras por dinheiro. Se alguns o fizeram no começo, a maioria se deixara vender pelos grandes objetivos: Indo para longe das batalhas ao invés de aproveitar-se delas, lutando por algo maior que ninguém mais o faz. Ele revela que ele mesmo decidira unir-se aos lâminas para fazer algo diferente no mundo.

Explica então que é o terceiro filho de uma família nobre, que o mais velho recebera título e terras, que a segunda seria enviada à academia para servir de conselheira e maga de batalha para seu irmão, e que ele seria enviado ao templarado para servir ao criador e à justiça. Acontecera que apesar da tradição mágica da família (que dizem possuir sangue Aen'Sidhe) sua irmã não possuía talento para a magia; os papéis foram trocados e ele fora enviado à academia. Até onde ele sabe, os Lâminas Púrpuras mataram sua irmã na torre do arquimago Veograd; ela era uma mulher pura, honrada e fiel, que fizera nome e fama como hospitalária durante a Guerra dos 50 Anos.

Reinhard porém não os culpa de forma alguma pela morte de sua irmã; ele diz saber em seu coração que sua irmã não era uma templária corrupta, que pelo contrário ela era uma das melhores pessoas dessas terras. Também sabe que os lâminas o fizeram acreditando em um ideal, e ela morrera defendendo o que acreditava; ambos lutaram por algo maior, algo que acreditavam que traria o bem a todos. E é exatamente o que ele deseja, lutar por algo maior; e como ele sabe que tanto Eleonora quanto Roderic no fundo desejam a mesma coisa, ele não pode permanecer parado deixando que algo tão estúpido como Ego os impeça.

Por fim o mago deixa claro que não está de nenhum "lado", e que acha que Eleonora agira de forma errada; ele porém ter absoluta certeza de que Eleonora é sábia o suficiente para compreender isso, e que será capaz de dar "um passo para trás".

A druida relutantemente aceita.




Acampamento dos Lâminas Púrpuras - Táurida, Falonde - Mago 23 de 590E

Eleonora é bem-recebida por vários homens conforme chega, se não por carinho genuíno ao menos pela tranquilidade de voltar a ter uma feiticeira de batalha em suas fileiras. Conforme ouve os barulhos, Roderic em sua tenda levanta-se com um longo e desgostoso suspiro, saindo para ir receber a druidesa.

"Comandante", diz o soldado que fica de guarda frente à sua tenda. "Eu concordo com o senhor. Eleonora é uma megera."

Com esse pouco de apoio o cansado comandante dirige-se para um possivelmente humilhante encontro com a druidesa orgulhosa e, ao fim das contas, infantil. Não esperava que Reinhard lhe pouparia de tal, conforme dirige-se aos soldados em volta, dizendo que buscara Eleonora para que ela tivesse com Roderic, para que pudessem conversar como adultos, para que ela pudesse parar de agir como uma criança mimada e ele como um cego.

"E para tal, eu o alivio do comando, Lord Roderic Calhart", ela diz em tom alto, surpreendendo as pessoas à sua volta.

Alguns soldados colocam a mão em suas espadas e machados, e vendo a situação outros levam as mãos às armas também sem saber o que está ocorrendo.

"Como oficial executivo dos Lâminas Púrpuras eu estou assumindo a posição de comandante interino; Lady Eleonora; Lord Calhart, por favor, tomem o tempo que precisarem para solucionar suas diferenças como civis. Os Lâminas Púrpuras não serão mais prejudicados por suas diferenças pessoais; tal discórdia não beneficia nosso grande objetivo e coloca-nos em ainda maior perigo", ele então vira-se para os soldados, ainda confusos. "Quanto a vós, temos nossas ordens! Marcharemos a Bel'Toras, e esse acampamento não erguer-se-a sozinho! Ao trabalho!".

Alguns respondem de imediato, enquanto outros ainda parecem confusos. Logo a capitã Coline manifesta-se.

"Ouviram o Comandante Interino, ao trabalho homens!"

"Vós não sois pagos por hora homens; ao trabalho", esbraveja o gigante Kniaz.

