Anjo Salvador - 17  

Posted by Diego Bastet in



Sessão 17

Cidade Real de Doleris - Doleris - Rei 8 de 590E

Lannia Calhart


Antes mesmo que Roderic possa sacar suas armas a inquisidora mulher tece uma oração que o pacifica, magicamente o convencendo a abaixar as armas e seguir em rumo ao escritório da inquisição.

“Roderic, dê-me uma espada!”, diz entre os dentes Lannia Calhart.

“Lannia, não. Ela tem razão, deveriamos simplesmente os acompanhar. Tal será melhor”, diz Roderic, tentando acalmar a irmã, sob o olhar dos inquisidores.

A maga porém logo nota o que ocorreu, com um movimento saca a espada de Roderic e com outro acerta-lhe um tapa cruzado em sua face esquerda, mais fazendo barulho e estalo do que para lhe ofender, ou, quem dera, o machucar. O estalo surte o efeito desejado, e o feitiço é quebrado na hora, Roderic retornando às suas faculdades normais, pronto para lutar.

O embate é agressivo e rápido, não um duelo entre duas forças tentando alcançar um objetivo, mas sim uma luta de vida ou morto, conforme os inquisidores atacam para matar, ou ainda, capturar o herege e sua companheira. Roderic e Lannia precisam usar de toda sua habilidade para esquiva-se e aparar os hábeis golpes do confessor, que luta com uma espada de duas mãos com golpes largos e elegantes, claramente ensinados em uma academia marcial apropriada. Já a loira confessora luta com uma espada em uma mão e um chicote em outra, habilmente atrapalhando com o doloroso chicote as conjurações arcanas tanto de Lannia quanto de seu irmão.

Roderic encontra uma brecha para conjurar uma muralha de chamas escarlates que lança fumaça e calor na direção dos inquisidores, que tentam em vão dissipar seu feitiço mas sendo tomados pelas chamas ardentes.

“Roderic, eles estão atrás de ti, fuja e os segurarei!”, grita Lannia, lançando um feitiço de mago de guerra sobre a espada.

“Jamais lhe deixaria sozinha irmã”, responde Roderic, se recompondo de um ferimento sofrido no flanco pelo corte da espada do confessor, corte acompanhado de magia que parecia drenar suas forças.

“Não é hora de heroismo irmão. Vá!”

A discussão de ambos porém é interrompida quando a inquisidora salta por entre as chamas, símbolo sagrado segurado à frente com ambas as mãos; sua fé inabalável esmigalhando a cuidadosa teia da magia flamejante ali disposta. O inquisidor homem, alguns passos atrás, caído de joelhos e chamuscado pelas labaredas, ergue-se com dificuldade, mas sua companheira à frente faz um gesto para que fique para trás.

Parando frente aos irmãos com as duas armas sacadas, a inquisidora os desafia. Os irmão preparam-se, e Roderic cerra os dentes, segurando com força o ferimento que sangra amplamente.

“Alene guie meus passos, me garanta a força para sobrepujar o mal e realizar a vontade Dele”, a mulher murmura, suas armas parecendo brilhar com uma suave chama sagrada.

Lannia dispara um feitiço de chamas em direção à mulher, que gira o corpo para se esquivar, e em dois passos ágeis acerta-lhe no ventre com uma rápida estocada. Roderic mal tem tempo de gritar, quão menos de reagir, quando a mulher gira o corpo, e em um único movimento fluido completa o golpe, seu chicote acertando Roderic no rosto, mandando ao chão, atordoado e desnorteado.

Caído ali, com a consciência o abandonando, entre respirações pesadas e piscadas ainda mais, Roderic consegue ver a inquisidora de joelhos orando; inconsciência, passos em sua direção; inconsciência, alguém gritando “Lady Lannia!”; inconsciência, sons de espadas de chocando; inconsciência, passos armadurados em sua diração; inconsciência, “Lorde Roderic?”, diz um rosto familiar, loiro e barbado... Igros?


***



À estalagem, os tenentes dos Lâminas Púrpuras aproveitam a simples apesar de farta refeição, regada a cerveja comum e vinho particularmente saboroso. É uma época de doenças e peste, e mesmo aqueles que não apreciam o sabor do álcool preferem beber refrescante vinho ao invés de arriscar água contaminada de algum poço, já que não é todo local que se dá ao trabalho de servir a seus clientes água fervida.

A jovem Mida está claramente muito agradecida ao grupo, e não disfarça favorismo ao atender-lhes com dupla celeridade e trazer-lhes os melhores e mais frescos pães e queijos bem como os mais suculentos e belos pedaços de carne.

Entre uma coxa de galo e canecas de vinho, Dan animadamente lhes contava sobre a noite anterior, sobre seu falso flerte com a dama da alta sociedade e sobre sua busca por “gemas especiais”. Eventualmente os contos de suas desventuras mudam de foco, e ele questiona Kniaz.

“E diga-me uma coisa, meu caro nobre Kniaz, como Rose-Marrie e ti acabaram por conhecer-se?”

A mesa cai em silêncio, mesmo as mastigadas parando por um instante. O silêncio é quebrado por uma engolida a seco seguida por um prodigioso arroto de Ivdan. “Desculpa. Mida, mais cerveja sim?”, grita o arqueiro, habilmente desviando do assunto.



“Eu digo, é mais do que óbvio que não conheceram-se apenas em sua fantástica vida adulta, mas que possuem algum tipo de história passada, não?”

