Anjo Salvador - 10  

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Sessão 10

Porto de Fouchard - Himline - Viajante 1 de 589E


 
O grupo espera apenas o amanhecer do dia seguinte para seguir viagem. Os contatos de Zigrun haviam recomendado que os heróis fossem em um grupo pequeno pelas trilhas que os levariam às voltas da foz do Águanegra; um grupo grande andando pela floresta andaria lento demais, e poderia chamar atenção desnecessária. Os comandantes do grupo decidem por ignorar essa sugestão e levar todos seus homens; a intenção é que eles sirvam como retaguarda estacionada na entrada secreta no meio do ermo, para que quando os heróis retornem com a princesa e os cavaleiros do dragão tenham reforço caso estejam em apuros.

O sol nem se ergueu e o grupo mercenário já partiu, saindo da estrada e cruzando os campos em direção à trilha que lhes foi indicada. Seguem em uma filha dupla, alguns batedores à frente, incluindo Ivdan e Dan, e alguns guardas atrás, incluindo Kniaz e Alyssas, com a maior parte do grupo ao meio, com os soldados e mulas de carga.

Após descer ao leito de um riacho, Ivdan nota fora da estrada a frente sinais de um acampamento recente. Deixando o grupo parado e prosseguindo apenas com a (fantástica) companhia de Dan, ele encontra um pouco fora da trilha restos de um acampamento que foi rápida e recentemente desfeito. Há marcas ali de uma fogueira que foi apagada e coberta às pressas, bem como rastros de menos de uma dúzia de pessoas e cavalos, bem como armas e bestas de caça. Seja quem fosse, o grupo que estava ali partiu a talvez dez minutos, e as pressas, pois nem cobriram direito seus rastros.

Retornando ao grupo principal, Ivdan conclui que eram bandidos, provavelmente armando uma emboscada para eles quando estivessem na parte baixa do riacho, mas que desistiram ao ver o tamanho do bando mercenário. O fato que a trilha não é muito utilizada, que ninguém sabia que estariam andando por ali, e que os informantes de Zigrun recomendaram que fossem em poucos, unidos fazem com que o grupo duvide das intenções e veracidade de suas informações. Eleonora defende a integridade de Zigrun, enquanto Ivdan duramente aponta que ele traiu um chefe antes, deixando conclusões implícitas. Decidem por hora deixar o assunto de lado, visto que todos estão bem, e uma vez que mesmo possivelmente falso é o único caminho que eles têm, seguir às voltas do Águanegra.


Ermos - Himline - Viajante 1 de 589E



Diversas horas se passam, e já está tarde adentro. O terreno mais baixo já está mais molhado; mais riachos dividem-se em pouco mais do que bicas d’água espalhadas, traços típicos de um delta, que eventualmente torna-se um pântano, mas o progresso é muito bom graças à proeza de Ivdan com florestas. É nesse ponto, quando sua viagem toma o terreno mais alto, tencionando desviar do pântano e dar a volta nele, que algo os surpreende.

Ivdan e Eleonora são os primeiros a notar um vulto passando por entre as árvores. Ordenam a parada do grupo até garantirem que não há perigo, e avançam um pouco, acompanhados de Dan, armados e prontos para qualquer tipo de fera que salte sobre eles. É então que detrás de uma árvore o vulto se revela. Um lobo, mas um lobo diferente de todos os lobos que já tinham visto. Diferente dos lobos marrons e acinzentados típicos de Himline, essa fera era branca como um lobo do norte gélido, mas mais importante, seus olhos brilhavam em azul, deixando um curto rastro de luz onde passava. E mais importante, para o horror de Ivdan, o lobo fala.

“Está pisando em território de Makar, andarilha”, diz o lobo em druidico, com uma voz trovejante misturada com rosnados voltados para Eleonora.

Eleonora reconhece os traços. Um escolhido de Makar, o antigo deus das feras e da lua. Mostrando as mãos desarmadas ela responde pelo grupo. “Não desejamos ofender Makar, escolhido, estamos apenas de passagem e não reconhecemos os sinais de que esse território estava marcado”, diz, tentando acalmar a fera.

“Não comece com ladainhas, serva do Homem Verde! Eu sei que és uma troca-pele. Mude de forma, e me enfrente!”, ele rosna, desafiador.

“Não desejamos desafiar-lhe, guardião...”

“Mas eu estou lhe desafiando. Prove-me seu valor troca-peles! Mostre-me do que é feita!”

Frente a um desafio tão óbvio Eleonora não se faz de rogada, e pedindo para que os outros dois se afastem ela chama pelo nome do senhor da galhada, e sua forma torna-se a de um poderoso alce negro, com as mesmas gemas na testa que a forma de serpente tinha. Não há tempo para que os outros observem sua beleza majestosa; tão logo ela se transforma o lobo prateado uiva e salta sobre ela.