***

Roderic e Eleonora encontram-se na tenda de comando de Lady Silfa, onde podem devidamente discutir. Boa parte é Eleonora acusando Roderic com uma barragem de acusações justas e injustas, como permitir que Kane a ofendesse, ou criticá-la quando seus poderes saem de controle. Roderic responde que Kane é uma criança, que não o considera, e que especialmente não espera que Eleonora desça ao nível dele, mas sim que se mantenha adulta; ele também traça um correlato entre Dan e Kane, sobre como é ilógico que critique Kane e que acredita que ele deve ser expulso quando defende Dan independente de suas ações; Kane fora tão criado em um ambiente ruim quanto Dan o fora.

Roderic diz que em sua opinião Kane é um jovem perdido, e que eles todos devem à Le'Berry o suficiente para que ele os acompanhe. Independente de o que Eleonora pense agora, Le'Berry de alguma forma os recebera, alimentara, protegera e empregara; com todos os seus defeitos ele foi pai e comandante deles por um bom tempo. Seus caminhos se separaram e eventualmente cruzaram novamente de forma negativa, mas Le'Berry estava apenas fazendo seu trabalho, e eles lutando pelo o que acreditavam. Roderic também diz que sua memória não é curta o suficiente para esquecer de tudo o que Le'Berry fizera por eles, nem se permite ser cínico o suficiente para dizer que apenas prometeram dar o medalhão ao jovem.

Por mais que concorde que Kane possivelmente seja um agente de Mestre Kendal, ele ainda acredita que eles todos devem à Le'Berry, que de todos seus filhos, nobres inclusive, ele pedira para terem com esse bastardo em particular, e que especialmente dissera que dissessem que era seu "melhor filho". Roderic acredita que Kane é confuso, e que enquanto ele é baixo eles são superiores, e podem lhe mostrar um caminho -ou ao menos uma atitude- superiora através de exemplo.

Eleonora também critica Roderic por sua sociedade, como Reinhard falara transformando-o no avatar do que ela discorda de sua sociedade, ao que Roderic defende-se mostrando como quando estava entre os de Eleonora ele os respeitou e participou de tradições que não necessariamente concorda ou acredita pela simples e pura honra da hospitalidade. A druida também o acusa de criticar suas ações, ao que o homem se defende dizendo que critica as consequências que Eleonora possivelmente não considerara de suas ações, e como os Lâminas devem ser diferentes de bandidos e mercenários comuns, como devem ser "um sonho ou nada"; ele também diz que não compara Eleonora a um lobo, pois lobos em sua terra são criaturas nobres, que funcionam em grupo e protegem os seus, e ao contrário do que alguns acreditam eles jamais desafiam mesmo um alfa fraco ou errado quando a matilha está caçando ou em perigo, apenas após o perigo passar, Eleonora está mais para um urso, uma criatura feroz que prefere solidão e defende a si e aos seus de forma feroz e destrutiva.

Roderic aponta como aceitara a liderança dos Lâminas Púrpuras por ter sido treinado para tal, mas rebate a acusação de Eleonora de que está nisso apenas pela glória de ser um herói; aponta como se quisesse glória e dinheiro estaria no seio de sua família, e especialmente como Eleonora não pode ser ingênua o suficiente para acreditar que "no fim das contas, quando tudo estiver esclarecido" ele sairá como um herói; ele é um herege, sua família não o dará apoio, e jamais qualquer feito que fizer será pintado de forma heróica; é simplesmente irreal, inverossímil assumir que a igreja revelaria publicamente que está errada; o melhor que pode esperar é que sua heresia seja revertida em "mera" excomunhão, e ainda isso é imaginar muito.

Pelo contrário, Roderic diz que luta por que é o certo a se fazer, e acredita seriamente que nem ele, nem nenhum Lâmina Púrpura será vingado pela história,  ou que seus feitos reais sejam conhecidos; não apenas isso, mas ele acredita que os homens também sabem disso. Ele lidera como pode, e algumas vezes sinceramente não sabe o que está fazendo ou como deveria agir, mas com todas as suas falhas ele diz que está fazendo tudo o que pode, simplesmente pelo fato de que é o certo a se fazer.