“Dan...”, alerta Eleonora, sem tirar os olhos da gordurosa asinha de frango que comia com as duas mãos.

“O que? Tenho certeza que há mais do que uma única pessoa nessa mesa que se pergunta o mesmo, não? Afinal”, ele aponta com uma coxa para Rose-Marrie, que quietamente bebia seu vinho olhando de lado para o nada, “tu e Rose-Marrie parecem mesmo possui algo não-resolvido.”

“Ele é pior que eu...”, resmunga Ivdan, a boca parcialmente cheia de queijo e farofa de milho.

“Tal assunto não é de tua conta”, diz secamente Kniaz, antes de tomar uma golada de sua caneca.

“Oras, como não? Vós sois meus companheiros; meus gloriosos irmãos em armas em uma fantástica demanda pelo bem de toda a nação; não, pelo bem de toooooda a existência humana”, diz ele, mas Kniaz não se impressiona. “Eu mesmo contei-lhe minha história, sou um livro aberto, com páginas perfumadas prontas a serem perusadas em busca de conhecimento perdido!”

“Ainda assim, não é da conta de nenhum de vós”, diz irredutível o guerreiro, tentando intimidar seu exacerbado companheiro com um tom de voz gélido.

“Kniaz”, interrompe Rose-Marrie, olhando para a ave destruida à mesa, mas o foco de seus olhos muito, muito longe. “É justo.”




Bosque do Vento Setentrional - Ninfaon, Doleris - Ladrão 3 de 577E


 “Era uma tarde de Outono, uma época abençoada em Táurida. Táurida era uma terra isolada, intocada pela guerra dos 50 anos e com pouca importância política.

Táurida era uma terra pacífica, uma terra de um povo simples e fazendeiro, mais interessado na fartura e no suor de seus rostos do que em contos de guerra ou grandes vitórias; para Falonde, sua província era seu pomar, com a maior produção de alimentos do território; o suficiente para alimentar as regiões mais rochosas ou próximas à guerra de Ludária e Adásia.

A família Gialemere havia vindo da região central de Adásia para Theodosia em Táurida a mando de nosso lorde Drewsaw, uma vez que a herdeira dos Paluch havia caído em campo de batalha e os outros descendentes haviam-se casado em outras famílias. Gialemere possuia elos de sangue com a casa Paluch, logo sua escolha era a mais óbvia.

Eu ainda era jovem quando fomos à Táurida, nem me lembro direito de Adásia, mas já era meu dever fazer o melhor por minha família. Como filha mais nova de três, era meu papel ser criada como uma verdadeira perfeita dama Tauridana a fim de fortalecer as relações com outra família importante, os Potenkim, senhores de Ninfaon. Kniaz era o jovem segundo filho da casa Potenkim, e como tal nossos destinos foram decididos por nossas famílias, prometidos desde a infância em nome da prosperidade e amizade entre os Condes locais.

Era uma tarde de Outono, o dia em que conhecera meu prometido pela primeira vez. Eu, pequena e tipicamente Falondiana... não impressionei... o jovem rebento. “Aprenderão a se gostar”, disseram os adultos, e me enviaram junto em uma caçada infantil atrás de coelhos e faizões, uma forma de estreitar os laços através do suor mútuo...

***

“Com cuidado Ina. Isso, mire, observe, respire, como lhe ensinei. Atire quando estiver pronta”, diz a voz pacífica de um adulto. O homem era um verdadeiro modelo de Tauridano, alto como um gigante, um loiro rosado de cabelos compridos e ombros largos e hábeis para o trabalho manual, um lorde entre seus iguais.

Seu nome era Bronislau Potenkim, primogênito do Conde de Ninfaon, que acompanhado do mestre caçador real Leon Chlapowski fora incumbido de levar os jovens herdeiros para uma caçada no calmo bosque da aristocracia governante. Cavalgavam ali a passos preguiçosos acompanhados de mais quatro jovens, Kniaz Potenkim, o segundo filho, com 11 anos, um menino alto e excepcionalmente magricela, seu melhor amigo, o ruivo rechonchudo Zytomir Dzierza, de mesma idade, de uma tradicional família de cavaleiros de Ninfaon, e a mais velha com 13 anos, Ina Zilinska, uma jovem escudeira nobre que treinava para o caminho de se tornar uma honrada Ovelha Negra de Táurida a serviço do Marquês e do Duque.

Os três jovens cavalgavam animadamente, acostumados com essas caçadas sazonais, armados com uma besta leve cada e carregando uma fartura em coelhos e faizões abatidos. Um pouco mais atrás vinha uma quarta criança, uma menina baixinha e dentuça, de claros cabelos loiros lisos e aparência frágil, ostentando nem 7 anos Rose-Marrie Gialemere, a prometida do jovem Kniaz, que não estava nem armada com uma besta e nem conseguindo se enturmar com os mais velhos e mais fortes herdeiros.

“Um belo disparo! Não Leon?”, comemora o primogênito quando a jovem Ina abate mais uma ave, cementando sua posição como a melhor caçadora entre os três.

“Sim senhor. Excelente”, diz o caçador, fortemente armado e armadurado, a fim de garantir a segurança dos nobres ali presentes, seus olhos gélidos treinados observando cada movimento do bosque em antecipação a talvez um lobo, javali ou, Alene os protegesse, urso.