O que se segue é um selvagem duelo de feras, conforme o alce acerta o lobo com sua galhada e esse se esquiva habilmente dos golpes de casco e morde o flanco do alce. A luta segue-se por algum tempo, com intervalos onde os dois se cercam e se ameaçam. Eventualmente, após um coice certeiro no peito que manda o lobo voando alguns metros, quando o alce se preparava para outra investida, o lobo interrompe a peleja.

“Basta. Já provaste teu valor para Makar. Tu tendes permissão de caminhar nessas terras”, ele diz isso e então sua forma brilha em prateado, se reconfigurando na imagem de uma mulher usando uma armadura de caçador, leve e de couro preto, e possuindo cristalinos olhos azuis e, mais importante, longos cabelos brancos.

A longa cabeleira branca não surpreende tanto os homens quanto o fato que o lobo se transforma, especialmente por se transformar em uma mulher (a voz do lobo era poderosa e decididamente masculina). Eleonora sabia que os escolhidos de Makar tem seus cabelos alvejados pelo que dizem ser o toque de seu senhor, e as feras em que se transformam mantêm essa aparência alva.

“Sou Annabelle, guardiã dos menires dessas terras”, diz ela no idioma comum de Eimland.

***
 
Conversam alguns minutos com Annabelle, mais lhe perguntando informações, direções, quais perigos podem ser encontrados no lugar e se ela teria visto o grupo que desistiu de emboscar-lhes mais cedo. Para a última pergunta a sacerdotisa responde que não viu um grupo grande de civilizados vindo do Sul além deles, mas que viu um outro bando de civilizados vindo no Nordeste, talvez a uma hora atrás.

“Um bando de caçadores. Quatro caçadores rubros encouraçados e suas feras de caça, que perseguiam uma fêmea civilizada. A presa parecia perigosa, mas estava desarmada e ferida.”

“Homens da Cruz Solar?”, indaga Roderic, perante a descrição de armaduras vermelhas.

“Civilizados encouraçados em rubro. Para mim vós todos sois iguais”, responde, displicente a metamorfa.

“A mulher a quem perseguiam? Teria essa altura e cabelos avermelhados?”, pergunta Alyssas, afoita.

“hm...sim, exatamente. Vossa conhecida?”

Alyssas empalidece, e os outros se entreolham, preocupados. Segurando seu machado Kniaz completa: “...Karissa...”

***

Pedem para Anabelle indique onde viu os caçadores, ao que ela responde que seria tolice apontar onde ela os viu. Já faz talvez uma hora, e até chegarem lá a trilha já estaria fria o suficiente. Ela propõe algo, porém, ela poderá levá-los até os caçadores, pois conhece essa floresta como a planta de suas patas, mas com uma condição: Makar não espera por ninguém, e se quiserem sua ajuda terão de acompanhar seu passo. Como lobo. Somente os mais velozes poderão ir com ela, e para trás ficam todos exceto Eleonora, Ivdan e Dan (ajudado por um feitiço de velocidade da selvagem).

É preciso muito fôlego para acompanhar a fera prateada, conforme ele salta graciosamente por sobre troncos e corre por baixo de raízes, nunca parando um único momento. Ivdan e Eleonora sabem lidar com florestas, e jogam-se por sobre troncos, rolam por baixo de raízes, penduram-se em galhos, saltam e rolam por sobre leitos de rio e barrancos. Dan não é tão acostumado com esse tipo de terreno porém, e sofre bem mais que seus companheiros, rasgando as roupas e quase perdendo os sapatos, mas o feitiço de velocidade o mantém no páreo.

Subitamente então o lobo para sobre uma rocha. Logo a frente dele há o corpo morto de um cavaleiro da Cruz Solar. Armadura de couro reforçada com placas tingidos de vermelho, coberta pela tabarda da Ordem, seu elmo meio esmagado por pesados golpes de uma larga pedra ensanguentada jogada ali perto, sua espada tomada dele e não mais ali.

As desconfianças deles se concretizam ao reconhecer a armadura. Karissa de certo escapou do castelo e agora está sendo perseguida por seus algozes. Deixando o corpo para trás, pedem que seu guia lupino prossiga, e o seguem no melhor de suas habilidades.

***


Correm talvez quase meia-hora, quando então seu felpudo guia para, como uma estátua, no topo de um barranco. A floresta em volta tem vegetação mais típica para terreno mais seco, com árvores mais esparsas e frondosas, mas com árvores e solo coberto de marrom devido às folhas secas do outono. De primeiro apenas mantêm silêncio, mas logo questionam o lobo de o que seria esse lugar.