Eleonora ainda avança sobre Roderic em sua incessante enxurrada de críticas dizendo que jamais serão amigos, ao que ele diz ser uma pena; que jamais enxergarão nos olhos, ao que ele diz ser necessário; e em geral parece enfurecer-se ainda mais pelo fato que o homem não a ataca. Em um certo momento parecia que Eleonora estava além, que não valia o esforço de Reinhard, conforme avança como um cão raivoso, mas ela finalmente subitamente para, notando que Roderic de fato se explicara e dera seus "passos para trás", e que ela não estava a fazê-lo. Ela cessa então com as hostilidades, especificamente apontando que está tentando ser melhor, e está a cumprir algo que Reinhard pedira.




Ermo de Sobieski - Táurida, Falonde - Mago 23 de 590E

Haviam decidido que um grupo pequeno iria à cavalo o mais rápido possível para Bel'Toras, preferindo estradas secundárias e rurais, enquanto o acampamento iria em seu ritmo mais lento logo atrás. A intenção era que chegassem à Bel'Toras antes do Duque, tentando então evitar o sucesso do plano da igreja, que envolvia o assassinato dos dois duques e seus principais generais, Anaxander Thibauld e Elbrich Calhart.

Iriam disfarçados de recrutas de Táurida, vestidos em armas e armaduras simples, bem como com as cores de um lord local, tencionando infiltrar-se entre as tropas e conseguir contato com o Conde, que os esperava. Na pior das hipóteses arranjariam uma forma de comunicar-se com Nicholas Backhaus, seu filho, para assim ter acesso ao conde. Um grupo fora enviado à cidade para conseguir as cores necessárias de formas inescrupulosas, mas quando retornaram tinham informações preocupantes para dar à Kniaz.

Informam a Kniaz sobre o estado atual da nobreza Tauridana; a família governante de Ninfaon, o baronato qual a família de Kniaz era governante, agora era comandado pela família Dzierza, antigamente seus cavaleiros de honra. A alguns anos atrás mercenários e selvagens atacaram as terras dos Potemkin, e em uma noite terrível massacraram a cidadela inteira, incluindo as terra de algumas famílias aliadas; não muito tempo depois o mesmo ocorrera com os Gialemere, família de Rose-Marrie e lordes de Theodosia, quando a casa enviara tropas à Ninfaon para ajudar a proteger suas fronteiras e ermo contra os selvagens.

Kniaz e perfeitamente capaz de ligar os pontos, e enquanto ele e Rose-Marrie nunca contaram detalhes aos homens, muitos imaginam que parte dessa história seja uma farsa, caso contrário ambos teriam retornado às suas terras para suas posses por direito. O capitão Gilbert Navarro lhe oferece sua ajuda: Irão marchar por Ninfaon de uma forma ou de outra, e as terras estarão desprotegidas com a maioria do exército em guerra; podem fazer os Dzierza pagar, ao menos em parte, por suas ações vilânicas, trazendo a chama da justiça sobre eles.

Kniaz porém nega o auxílio, e ordena que mantenham o plano original. Posteriormente Rose-Marrie diz que se orgulha dele, e que ele de fato está seguindo um caminho para se tornar um homem melhor.

***

Conforme a noite passa Eleonora sobe em uma das mesas para direcionar-se ao homens. Explica por que retornara, e que não precisariam temer pela falta de uma feiticeira, e também brinca dizendo que aqueles que não gostam dela terão de lidar com ela por mais algum tempo, afinal de contas todos ali tem uma missão a fazer. Muitos ali respeitam a ferocidade de Eleonora, apesar dela notar que uma das qualidades pela qual era respeitada, sua lealdade, tenha sido colocada em jogo pelas palavras de Reinhard, e que somente suas ações futuras poderão a recuperar perante os olhos dos soldados.

Kniaz também é procurado pelo jovem arqueiro ruivo Dave. O garoto solicita mudar sua função para um dos grupos de arqueiros de guerra; afirma que já tem idade adulta, mais tempo de treinamento do que um miliciano típico, e que mesmo lutara ao lado de seus irmãos e sangrara junto para defender o acampamento. Quando Kniaz aceita ele ainda brinca.

"Sem duelo?", diz divertido.