“Ina, a glória da casa Zilinska!”, comemorava a jovem, que rapidamente descia da sela para tomar sua presa. Como uma Tauridana crescida nas religiões ancestrais da terra, oferecera uma oração ao Deus Verde e à Alene antes de acabar com o sofrimento do pássaro e retornar com sua gorda presa.

“Esse ficará delicioso com algumas batatas-doces e mel”, diz Kniaz, lambendo os beiços.

“E batatas assadas com ervas. Tomilho e Erva da Mãe... batatas...”, salivava Zytomir, com o apoio de Kniaz, ao imaginar a gorda ave preparada por seus habeis cozinheiros.

O mais velho olha para a pequena atrás, de cabeça baixa e apenas seguindo, e arrisca perguntar.

“E ti Rose-Marrie? Estás gostando da caçada?”, pergunta, sorridente.

“...ahn?”, a menina se surpreende ao ser chamada por Bronislau. “Si.. sim meu senhor. Muito. É... é... uma diversão honrada...”, ela balbucia, tentando ao máximo agir como a dama que lhe é esperado.

“Hmph”, meneia a cabeça Kniaz, desgostoso com sua protegida.

“Talvez depois desa caçada ela possa colocar alguma carninha nesses ossos, heim Kin?”, diz maldosamente o roliço ruivo, fazendo Rose-Marrie afundar mais em sua sela.

“Zytomir!”, lhe chama atenção Bronislau.

“O que? Mais é verdade! Ela precisa comer mais batata! Eu gosto de batata!”, o jovem se defende.

“Ser Dzierza!”, Bronislau o lembra, em tom de reprovação.

“Sim meu senhor... desculpa senhor”, o menino responde, abaixando a cabeça.

A jovem Ina, mostrando certo trato social necessário à uma cavaleira, aproxima-se do pônei da infante Rose-Marrie trazendo a ave abatida.

“Aqui, tu não pegaste nenhuma...”, ela começa.

“Por não ser hábil o bastante para lhe darem uma besta...”, adiciona o ruivo, que logo abaixa a cabeça novamente perante o olhar de reprovação do Potenkim mais velho.

“...para ti que não pegaste nenhuma, depois poderá aprender a depená-la e lhe arrancar os miúdos!”, tenta animar Ina, oferecendo a ave a Rose-Marrie.

É provável que a jovenzinha não tivesse estado de frente com um animal morto a essa distância ainda, talvez fossem os olhos vidrados da ave ou o sangue que escorria pelo seu nariz, mas a garota grita e se afasta no mais puro terror quando Ina praticamente esfrega-lhe o animal no rosto. Zytomir ri, e Kniaz faz seu maior bico de desgosto. Bronislau por sua vez apenas meneia a cabeça, “E eu lá pareço menestral da Amante por acaso, lorde pai?”, sussurra em lamentos o primogênito.

“Shhh, todos parados”, diz o caçador, erguendo um punho ao ar.

Os meninos, treinados, aproximam os cavalos uns dos outros, enquanto o primogênito segura a lança para javalis firmemente e o caçador avança sozinho.

“Será uma fera grande?”, indaga-se Kniaz.

“De certo um dragão!”, diz o esbaforido Zytomir.

“Dragões não existem mais, balofo”, cutuca Ina. “É mais certo ser um javali. Ou talvez um urso.”

Kniaz treme ao pensar em um urso, mas Zytomir esfrega as mãos, guloso. “Um javali fresco preparado com louro e bastante alho, assado em folhas lentamente, cortado e banhado em mel de Flor da Mãe, hmmm, com cenouras cozidas na gordura. Fantástico heim?”

Os outros dois jovens não conseguem discordar, e se entreolham com sorrisos cúmplices ao imaginar o fantástico banquete proposto por seu roliço companheiro. Sua animação apenas é cortada pela voz baixa de Rose-Marrie. “Eu estou com medo, lorde Kniaz...”

“Urgh...”, Kniaz olha de lado. “Não há nada a temer, pequenina. Estamos com o Mestre Caçador de Ninfaon, ele já caçou mais javalis do que tu tens dentes...”

“Mas não tão grandes quanto...”, cutuca o maldoso gordinho.

“Meu senhor, venha ver isso”, interrompe a maldade o mestre caçador, que severamente retorna.

Mais a frente são capazes de ver o que lhe deixou assustado. É uma fera, talvez um dia uma javali, que fora feito em pedaços por um predador terrível. Os meninos indagem se talvez fosse um leão da montanha que tivesse feito isso, mas o caçador logo aponta dois fatos, primeiro, as marcas de garras nas árvores, e em segundo lugar: Leões não comem primeiro o coração.

“Um lobisomem!”, exclama Kniaz, mandando calafrios pelas espinhas dos mais jovens.


Em táurida até os gordinhos chutam a bunda de Rose-Marrie


"...me fodi..."


***

“Nos ermos mais escondidos de Eimland existem pagãos que servem a demônios cruéis de além do véu. Poucos deles são perniciosos quanto os servos do terrível Makar, Senhor das Feras. Aqueles tocados pela maldição de Makar tornam-se meio homem meio fera, com nenhuma das qualidades e apenas com o pior dos dois lados; amaldiçoados a andar na forma de animal durante a noite e a matarem loucamente debaixo do brilho da lua.

Uma mordida era o suficiente para amaldiçoar mesmo o mais devoto dos homens; caso a infecção não o matasse, no próximo cair da noite a loucura tomaria conta de seu corpo. Apenas o acônito, um veneno também conhecido como Belladona, era capaz de reverter a infecção, mas apenas antes da trasnformação. Após... apenas a prata serviria como descanso final...