“Lhes fiz um favor; seus caçadores encouraçados devem passar por essa região em alguns poucos minutos, se o caminho de sua presa se mantiver constante. Se pretendem fazer algo, é melhor se prepararem.”

Tentam conseguir mais respostas do lupino, porém o silêncio que recebem, um silêncio de quem está mais interessado no ambiente do que neles, deixa-lhes claro que o lobo irá apenas observar a partir desse ponto. De uma forma ou de outra logo ouvem o som de cães de caça, indicando que Karissa e seus algozes deveriam estar perto.

Logo Ivdan lança um plano: Irão se esconder nos arbustos secos e nas árvores formando um tipo de triângulo em volta de uma posição central, posição central onde colocarão uma adaga de Ivdan cravada. Imaginam que a adaga irá atrair a atenção de Karissa ou seus perseguidores, e dali estarão em posição vantajosa para uma embosca.

O plano corre bem; logo os latidos ficam mais altos, e não demora para que possam ver Karissa, talvez quase irreconhecível pelos maus tratos, mas com o mesmo olhar duro de sempre, correndo, caindo e rolando na direção deles. Ela está vestida com as calças e camisa de saco típicas de um prisioneiro, com seu braço direito aparentemente quebrado e mantido em uma tipoia junto ao torso. A cavaleira também tem um virote cravado no ombro direito e marcas de cortes e arranhões pelo corpo todo. Alguns passos atrás dela, atrasados pela armadura mas compensando nos ferimentos, três soldados a perseguem, portando indumentárias semelhantes à seu falecido companheiro de crânio esmagado, bem como dois cães farejadores. Dois deles possuem bestas de caça que eventualmente disparam na Guarda do Dragão, que apenas se salva devido a correr de forma caótica e entre as diversas árvores.

Os heróis cerram os dentes esperando que a Guarda veja a adaga, e mal podem segurar um suspiro de alívio ao verem que ela a nota. Parando de correr em zigue-zague e traçando uma linha reta em direção à adaga a cavaleira corre com todas suas forças e desliza pelo chão coberto de folhas molhadas, agarrando a adaga no caminho e com um rolamento hábil parando de pé, adaga à mãos esquerda e voltada para seus perseguidores. Os homens logo a alcançam, parando talvez a uns dez metros dela, apontando as bestas para ela.

“Morrerás lutando e não correndo então?”, diz respeitosamente um dos soldados.

“É o que ocorrerá convosco”, responde a cavaleira, de dentes cerrados.

Enquanto poderiam simplesmente atirar nela, Eimland é uma terra de honra, e logo os soldados largam suas bestas e honram sua oponente a sacar suas armas corpo-a-corpo e se prepararem para um embate frontal contra ela. Karissa se vê cercada mas não se desespera, encarando com dignidade seu possível fim frente a três oponentes ilesos, melhor armados e armadurados. Mas não haveria de ser, e logo um uivo cortante é ouvido na floresta, e o ambiente ali é iluminado com uma cálida luz prateada acompanhada de pequenas estrelas de luz que queimam como fagulhas de uma forja. Os soldados gritam por bruxaria, e parte sobre Karissa, mas é nessa hora que o grupo intervém.

Das árvores e das moitas eles saltam, gritando e surpreendendo seus oponentes. Dan lançando feitiços rápidos que (não) tiram do véu energias mágicas para disparar um golpe concentrado de magia em seus oponentes e Eleonora convocando relâmpagos sobre os pobres soldados. A luz cálida parece modificar seus feitiços porém, nem torná-los mais fracos nem mais fortes, mas diferentes, conforme o disparo de Dan bem como os relâmpagos de Eleonora assumem forma e coloração de fachos concentrados de luz lunar.

Não demora muito para que o combate torne-se realmente corpo-a-corpo e em proximidade, com Eleonora batendo com cajado e escudo entre rosnados, e Dan habilmente revidando seu oponente com ataques guiados por feitiço, e apenas Ivdan, do alto de sua árvore, atirando flechas nos combatentes e em relativa segurança. Mas tal segurança não duraria muito, pois no meio do combate, talvez atraído pelo barulho, talvez pela luz, talvez pelo sangue, os combatentes ouvem o rugido de gelar os ossos de algum tipo terrível de monstro.

A coisa que acompanha o rugido é um gigante de mais de três metros de altura, que corria curvado como um gorila e possuindo pele rugosa e mãos com garras do tamanho de adagas. O monstro logo alcança o campo de batalha, revelando assustadora velocidade, e com um poderoso golpe com as costas de uma das gigantes mãos manda um dos cavaleiros pelos ares e de encontro a uma árvore, onde todos podem ouvir o nojento som de seus ossos se racharem com o golpe e com o impacto. O cavaleiro cai como um boneco quebrado, todos torcem que morto na hora e não tendo de agonizar, enquanto o monstro saído do pesadelo ruge em desafio a poucos metros de Eleonora e Karissa, que fraquejam um passo para trás.