"Desejas?", responde o gigante.

"De forma alguma, era apenas para ter certeza, senhor!", ela responde rapidamente, antes de assoviar chamando alguém.

Para o desespero de Kniaz, ele chama Mida, que estava escondida ali próximo, atrás de um vagão. A garota apresenta-se com a mesma confiança do jovem Dave, apresentando o mesmo argumento: Aprendera diversos estilos de luta, está avançando constantemente nos estudos arcanos, e deseja lutar com seus irmãos. Ela deixa claro que não irá parar com seus estudos e que precisa se aprimorar muito, mas entre os ensinamentos de seu irmão e o treinamento intensivo, já possui mais treinamento que muitos milicianos e, de certa forma, bem mais do que o próprio Dave.

"E qual a opinião de seu mestre?", pergunta o gigante.

"Que", ela faz uma voz mais grossa, imitando a do capitão, "Não deveria perder meu tempo com marcialidade e sim focar-se na compreensão do arcano, pois ainda possui um gênio muito explosivo para controlar a magia."

Kniaz diz que não acredita que ela esteja pronta; a garota ainda tenta argumentar que ele permitira Dave, e a desculpa do tenente é que enquanto possui mais treinamento que Dave, ela iria para a infantaria onde é muito mais perigoso, e por causa disso ele a nega, novamente. Arrasada a jovem agradece e se retira a passos rápidos, seguida por um chocado Dave que nervoso passa as mãos na cabeça raspada.

"Machista!", grita a capitã Coline, parcialmente bêbada, de outra mesa próxima.

"Tu a permitiria?", diz o gigante contrariado.

"Estás me pergundando se eu mandaria uma vilha pra guerra?", ela indaga, o gigante respondendo com uma erguida de sobrancelha. "É zeu drabalho, não meu! Tenente Machista, senhor."



***

Roderic ficara sabendo do ocorrido e não demorara a procurar os jovens, encontrando-os conversando perante um boneco de treino, ou melhor, Mida espancando o boneco com as mãos cobertas por camadas de faixas enquanto Dave tenta acalmá-la ali de perto, lhe oferecendo sua compreensão e amizade.

Roderic parabeniza Dave pela sua promoção, e lhes indaga o que ocorrera. Sabendo de sua versão dos fatos pede que Dave busque Kniaz e Coline, o que o rapaz rapidamente o faz. Mida pede que Roderic não faça isso, pois não deseja chegar a lugar algum através de ação direta do comandante. Enquanto Roderic se explica, ela diz que independente do que faça, a opinião geral será a mesma; tirara Kniaz de seu jantar para dar-lhe uma bronca sobre sua atitude.

Roderic é divertido, e diz que então eles irão até o tenente, e ainda pede que um dos homens traga Eleonora, ao ponto que a jovem desespera-se ainda mais: A humilhação de risadinhas e historinhas que terá de ouvir será imensa, e tudo que ela deseja é ser aceita entre seus irmãos, não rejeitada como a "favorita" do comandante.

"Tais preocupações são inválidas", diz o comandante, divertido. "Não deve limitar-se por causa dos homens; esses soldados estão passando tempo demais com as lavadeiras!", ele brinca.

"Mas dirão que sou "a favorita" do comandante, Lorde Calhart..."

"Deixe que digam", ele diz sem parar.

A moça então para, abaixa os olho, troca o peso do corpo de um pé a outro, estrala os dedos e em geral parece desagradada. Roderic o nota volta-se a ela.

"...eu...o sou...?", ela pergunta, voz e olhos baixos.

"Mida", começa o comandante, em seu tom mais inspirador. "Ao menos para mim, o é"

A jovem abre um sorriso e ergue os olhos.

"Eu irei fazer o meu melhor, lorde Calhart. Irei provar o meu valor de poder lutar ao seu lado, digo, no mesmo campo de batalha que o senhor!", ela diz, honrada.

"Tu não precisas...", começa Calhart, mas é cortado quando a jovem dá dois passos rápidos em sua direção, olhe agarra o colete do gibão e coloca-se na ponta dos pés para dar-lhe um beijo.