Eu nunca havia visto algo assim. A carcaça em decomposição estava severamente mutilada. Era como se uma criança tivesse pego sua boneca de pano e a feito em duas. As costelas estavam separada e o coração arrancado a mordidas. Cortes de garras fundas por todo seu flanco bem como nas árvores próximas. Eu estava muito assustada; os outros, animados...”

***

“Eu estou com medo, lorde Kniaz...”, diz a pequena Rose-Marrie, junto dos outros meninos enquanto os adultos conversam afastados.

“Não precisa ter. Eu estou aqui para te proteger”, diz displicente Kniaz, tentando ouvir a conversa ao longe.

“Eu quero minha mamãaaae”, mia a menina, com voz de choro.

“Calma, nos vamos te levar pra sua mamãe”, tenta lhe confortar Ina.

“E então te deixar lá”, alfineta o jovem ruivo, desfazendo o trabalho de Ina.

“Eu pensei que os Ban tivessem matados todos os servos de Makar”, comenta Kniaz, quando os dois adultos finalmente terminam de discutir e retornam aos jovens.

“Tais cultistas são perniciosos jovem lorde Kniaz”, responde o caçador, antes de soprar um chifre de caça, um sinal aos outros caçadores por perto para virem até ele.

“Crianças, eu e mestre Leon iremos rastrear a abater essa fera junto dos outros caçadores. Tal monstro não pode ser permitido a andar livre tão perto de nossas casas”, diz Bronislau.

“Então iremos contigo, lorde Potenkim”, responde a pagem Ina.

“Não Ina. Lorde Potenkim disse que ele, Leon e os caçadores o farão. A nós certamente é incumbida outra missão”, diz Zytomir, mantendo o canto dos olhos na assustada Rose-Marrie.

“De fato. Tal fera é muito perigosa para tuas habilidades, crianças. Quero que retornem por onde viemos para o castelo”, ele ordena, e então volta-se a Kniaz.

“Lorde irmão, nós temos bestas para ajudar!”, exclama Kniaz.

“Não seja tolo, garoto. Tu sabes bem que apenas prata é capaz de matar uma fera dessas”, diz o mais velho, mostrando uma adaga de prata na cintura. “Kniaz, posso confiar em ti que os acompanhará em segurança de volta para o castelo?”

“Sim, irmão...”, diz altivamente o contrariado garoto.

“Kniaz, tu és um soldado agora, e teus homens precisam de ti. Tu futura dama precisa de ti. Mantenha o foco em tua missão”, diz o mais velho, tirando um pingente do pescoço e colocando em volta do pescoço do irmão mais novo. “Eu sei que posso confiar em ti.”

“Não irá se arrepender, lorde irmão!”, diz mais animadamente Kniaz, por receber o presente.

O mestre caçador entrega uma adaga de prata a Kniaz, sussurrando “apenas por segurança”, antes dos meninos serem mandandos embora, e o jovem realiza com orgulho seu trabalho. “Avante homens, temos algumas milhas a cobrir!”, diz, altivo, o magrelas jovem Potenkim.

***

“A viagem de volta não deveria ser longa ou perigosa, mas o destino não desejava que os caminhos fossem fáceis. A Fúria castigou as colinas e bosques primeiro com o vento cortante, e conforme ignorávamos seu avisos, logo fustigou-nos com uma gélida chuva vinda dos mares ao Sul. A chuva e os trovões assustavam nossos cavalos, e logo pedras gélidas começaram a chover e nos machucar. Estávamos encharcados até os ossos, congelando vivos, o que nos forçara a procurar abrigo...”

***



“Eu acho que vejo uma caverna ali a frente, Kin”, diz Ina, cerrando os olhos tentando enxergar na fustigando escuridão da tempestade.

“Vamos amarrar os cavalos debaixo dessa árvore então”, dizia Kniaz, os lábios azuis de frio, pois dara seu casaco para Rose-Marrie.

“Eu... eu quero voltar pra casa...”, dizia Rose-Marrie, tremendo como vara verde, seja por medo ou por frio, conforme Kniaz fazia seu melhor para se manter calmo e confortar sua frágil e irritante protegida.

Zytomir fora a frente, com besta às mãos investigar a caverna. O local parecia fundo, uma gruta onde poderiam se esconder, mas um som estranho vindo do fundo dela o assustara. Algo que parecia um ronco, ou rosnado.

“Ahn, gente, eu acho que tem alguma coisa aqui heim...”, o jovem diz, chamando seus companheiros a vir até ali.

“Fique aqui Rose-Marrie, eu logo retornarei”, tentava acalmar Kniaz.

“Não me deixa sozinha lorde Kniaz...”, soluçava a menina.

“Eu já volto. Eu prometo. Fica aqui, quietinha tá?”, disse então, antes de ir atender o chamado do amigo.

Tudo acontecera muito rápido para Kniaz porém. Ina, mais corajosa, já havia ido à frente caverna adentro, acompanhada não exatamente logo atrás pelo significamente menos corajoso Zytomir. Um grunhido alto e selvagem emanou da gruta porém, e um vulto rápido avançara sobre os jovens.

Ina e Zytomir gritaram e fugiram, mas a coisa era mais rápida e os alcançou e atropelou, por pouco também não acertando Kniaz. Um javali imenso e horroroso passara por eles, e sob seu rastro jazia Ina, com uma horrível ferida na barriga e gritando de dor, seu sangue escorrendo pela chuva.