“Ei, coisa feia!”, grita da árvore Ivdan, disparando duas flechas contra o couro nodoso pesado da criatura. “É, olha para mim, monstrengo!”

A criatura vira o olhar para Ivdan, em um rugido de indignação, e Dan aproveita o momento para correr até suas companheiras e lançar um feitiço sobre elas. Enquanto normalmente o mago de guerra disfarça seus poderes como feitiços herméticos e frases de efeito, o desespero da situação não pede por tais floreios, e ele simplesmente toca suas companheiras para ativar o feitiço. Por um instante a luz cai na visão dos afetados, e quando ela retorna o mundo à volta parece embaçado e desfocado, visão, tato, audição, todos os sentidos nublados como se vistos e ouvidos por detrás de uma grossa janela de vidro fosco, o véu parcialmente os recobrindo.

Irada por perder sua presa a criatura brande as garras a esmo cortando o ar, sem saber por pouco não acertando os aventureiros invisíveis e em fuga, e por mais que os invisíveis se retirem por um momento parece que tudo será em vão, conforme a criatura se adapta e foca-se neles mais pelo cheiro de seu sangue do que pela visão. Mas Ivdan não o permitiria.

Por mais que a criatura não estivesse prestando atenção nele ali, em cima de uma árvore, e mesmo tendo notado que a carne do monstro havia expulso a flecha e fechado o ferimento, o patrulheiro desiste da chance de fuga em nome de salvar seus companheiros, salta o chão e dispara mais uma flecha contra as costas do oponente, gritando para chamar sua atenção.

“Ei!”, ele grita e dispara uma flecha, “Ei criatura das trevas!”, dispara outra, chamando a atenção do monstro, que vira-se para ele, “Por Alene, como você é FEIO!”, grita então, em desafio.

O monstro pega a isca, e ruge irado pela dor para o patrulheiro, e logo salta por sobre ele, que se salva através de uma rolagem rápida no chão. O monstro pousa do outro lado e bate os punhos no solo, enraivecido, e o patrulheiro grita antes de correr “Pegue-me se puder, coisa feia!”.

Por mais que seja bom em corrida, e que a florestas sejam como um primeiro lar, Ivdan sabe que não será capaz de fugir da criatura. Ele salta por sobre os troncos, e a criatura esmaga os troncos em seu caminho, se esconde atrás de raízes e a fera arranca elas com um golpe de suas afiadas garras, corre com todas as suas formas mas o passo símio do monstro é duas vezes mais rápido. Não importa o que faça, a criatura chega cada vez mais perto.

Mas logo sua sorte muda. Um uivo de lobo corta o ar, e exatamente quando o monstro se lança para cortar Ivdan com suas garras, o lobo prateado corre em sua direção, lança-se contra o monstro e transforma-se em um tipo monstruoso de humanoide lupino repleto de garras e presas, que choca-se no ar contra a fera nodosa e rola pelo chão junto com ele.

Os dois rolam alguns metros, trocando mordidas, rosnados e golpes de garra, e logo estão de pé, um encarando o outro. O monstro nodoso parece ter medo do lobisomem, e lança um rugido acuado antes de lançar pela floresta em fuga. O humanoide lupino vira-se para um temeroso Ivdan ao chão e fala com sua voz estrondosa “Não espera que fosse se sacrificar pelos outros. Muito bem civilizado. Agora vá! Deixe o Caçador com sua Presa!”, antes de colocar-se sobre as quatro patas e partir, aos uivos, atrás da fera nodosa.

“...Santa Alene...” murmura o patrulheiro.


***

Reunidos de volta no acampamento, Karissa recebe tratamento médico enquanto descreve o que aconteceu. Ela tem algumas costelas quebradas, um tornozelo torcido feio e seu braço de espada quebrado em dois pontos, o que força Eleonora a colocar os ossos no lugar antes de preparar a tala correta. Karissa porém é firme como granito, e sequer geme durante o doloroso processo, concentrando-se em relatar o ocorrido apenas com pausas o suficiente para respirar fundo entre os picos de dor.

Ela explica que não muito tempo depois que partiram o cardeal revelou suas verdadeiras cores. Ele mandou prender ela e Dryfolk, e os lançou às masmorras onde sofriam algum tipo de agressão física diariamente pelos carcereiros sádicos do lugar. A princesa também foi tomada como prisioneira, mas não foi posta na masmorra. Dentro de alguns dias Karissa soube que ela seria executada no Monte Lugas, e ontem, no dia marcado conseguiu escapar do calabouço e por uma passagem para fora dos muros do castelo, atacar a carruagem em que levavam a princesa e fugir com ela. Perto da alvorada elas foram atacadas, ela e a princesa acabaram se separando e a princesa foi re-capturada. Ela mesmo conseguiu escapar e estava tentando desde o amanhecer evadir seus captores, com o êxito que eles presenciaram.