Roderic surpreende-se, e não resiste, permitindo que a jovem o faça. O beijo de ambos não é exatamente apaixonado, e sim mais um longo e silencioso tocar de lábios com pouco movimento; a jovem treme, claramente emocionada, Roderic por sua vez não poderia ser descrito como confuso ou alegre, e sim como desprevinido.

E é nesse exato momento em que chegam Dave trazendo Kniaz e Coline, como o soldado que trouxera Eleonora. Dave leva as duas mãos à cabeça, e choque, enquanto Coline desvia o olhar, rindo. Eleonora que parece mais preocupada com a moça, conforme Kniaz mantém sua melhor postura de cavaleiro.

"Comandante?", diz o gigante, os interrompendo. A moça imediatamente dá alguns passos para trás, corando.

"Ahn...", Roderic olha de um lado a outro. "...hm... Dispensados senhores. Não se fará mais necessário."

"Comandante", responde o gigante, se retirando.

"Vê Tenente Machista? Tudo culpa tua", diz Coline levando Kniaz e os outros para longe.

"Venha Dave, é de pouca educação encarar", diz Eleonora puxando o jovem arqueiro para longe.

"Mida...", tenta começar Roderic.

"Não te preocupe comandante. Eu lhe disse, farei meu melhor. O Lord não imagina como estou feliz", ela diz antes de virar-se e afastar-se, em passos alegres e queixo erguido.

Roderic coça a cabeça. Ao longe Dan lhe ergue uma caneca e pisca com um olho.




Ermo de Ninfaon - Táurida, Falonde - Mago 23 de 590E

Seguiram pelas terras rurais de Ninfaon, planejando apenas um leve desvio: Dan, responsável pela missão de infiltrá-los socialmente em Bel'Toras, considerara a possibilidade de outros planos no caso de relações diplomáticas falharem, o que os levara a falar sobre a represa do Gargalhada, um grande rio Tauridano que é preso próximo de Bel'Toras. Na pior das hipóteses, no caso da guerra iniciar, poderiam tentar destruir a represa, fazendo com que o rio alagasse as terras baixas do campo de batalha. Nenhum exército conseguiria lutar em um charco, e talvez com isso conseguissem ganhar algum tempo.

A idéia é plausível, apesar de severa: A represa é importante para a agricultura e comércio local, mas o impacto de sua destruição pode ser relevado considerando o que os Daemon pretendem alcançar com a batalha. Apesar disso, faz-se necessário que conheçam o local primeiro antes, e por isso farão o leve desvio.

Está chovendo fino em uma gelada e enlameada noite, quando vêem gente vindo pela estrada. Quatro soldados, milicianos de Ninfaon pelas cores, pedem para dividir o fogo com os soldados viajantes, preferindo números maiores para defender-se. Disfarçados de soldados de exército, os heróis rapidamente oferecerem a pouca hospitalidade que podem para os patrulheiros, dividindo cobertores secos, fogo e comida.

Os homens são patrulheiros das estradas e dos ermos, que viajam entre as vilas para dissuadir selvagens, feras e bandidos, e pouco de interessante tem a contar exceto que viram um grupo de cavaleiros templários viajarem por essas mesmas estradas rumo à Bel'Toras. Pressionados, os homens não sabem dizer muito mais.

Nenhum dos heróis ali presentes, cansados e congelando, nota a estranheza dos homens: Primeiro, eles não parecem tão incomodados com o frio; segundo sua respiração não condensa e, de fato, os que estão deitados não parecem respirar. E, por último mas não menos importante, Kniaz, que ficara de guarda, falha em notar que um dos onipresentes corvos tauridanos, sempre as voltas do acampamento e esperando por migalhas, pousa na mão de um do soldados deitados e lhe bica um naco de carne.

Discretamente, o patrulheiro acordado de guarda dirige a mão para se machado tauridano, mas não discretamente o suficiente para que Kniaz não o note, e tão logo é percebido coloca-se subitamente de pé e parte para cima do gigante, com seus companheiros rapidamente se levantando para fazer o mesmo. Não bastasse isso, Kniaz -e Eleonora, que se manteve acordada- é surpreso quando o soldado abre a boca e de dentro dela sai uma longa língua púrpura.

 ...ugh...