“Oh não, Ina! Oh mãe da colheita!”, gritava Kniaz enquanto via a amiga ao chão chorando de dor, ele e seu ruivo amigo sem saber o que fazer, meio travados de surpresa e medo.

Outro grito cortava o ar porém, mais atrás, o esganiçado grito de Rose-Marrie.

“NÃO! SOCOOOOORROOOOO, AAHHHHHH!”, gritava e chorava a voz da menina.

Por um momento Kniaz não soube o que fazer; olhara para sua companheira ferida e chorando ao chão, acertada pelas presas afiadas do javali, acompanhada de um igualmente congelado Zytomir, e então olhara para a direção de onde havia deixado Rose-Marrie. Deu-se alguns instantes travados, mas logo os gritos o acordaram.

“Zytomir!”, gritava.

“Ahn?”

“Zytomir, acorda!”

“Eu? Ahn? O que eu faço???”, saía do choque o gordinho.

“Fica com a Ina. Cuida desse ferimento!”

“Como???”

“Não sei, pressiona o ferimento. Para o sangramento. Cauteriza. Alguma coisa que os adultos fazem! Eu vou pegar a Rose-Marrie!”, dizia então Kniaz, antes de correr em direção aos gritos da pequena.

Correra e tropeçara algumas vezes ali em meio à tempestade com granizo, até finalmente enxergar: Rose-Marrie havia escalado até o galho mais baixo de uma árvore, e o imenso javali tentava a alcançar, grunhindo para ela e parecendo se divertir com seu desespero. Kniaz não pensa duas vezes porém, e arremessa o maior pedregulho que consegue, acertando as costas do monstro.

“Aqui!!! Venha mexer com alguém do seu tamanho, Porco!”, desafia o heroico garoto, sem saber exatamente o que fazer.

A fera o observa, e de forma estranha o encara. Logo Kniaz nota que há algo errado, uma vez que o animal não simplesmente investe ferozmente contra ele, e sim o observa de olhos cerrados. É então que para seu horror absoluto a criatura começa a se contorcer e crescer, seus ossos e cartilagens estralando conforme ele assume uma forma de uma temível fera meio homem meio javali gigante.

O terror toma conta de Kniaz, que apenas se vira de costas e corre conforme o monstro rosna: “Fuja garotinho, fuuuuja! Hahahaha!”

Por mais que tentasse, o menino não era páreo para o monstro porém, que em alguns passos rápido o alcança e lhe acerta com as vis garras nas costas, abrindo-lhe três cruéis cortes e o fazendo cair no chão, a dor percorrendo seu corpo como um veneno que lhe tira as forças. O monstro pára, sorvendo o momento, conforme Kniaz se levanta com dificuldade e aponta a faca de prata para ele.

“O que pensa que vai fazer com esse palito? Huh? Eu vou me divertir te transformando em um como eu, garoto”, ele diz, esticando a mão para pegar Kniaz, ignorando completamente o fato que ele está armado.

Kniaz reage porém, e desesperadamente brande a faca em direção ao monstro, fazendo um suave corte em sua mão. A fera cambaleia para trás e urra de dor perante o corte da prata, completamente surpreso pela situação. Recompondo-se, o monstro olha para a mão sangrando.

“Prata? Eu iria só brincar contigo, mas agora vou devorar suas tr..”, diz, mas é interrompido por um audível “TOC” quando uma pedra lhe acerta a cabeça. Virando-se, o monstro observa a alguns metros dele a pequena Rose-Marrie, com os lábios tremendo e engolindo o choro, as mãozinhas fechadas e um olhar que é uma mistura de medo e estranha determinação.

“Rose-Marrie, não! Corra!!!”, grita Kniaz se levantando e partindo para sobre o monstro que andava em direção à sua prometida. Desesperado, o menino se joga sobre a criatura, cravando a faca em suas costas e pendurando-se nela com o golpe. “MORRA MORRA MORRA!”, gritava, acertando golpes de faca de prata no monstro.

A fera urra de dor, mas consegue reagir bem, e com suas mãos repletas de garras agarra Kniaz de suas costas e, como um verdadeiro Tauridano o arremessa como faria com um saco de batatas. Kniaz voa no ar e choca-se contra uma árvore, quebrando algumas costelas e quase perdendo a consciência.

Conforme a água gelada cai sobre seu rosto, misturada às lágrimas de dor, ela tenta juntar suas forças para se defender do monstro que se aproxima. A criatura para próxima a ele e grunhe alguma coisa, mas Kniaz é incapaz de forçar-se a fazer alguma coisa. A última coisa que consegue notar antes de perder a consciência é um grito de alguém chamando seu nome, e então algo chocar-se em encontrão contra o monstro, seguidos de gritos e guinchados de seguidos de porco sendo esfaqueado.



***

Kniaz acorda, assustado e com um movimento brusco, mas logo sente a dor das costelas quebradas correr por seu corpo e cai novamente, gritando. Não está congelando, porém, e sim aquecido por uma fogueira. Lá fora ainda está chovendo, mas já está escuro. Conforme sua visão volta ao normal ele vê ali sua amiga Ina, caída e tremendo de febre, com gordas gotas de suor escorrendo por sua testa, sendo cuidada por um assustado Zytomir e uma ainda mais assustada Rose-Marrie, que de tempos em tempos lhe oferece um chá de cheiro terrível e que apenas parece lhe fazer ainda mais mal.