De uma forma ou de outra, ela os incita a ir resgatar a princesa no Monte Lugas. Junto de Alyssas, ela se dirige aos heróis.

“Não irei pedir a homem ou mulher algum que me acompanhe. Essa missão me colocará contra um homem importante da Santa Igreja, e obtendo sucesso chances são grandes que os presentes sejam marcados como hereges. Tal é um fardo que sou jurada a aceitar, mas o qual não devo impor a ninguém.”

“Tu sabes que já viemos longe demais para voltar atrás agora, será Karissa”, diz Kniaz.

“Vós voltaram-se contra seu lorde comandante, por isso digo que não posso pedir-lhes mais.”

“Não estás a pedir, mas estamos a oferecer mesmo assim, Guarda do Dragão”, diz Eleonora.

“Sim, estamos contigo até o fim. Princesa Valerie é inocente, não permitirei que tal destino recaia sobre ela.”

“Éeeee, voltar-se contra a Igreja nunca é exatamente algo sensível, tampouco desejável de fazer na maioria dos dias, mas só posso concordar com meus bravos camaradas”, se delonga Dan, “Tu tens minha espada, e minha magia, para o que ela lhe servir nessa valorosa demanda, bela Lady Karissa. Especialmente se fazer o que é correto também me permitir passar nem que a mais ínfima parcela de tempo a mais perto da honrada e gloriosa, e por que não dizer, belíssima, Lady Alyssas”, adiciona, sorrindo para a cavaleira que o ignora “Nessas condições, honradíssima sera, nenhum homem de bem, como eu, é capaz de voltar as costas e conseguir dormir de noite. E eu prezo muitíssimo meu sono, diga-se de passagem.”

“Está decidido então. Partimos agora mesmo será Karissa”, diz Roderic, incitando os homens. “O Monte Lugas não fica muito longe homens, mas precisamos partir agora e assumir um passo célere. Ergam vossos espíritos, o destino de nossa demanda se aproxima!”

***

O Monte Lugas é um local histórico, onde A Santa Alene foi queimada viva pelo antigo império de Konstrow. A morte de Alene influenciou a religião que a seguiu tanto quanto sua vida; o artefato em forma de T onde foi pendurada tornou-se seu símbolo sagrado, a chama causadora de sua morte e ascensão para ao lado do Criador um símbolo de purificação e força, o local onde foi executada um ponto de peregrinação e meditação para os fiéis e, claro, onde execuções semelhantes ocorrem. Religiosos de toda a Eimland e as vezes de além fazem peregrinações humildes ao Monte Lugas para meditar, e um monastério pequeno para atender as necessidades dos fieis.

Passam-se algumas horas, e está perto do crepúsculo quando eles aproximam-se da estrada que leva ao monastério. Decidem que irão levar um grupo pequeno, Roderic, Eleonora, Kniaz, Ivdan e Rose-Marrie, acompanhados de Karissa e Alyssas, todos disfarçados de peregrinos, usando no máximo armaduras de couro e escudos leves por baixo de seus mantos marrons, e acompanhando de uma mula de carga.

Chegam perto do portão e dizem para o vigia que são peregrinos em missão divina, e que estão cansados e que não podem voltar, não após tendo vindo das distâncias de Edhervarst até ali. São apresentados então ao pátio interno; um monastério baixo e simples construído ao anexo das ruínas de um castelo que na época de Konstrow era bem maior, talvez do tamanho de Addford, possui um pátio interno com uma arquibancada rebaixada de talvez dez degraus que cerca um tablado de pedra onde uma pira em forma de T já está armada, com uma garota amarrada a ela.

A pira possui um impositor de robes pretos orando e a defumando, enquanto um outro sacerdote em roupas marrons ajeita a madeira e outros quatro estão em volta, assistindo ou orando. Os “peregrinos” aproximam-se, fingindo ser para assistir a execução de um herege enquanto dizem coisas como “Aleluia, hoje é um dia sagrado mesmo” para os guardas. O plano é ordenar que parem a execução, e se for necessário passar os monges à espada, que assim seja e que Alene os perdoe.

O impositor os enfrenta, e ordena que não interfiram. Ainda fingindo-se de monges dividem algumas palavras ali com ele, antes de revelarem-se, arrancando os mantos e mostrando as armas.