“...o que?”, murmura.

“Jovem mestre Potenkim, que bom que estás bem. Não se mova, o senhor está seriamente ferido”, diz a voz dura e firme do mestre caçador Leon, que ali perto troca as bandagens do ferimento de Ina.

“Ina?”, indaga, sua cabeça ainda voltando ao lugar.

“Foi mordida pelo licantropo. Estou dando acônito para ela”, diz friamente o caçador. “Tu sofreste apenas ferimentos de garras; ficarás bem.”

“Mas... mas mestre Leon...”, diz Rose-Marrie, segurando o chá com mãos trêmulas. “Acônito é veneno... isso pode matá-la...”

“Rose-Marrie, dê o chá para ela. Se não o fizer ela com certeza morrerá pela infecção, ou pior, tornar-se-há como o monstro. Vá garota, dê o chá que mandei”

É outra imagem que chama a atenção de Kniaz porém, ali mais perto da boca da caverna pode ver seu irmão, Bronislau, com terríveis ferimentos no torso, braços e ombros, bem como um ferimento a garra que lhe destroi completamente o rosto.

“Irmão! Não!”, grita em voz esganiçada de pré-adolescente, enquanto engatinha mais perto.

“Kniaz, não. Fique aí garoto. Tu estás suficientemente ferido”, diz seu irmão, uma voz de cansaço e dor.

“Bronislau! Tu estás ferido! Precisa tomar infusão de acônito antes do anoitecer!”

“Não sejas tolo Kniaz. Eu fui mordido muitas vezes. E de uma forma ou de outra não há acônito para todos.”

“Mas...”, diz Kniaz, com olhos chorosos. “Assim tu morrerás...”

“Eu sei bem disso. Eu sabia exatamente o que estava fazendo.”

“...então por que...?”,  murmura o derrotado menino.

“Não adianta em nada estar forte e de pé quando todos os que amam estão caídos à sua volta. O último de pé é o que mais sofre. Força não vale nada se não usada em favor dos outros”, ele diz, e o menino começa a chorar. Bronislau não permite que o irmão fraqueje agora, e o chama atenção. “Kniaz. Escute-me bem: Tu precisas ser forte agora; não apenas por ti, tu precisas ser forte pelos teus, tu precisas ser forte para proteger aqueles que importam para ti. Tu precisas me deixar orgulhoso menino!”

Kniaz então nota que isso é um adeus, e olha para o irmão, assustado.

“Mestre Leon?”, pergunta o nobre.

“Ela está estável, meu senhor, e se Alene permitir viverá”, responde solene o caçador.

“Então eu preciso daquele seu último favor, mestre caçador, enquanto ainda sou eu mesmo”, ele diz se levantando, e dando alguns passos para fora da caverna.

O caçador esconde o melhor que pode suas emoções, mantendo uma expressão dura, se triste, e pega uma faca de prata

“Irmão!”, gane Kniaz, fazendo com que seu irmão se vire para ele. “Eu vou me tornar o mais forte de todos!”, ele diz, heroicamente, mesmo com as lágrimas escorrendo.

“Eu sei que vai... eu sei que vai...”



***

“Ina era uma veradeira mulher de Táurida, e conseguira sobreviver à infecção; a dose de acônito que o mestre caçador carregava tendo salvo sua vida e sua alma. Já Bronislau nunca retornara de seu derradeiro passei com o mestre caçador. Eu e Kniaz não nos vimos muitas vezes após isso, mas ao menos eu passei a sentir um... dever... para com nosso futuro.

Eventualmente a guerra avançou e a situação em Táurida... ficou pior, muito pior. Tive de fugir de minhas terras, e por anos pensei que Kniaz tivesse morrido naqueles dias. Talvez um dia Kniaz lhes conte o resto da história...”

***

Cidade Real de Doleris - Doleris - Rei 8 de 590E

“Eu... eu não imaginava... meus pêsames...”, diz baixo um Dan desconcertado. A mesa encontra-se em silêncio, com Eleonora de braços cruzados olhando em volta, e Kniaz com uma expressão que mistura angústia e ódio olhando para Dan, de certo o culpando por ser forçado a lembrar.

O silêncio novamente é quebrado apenas por uma engolida a seco seguida por um prodigioso arroto de Ivdan. “Desculpa. Mida, mais cerveja sim?”, grita o arqueiro, novamente desviando do assunto com uma habilidade que não lhe é comum.

“Bom, agora tu sabes”, diz Rose-Marrie, antes de virar a taça de vinho. “Se me permitem, vou me retirar a nossos aposentos, sim?”, diz a garota, baixo, antes de levantar e, segurando choro, sair dali.

Dan considera incentivar Kniaz a ir atrás de Rose-Marrie, mas visto o olhar de morte do guerreiro ele reconsidera seus conceitos, e toma decisão sábia de ficar quieto.


Mansão Calhart - Doleris - Rei 8 de 590E

Muitas horas após seu embate com os inquisidores Roderic acorda em uma cama desconhecida. Antes que possa se assustar, ele nota que não está de armadura e sim com confortáveis roupas de descanso. Seu ferimento no peito fora tratado, apesar da dor indicar que ainda está aberto. Do outro lado do quarto, em uma cadeira de balanço, pode ver sua irmã Lannia usando outro vestido, e aparentemente cochilando.

O soldado à porta acorda Lannia quando Roderic se mexe, e ela explica que Igros e o outro guarda haviam ouvido os sons de luta e ido investigar. Roderic estava severamente ferido, e Lannia fizera seu melhor para estabilizá-lo, lançando feitiços com cuidado.

Magias de cura são um processo muito intrusivo, que curam de forma que parecem reverter os ferimentos, ou ao menos essa é a sensação. Um alvo de um feitiço de cura sente uma dor bastante similar ao ferimento original, o que pode causar um choque letal em alguém severamente ferido. É por isso que tratamentos de cura mágica são feitos lentamente, dando tempo para o corpo recuperar-se do choque da dor. E exatamente por isso que Lannia esperara Roderic acordar antes de lhe administrar mais feitiços de cura.

“Roderic...”, Lannia começa. “As Jóias. Elas são mesmo reais?”

“Elas de fato o são, irmã. Eu e meus companheiros estamos em posse de duas, e temos razões para acreditar que as forças das trevas deseja juntá-las para seu propósito maligno.”

“Eu... eu acredito já ter visto uma”, adiciona, consternada.

“O que??? Onde?”

“Primeiro tu tens de me prometer que me levará contigo.”

“Lannia irmã, não é hora nem lugar para esse tipo de jogo.”

“Então não tenho nada a dizer”, diz a maga, virando-se de costas.

“Irmã, minha viagem será repleta de perigos. Tu viste bem, até a inquisição está atrás de minha pele”, Roderic adiciona.

“És certo que minha vida está em perigo, Roderic. Eu fui contra o escritório da inquisição ardente. Ajudei um herege, e em tempo virão atrás de mim tanto quanto foram atrás de ti. E pensas que nosso lorde irmão proteger-me-ia? Ele jamais faria uma ação que colocasse em risco o legado de nossa família”, diz, mas então surpreende Roderic com a forma que completa. “E nem o deveria!”

Roderic considera por um tempo, e então suspira. “Pois bem irmã; tendes a determinação de nosso lorde pai. Aceito tua companhia. Agora diga-me, onde viste essa pedra?”


Estalagem - Doleris - Rei 8 de 590E

O retorno de Roderic com suas novas informações leva o grupo a tomar decisões de seus próximos passos. Ele lhes conta o que Lannia sabia, que um de seus professores da academia, Arquimago Veograd, adquirira um cristal negro anos atrás, e que era absolutamente fascinado por tal. Nem todos seus alunos sabiam disso, uma vez que ele tornara-se paranoico ao longo dos anos com o destino da pedra; dizia que era seu destino protegê-la das mãos erradas. Pelo o que ela sabia ele começara a frequentar a academia cada vez menos, sempre dando menos aulas e ficando mais tempo em seus próprios estudos.

Lannia já havia terminado seus estudos formada como Maga, então não saberia dizer onde seu professor estaria. Ainda assim ela seria capaz de conseguir uma audiência com mestres da academia, usando seu privilégio de maga formada.  Isso seria importante também para que tentasse ter acesso a algum professor que tivesse conhecimento sobre os espíritos anciões que divinaram no Vale da Neblina.

Uma das partes do plano envolve Dan retornar à sua informante e comprar dita informação. A mulher deixa nas entrelinhas que sabe que Dan procura uma pedra específica entre cinco pedras coloridas muito raras e famosas, e confirma que o arquimago Veograd era conhecido como seu portador. Mais que isso porém, ela sabe que o arquimago possui algumas propriedades no condado de Brammlet, à leste, terra da condessa Liara Colgate. Ao contrário do que muitos acham, o arquimago não costuma ficar em sua mansão nos campos próximos da fortaleza da condessa, e sim em uma torre mais reclusa nas colinas ao norte, onde estuda e provavelmente guarda seus artefatos favoritos.

 As vestes da bela dama.


Cidade de Doleris - Doleris - Rei 9 de 590E

A segunda parte do plano gira em torno de ter com a Magister Serena, uma bonita mulher em vestidos vermelhos que recebe Roderic, Kniaz e Lannia em seu escritório. Dan se recusara a ir até a academia arcana, dado sua história, e os outros não tinham exatamente boa disposição para tal também.

Roderic é sincero com a mulher, contando o que sabe sobre tais espíritos, e a magister se mostra como uma mulher igualmente sincera, que deixa claro que muito não se sabe por que a igreja proibe estudos apócrifos relacionados à demônios e além do véu. Ainda assim, ela possui um certo conhecimento sobre o que isso se trata, pois estudara textos secretos em um local onde, por tradição, a igreja não pode tocar: A ordem dos cavaleiros negros.

Falando sobre nomes de espíritos “bons” ou “maus”, a magister os incentiva a abandonarem os termos usados pelos mortais; o Véu simplesmente existe, simplesmente o é. Mesmo o termo “demônio” é uma bastardização de um termo usado pelos estudiosos antigos e pelos Cavaleiros Negros, que se refere a essas entidadades ensandecidas que procuram destruir a raça humana.

““Não consortarás com Daemons”, diz um texto antigo dos cavaleiros negros. Tu não buscará os conselhos nem as palavras de tais criaturas, que procuram apenas o mal e a destruição, é esse o significado dessas palavras. “Demônio” surgiu como uma bastardização desse nome, Daemon, que os antigos utilizavam.

Antes disso “espírito” era amplamente utilizado. De uma forma ou de outra, esses espíritos são profetizados a trazer a morte aos mortais através dos cinco males da Guerra, Peste, Fome, Traição e Conquista. Tais palavras beiram a heresia, mas alguém com conhecimento precisaria se esforçar muito em fechar seus olhos para não notar que tais males nos afligem atualmente.