“Afastem-se da princesa”, grita Roderic, “Aqueles que tentarem nos impedir ou tocar nela serão ceifados!”

“Bravas palavras... para um filhote!”, responde o impositor, com uma poderosa voz que facilmente reconhecem. O homem arranca os robes negros e revela-se Zackary Le’Berry. Três dos “monges” revelam-se soldados da Cruz Solar com espadas e escudos, um deles arranca os robes para se revelar como o assassino Willen, sacando e girando as espadas, e a “princesa” se solta das amarras e se mostra como Jocelyn, uma feiticeira de guerra dos Lâminas Cinzas.

O embate que se segue é sangrento. Os soldados descem sobre os heróis e travam espadas com eles; Willen ataca Ivdan e o prende no corpo-a-corpo, o impedindo de usar seu arco; Eleonora arremessa uma esfera de chamas sobre a madeira banhada em óleo a fim de queimar a feiticeira de guerra apenas para descobrir que a madeira tinha sido banhada em água; a feiticeira se desmancha em um enxame de brasas inteligentes que atacam principalmente Eleonora a impedindo de se concentrar em suas magias; e em geral o grupo tem suas forças apertadas juntos, lutando costas-a-costas e fazendo seu melhor para se defender.

Conforme a luta começa a se desenrolar em sua volta, Le’Berry se dirige para Roderic.

“Roderic, sempre o tolo galante!”

“O que fizeste com a princesa, ser?”, grita Karissa, colocando-se ao lado de Roderic.

“Eu não fiz nada com nossa majestade. Ela está em Addford, segura, por enquanto. Onde está a gema?”

“Segura, bastante longe daqui”, responde Roderic.

“Poderíamos parar com as fintas cansativas? Depois de tanto tempo eu achei que mereceria pelo menos isso de teu respeito, garoto! Estão andando com aquela que a roubou, certamente que a gema não está longe!”

“Se desejar a joia, ser, vai ter de tirar ela de nossos corpos sem vida!”, desafia Karissa, apontando a espada para Le’Berry. “Erga tuas armas, ser!”

E com essas palavras os três se chocam, o ex-general contra Karissa e Roderic ao mesmo tempo. Por mais que Karissa possua treinamento, e Roderic a reserva de determinação que separa heróis de homens comuns, o velho general possui a experiência de anos no campo de batalha, e não apenas consegue aparar e evitar o avanço dos dois como também fazê-los se afastar com seus golpes largos e terríveis.

“Não é tarde demais para mudar de ideia Roderic”, grita o general, chutando Karissa longe e travando espadas com Roderic. “Retorne comigo para Blackfen e teu lorde irmão perdoará seus crimes. Ele mesmo me disse isso, com essas próprias palavras.”

“Não tenho interesse algum com meu irmão, ser”, rosna Roderic se soltando e protegendo Karissa que se levanta e se coloca ao lado dele. “Minha irmã está morta por culpa dele e suas manipulações!”

“Diabos garoto, esqueça Drakenmont! Não havia como evitar aquilo!”, diz o general então evitando dois golpes dos heróis, e avançando com um contra-ataque feroz. Ele avança sobre Roderic e desvia sua atenção com uma finta lateral, chuta Karissa no braço ferido, fazendo com que o som de ossos quebrando novamente preencha o ar junto de um raro grito de dor da Guarda, e completa com um giro de corpo e um golpe vertical que acerta Roderic no peito, cortando sua armadura e espirrando sangue.

“Tu pintas os feitos de teu irmão como manipulações malignas, mas um homem não come omeletes sem quebrar alguns ovos”, ele grita, apontando para os dois feridos no chão, enquanto a luta em volta continua. “Sangue é o preço do progresso; a tinta com que as páginas da história são escritas! Olhe em volta, filhote; Eimland apodrece por dentro; teu irmão tenciona arrancar a podridão de suas raízes, nem que tenha que sujas suas mãos de terra para tal!”, ele então aponta a espada para o jovem. “Tu és um Calhart, um lorde entre os lordes. Tu tem um dever para com teu nome, e é teu destino cumprir esse dever!”

Roderic se levanta com dificuldade, segurando o ferimento no peito e falando entre cuspidas de sangue: “E era meu destino ver Meline morrer? Não, o destino não teve parte nisso, Le’Berry... Meline morreu por que eu não tive a coragem de salvá-la”, ele olha para Karissa e então de volta para o general, se levantando. “Minha inação a matou, e não cometerei o mesmo erro duas vezes”.

“Então tu és um tolo!”, esbraveja o general. “O que é a vida de uma garota quando pesada contra o bem maior?”

“Não há bem ALGUM nisso!”, grita Karissa, desafiando o general. “Apenas intriga, apenas morte!”