A ignorância trás felicidade nesses casos, meus jovens, mas um Mago escolhe um caminho de iluminação, escolhe o caminho do conhecimento; caminho que muitas vezes é o caminho da Tristeza.”

A magister divide o que sabe com eles, e lhes incentiva a procurar o Mestre Kendal, em Kosvon, a fortaleza ancestral da Ordem, porém os avisa a tomar cuidado: Os cavaleiros negros não louvam nem o sagrado nem o profano, e enquanto podem ser a fonte de conhecimento que necessitam, eles criaram de suas fileiras alguns dos piores vilões que essa terra já vira, alguns dos homens e mulheres mais cruéis e brutais a cruzar os campos de batalha. É muito importante tê-los como aliados, mas jamais devem confiar completamente neles; nunca os ter como Amigos.



***

Finalmente, ao começo da tarde estão prontos para partir. Seu acampamento ficará atrás de trabalho para erguer fundos, e Rose-Marrie e Zigrun permanecerão para coordenar trabalhos que requerem mais perícia, enquanto os outros partirão às terras da condessa Colgate. Mas Roderic ainda tem uma última coisa que considera que precisa fazer: Discute com seus colegas o mérito de levar a jovem Mida com eles.

Roderic consaidera-se responsável pelo destino da menina; uma vez que a inquisição o encontrou, não demorará para que sigam seus passos, e isso os levará para a estalagem. Mida é inocente, mas suas habilidades mágicas logo serão notadas, e como uma apóstata que fugira dos olhos do conselho e chegara a adolescência e idade adulta, provavelmente será tomada. As memórias do destino de Dryfolk ainda estão frescas demais, e Roderic sabe muito bem o que a inquisição faz com aqueles que captura.

“Mas.... mas eu não entendo...”, murmura Mida. “Por que?”

“Pelos motivos que lhe falei, minha jovem. Eles alcançarão a ti, e não posso viver com teu mal em minha consciência.”

“Adicionalmente, jovem Mida, há também o fato de que tu possui essas habilidades que podem desabrochar em algo fantástico, sim, mas mais importante, é preciso treinamento para evitar chamar a atenção dos seres de além do véu; tua força de vontade e sorte não irão lhe proteger para sempre; e olha que isso parte de um homem que confia muito na própria sorte, diga-se de passagem”, delonga-se Dan.

“Conosco tu terás proteção, terá um emprego e, mais importante, terás quem lhe ensine a controlar teu dom, e até mesmo a lutar, caso assim deseje. E não te preocupe com teus pais; usaremos de nossos contatos para que vivam tranquilamente em uma vila mais calma ao norte”, adiciona Kniaz.

“Eu... eu não sei o que dizer...”, ela amassa o vestido, olhando para baixo.

“Então não diga nada e nos acompanhe”, fala simples Eleonora, acompanhada de um arroto de Ivdan que serve como afirmação de que ele concorda.

“E...”, a menina realiza algo, assustada. “Eu não serei a concumbina de ninguém, Lorde Calhart”, diz isso desviando o olhar, corada.

“Por Alene não. Nunca! Jamais permitiria que tal acontecesse contigo; nem precisas se preocupar, não esperamos nenhum “pagamento” de tua parte.”

“Eu morreria antes de permitir tal”, rosna Eleonora, vinda de uma sociedade bastante matriarcal.

“...mas vós... não trarei nenhum lucro a vós... vós estais se oferecendo para...”, ela olha Roderic, olhos lacrimejados. “...para cuidar de mim?”

“Por quanto tempo quiser”, responde o comandante dos Lâminas Púrpuras.

A garota abraça Roderic, chorando.

***

Viriam a entender apenas depois a reação de Mida. A garota revela que parte de sua história é uma farsa; de fato seus pais faleceram pouco após a morte de seus irmãos; sua mãe pegara a peste vermelha e morrera, seu pai, mais velho, não tivera mais forças para continuar.

Ela sabia que alguns parentes seus a tomariam para criar ou que seria mandada a um orfanato caso soubessem disso, e isso muito temia; era comum que o destino de garotos e garotas tomados por seus parentes fosse o de efetivos criados domésticos; a violência sexual também muitas vezes acompanhava esse destino, especialmente com os olhares que um tio seu sempre lhe dera.

Orfanatos também não eram um destino aceitável; muitos ábades e tratadores são crueis com as crianças, e garotas na idade dela tendem a ser... “adotadas”... por tipos estranhos com ideias crueis; não são poucas prostitutas que crescem em bordeis e são presas a eles sua vida toda afinal.

Temendo tal destino ela enterrara os pais e mantivera a farsa por mais de um ano, vivendo sozinha e se sustentando com o trabalho da estalagem, trancando-se dentro de sua pequena casa e dormindo com um olho aberto, tendo de se proteger sozinha. Rose-Marrie em particular se emociona, diz que não teria metade da força de Mida, e que se não fosse por seu Mestre Dion ela teria tido um destino como o que Mida temia, ou pior.

Em sua residência, pouco mais que uma oca de madeira com chão de terra, a garota pega suas únicas posses: Uma bolsa, três mudas de roupas simples e uma faca longa, que seu irmão lhe dera. Com um longo suspiro ela deixa isso para trás, seguindo a liderança dos Lâminas Púrpuras.

 Semeando esperança uma pessoa por vez.