“E eu NÃO ficarei parado enquanto inocentes sofrem em nome de seu “bem”!”, completa o jovem Calhart.

“Então tu selas teu destino”, diz amargamente o general, avançando sobre os dois.

“E tu também, comandante”, responde Roderic sacando rapidamente o cetro entregue por Dion. “DRAKUL!”, grita então, ativando o cetro. A cabeça de dragão ganha vida, soltando um rugido inesperado para um artefato tão pequeno, inspira ar e então ruge um verdadeiro inferno. Não um leque de fogo, como Dan havia usado sobre dois dos soldados e garantido a vitória do outro lado, mas um inferno de chamas, largo e comprido, com força suficiente para começar a desintegrar a madeira molhada da pira e quase arremessar o general para longe.

Le’Berry se segura cruzando os braços frente ao corpo, mas mesmo sua prodigiosa força começa a falhar, e ele é forçado alguns poucos passos para trás enquanto o dragão, imbatível, continua a soprar fogo. Alguns pedaços da armadura e roupas do general começam a se desmanchar perante as chamas, mas ele ainda tem forças para sacar o segundo e último dos frascos de magia negra que carrega na cintura e arremessá-lo ao chão no centro dos combatentes.

A mesma gosma negra de outrora se espalha, um rápido rasgo no véu de onde demônios tentam escapar, e incapazes de fazê-lo atacam a todos com garras e mordidas etéreas. Um a um conseguem se remover da gosma negra, mas é Ivdan quem ter uma linha de visão para Le’Berry, que escapa para seu cavalo. Ivdan prepara uma flecha e não pensa duas vezes em dispará-la contra o oponente ferido e em retirada, mesmo após todos os anos e tudo que lhe deve. "Não assim que me ensinou?", diz, não para Le'Berry, e sim para si mesmo, como se em um tipo de diálogo mental com o general. A flecha é certeira, cravando as costas do general e o fazendo cambalear, mas infelizmente não é certeira o suficiente para ser mortal. Com o pouco que lhe sobra de forças o general monta no cavalo e o esporeia para longe, sem olhar para trás. Ivdan já tinha uma segunda flecha preparada porém a solta; não tem em si gastar uma flecha que apenas erraria, dada a distância.



***

O grupo está ferido, os soldados viverão, mas não estarão em estado de lutar ou persegui-los, portanto não são grande ameaça. A preocupação maior, mesmo de Karissa com o braço (novamente) quebrado é com a princesa em Addford, e junto dela o cavaleiro Dryfolk. A ideia é partir imediatamente, e tomar o rumo mais direto e discreto o possível para Addford, a fim de utilizar a entrada por onde Karissa conseguira escapar anteriormente.

Já Eleonora, cruel, tem outros interesses, conforme ela se aproxima do corpo desmaiado de Willen, o qual Ivdan já examina.

“Não vai terminar isso? Terei eu de fazê-lo?”, ela rosna.

“Deixe-me sozinho com ele.”

“Ele é um homem perigoso, e não hesitaria em lhe ceifar dada a chance. Todos sabemos disso Ivdan”, ela diz. “Acabe com ele.”

“Essa não é uma decisão que lhe cabe, druida”, diz Ivdan, sutil como uma nevasca. “Agora deixe-me a sós com ele de uma vez.”

A selvagem rosna alguma coisa e se afasta, jurando represálias mil ao patrulheiro, que não se importa e apenas fica ali, observando o assassino caído.

“Tu foste o único aqui que realmente me deu trabalho. Uma ameaça ambulante”, diz então se aproximando do corpo do ex-colega. “Eu poderia cravar essa faca em ti agora. Mas não. O farei um dia em que esteja de pé para se defender”, completa, e então se levanta para acompanhar os outros, mas logo ouve um furtivo som e quando se vira está a poucos centímetros da ponta do punhal do assassino mascarado.

“Não esperava piedade de tipos como ti, Ivdan”, diz o assassino, que então dá dois passos para trás. “Le’Berry sempre disse “Seus inimigos conhecerão tua fama mesmo antes de te conhecer” não é mesmo?”, completa, guardando as facas e fazendo um gesto cortês. “Ainda nos veremos de novo, patrulheiro”.



Castelo de Addford - Himline - Viajante 2 de 589E

“Tu não tocaste em teu jantar de ontem...”, diz o jovem Ian, de armadura cinza e capa preta, próximo da princesa Valerie em um calabouço do castelo. “Uma princesa não pode viver apenas de orgulho”, completa.

O ambiente em volta é triste, uma cela do calabouço onde a princesa Valerie permanece ajoelhada e de olhos fechados, uma expressão contrariada no rosto. Ao seu lado a refeição da noite anterior, intocada.

“Tencionas minguar de fome? Sabes que ninguém choraria. Muitos inclusive ficariam felizes com teu óbito. Pare de ser teimosa e coma princesa.”

“Tu estavas de conluio com o cardeal esse tempo todo ser Ian... O que pretende fazer comigo?”, diz a princesa, olhando triste para o cavaleiro. “Se não me entregar ao Duque Volstan, então qual é seu intento?”

“Colocar-te onde tu realmente deveria estar”, diz o cavaleiro, misterioso como sempre.

“Então manipular-me-ia também. Sabes que não o farei; não me curvarei perante teus desígnios”, diz, orgulhosa, e fecha os olhos novamente, segurando-se no pouco de dignidade que ainda lhe resta.

“Tu irás, se desejar sobreviver. Tu não tendes escolha”, ele diz, se recostando na parede.

Eles são interrompidos quando o carcereiro abre a pesada porta e adentram à cela o Cardeal e um outro homem. Vestido de armadura completa dourada e usando uma tabarda longa e com capuz do mais puro púrpura, o homem é claramente um cavaleiro divino.

“Então... essa é Lady Valerie”, diz o cavaleiro.

“Encontra-se bem, alteza?”, diz o cardeal, olhando em volta. “Se tu fosses um pouco mais dócil, não haveria razão de manter-te em cárcere tão triste quanto esse...”

“Essas acomodações são mais do que suficientes para uma princesa falsa”, diz ríspido o cavaleiro.

Valerie faz uma expressão contrariada, fitando irada o cavaleiro.

“Não tão depressa, lorde Torseau”, diz o cardeal. “A menina ainda não o sabe...”

“Digam-me do que estão falando!”, ordena princesa.

“Muito bem”, diz o cavaleiro, pondo um joelho ao chão frente Valerie. “Tu não és Valerie Mithras. A verdadeira princesa morreu pouco após o nascimento. Tu és tua sósia.”

“Isso, ser, é um absurdo sem tamanho”, diz a princesa, claramente ofendida.

“Tal não é nem absurdo, nem falsidade”, ele responde, calmamente. “Tu não és Valerie. Tu és uma boneca de palha posta em um berço vazio pelas mãos de membros do Conselho que não nutrem amor algum pela Rainha. Era a intenção deles que um dia subisse ao trono tirando-o do alcance das mãos de Eldereth. Assassinaram os dois filhos da rainha e atribuíram suas mortes à peste e ao inimigo; colocaram-te na linha de sucessão. A enganação estava completa, e teu destino no trono selado; Hammond estava doente e não teria outro filho, mas contrário as crenças, outro príncipe nasceu. Se Kylan é nascido da semente de Hammond ou não é altamente questionável; é bem provável que Volstan tenha encontrado outro progenitor apropriado para garantir a posição de sua irmã como Rainha-Mãe. Independente de sua origem todo o plano do conselho foi jogado à terra tão logo o príncipe nasceu.”

“Tu falas mentiras”, diz a princesa que conforme ouvia ficava cada vez mais ofendida. “Estás tentando me manipular, e não acreditarei em uma única palavra do que diz.”

“Acredite o que preferir, criança”, diz o homem, se levantando. “Para nós de pouco importa. Até onde me concerne tu pode ser filha de um catador de esterco e de nada mudaria: Temos um ás em nossas mangas; qual seu naipe de pouco importa. Queremos apenas que seja nossa princesa, como sempre o foi.”

“Eu sou uma filha da linhagem de Brancent o Grande! Eu não obedecerei tuas ordens!”, revida e pequena mas irada princesa.

“Ah não?”, provoca o cavaleiro. “Então farás o que? Caia nas mãos do Duque Volstan e serás presenteada com uma corda em nó ao invés de uma coroa”. Ele então olha para o cardeal, e abre um sorriso gentil. “Nós apenas queremos lhe ajudar a conquistar o trono que é seu por direito.”

A jovem princesa fica sem palavras, verdadeiramente sem saber o que ocorre, e após alguns instantes com expressão de estranheza, finalmente fala. “...o que são vocês?”

“Nós não somos aliados de Duque Volstan, tampouco apoiamos Drewsaw. Nos considere apenas como... aliados.”

“Lorde Torseau, vamos deixar a princesa pensar sobre nossa proposta”, diz o cardeal. “Quando eventualmente tiver compreendido a realidade de sua situação ela desejará ser nossa aliada, tenho certeza.”

“De fato. De-lhe até o retorno de Liana”, responde o cavaleiro antes de olhar uma última vez para Valerie e então se retirar. “Até lá, deixemos-lhe ponderar.”

“Ian, garante que a princesa se alimente corretamente. Ela é tua responsabilidade”, diz o cardeal, antes de sair.

“...e de fato o é, cardeal... de fato o é...”