BL - Diário de Erika - 03  

Posted by Diego Bastet in


Sessão 3

Guerreiro 22 - 11 4E



Diário,



Eu não entendo que há de errado com estas pessoas! Como que podem agir desta forma, tão indiferentes com o que os demais, mesmo seus companheiros de aventura pensam ou sentem? Enchem a boca para falar que abriram mão de tudo para salvar o mundo, mas quando sugiro que gastem menos dinheiro com cafés da manhã pomposos ficam ofendidos.



Como podem ser tão cruéis? Carregam orgulhosos símbolos que nada significam, e parasitam dele o veneno doce da simplificação: Tudo vale, tudo pode ser trocado. Todo sacrifício é aceitável. Para eles, as coisas não tem peso, elas se desfazem no ar porque tudo é volúvel e simples, mesmo os valores pessoais. Tudo é um mero capricho volátil.



Não existe diferença entre mercenários e prostitutas. Tudo é uma moeda de troca pelo preço correto, ao que parece, mesmo aquilo que nos faz nós mesmos. Luna lançaria a lama seus amados, sua vingança e sua fé? Gaborn abriria mão de seu exercito e de sua espada? Xeloksar negaria a sua companhia e o que diabos seja que ele acredita? Por uma chance? Cínicos. Hipócritas. O fazem de boca para fora, eu sei que não o fariam.



Mas obrigam o Raagras a abrir mão de sua arma, de um pedaço de memoria que ele jurou jamais compartilhar por uma chance, não uma certeza, uma mera hipótese de poder falar com a merda de uma rainha caprichosa. Tudo o que vive morre e nos somos julgado pelo que fazemos até lá. Sejam Santos ou pecadores, Reis ou mendigos. O que nos separa é o que somos.



Mas não importa pare eles. Não. Cruéis e cretinos mercenários e prostitutas.



E sou eu a mensageira de tal prostituição. Os covardes sequer tem o animo para ir a falar para Raagras que ele tem que abrir mão de sua fé para ter uma maldita chance de falar com a maldita rainha. Assumi a culpa.





***



Guerreiro 22 - 11 4E, noite



Diário,



Estava raivosa. Não devo ficar assim. Entendo o ponto de vista deles. Não concordo, mas entendo... É... Difícil.



Em todo caso, acordei hoje em outro pesadelo. Estranho desta vez. A senhorita Luna diz que estou com olheiras. Raquel me mataria se me visse nesta aparência.



O que esta acontecendo comigo?



Acho que a cerveja me fez mal. Acordei numa estalagem pomposa. Desde quando eu passo mal com cerveja? Enfim, como íamos fazer muitas coisas, decidi colocar minha armadura. Luna diz que as minhas roupas fedem. Isso é meio ofensivo, apesar de que tenha que admitir que sim. Mas não tenho o que fazer.



A senhorita Lindriel vestiu uma roupa bonita. Ela é uma qesir muito bonita, mesmo. As tatuagens ajudam. Já sei porque Lucian gosta tanto dela.



A senhorita Luna também. Vestiu uma roupa que parece que vai cair. Não faço a mínima ideia de como ela fica grudada no corpo dela. Parece uma daquelas roupas do povo de Kul, mais ou menos. Mais curta, menos tecido. Será que é uma técnica da Mãe Negra? Se for, é uma verdadeira arte!



O café da manhã deste lugar parece ser feito para uma família inteira. Muita comida. Tem cheiro bom, mas... É ostentosa demais. Eles não parecem se preocupar? Porque deveriam? A senhorita Luna só come coisas claras. Devo lembrar-me disso. Coisas claras. Lorde Xeloksar come a gosto. Raagras também, mas não com nos. Ele parecia estar trabalhando.



A senhorita Lindriel foi tomar sol. Eu não sabia que Qesires se bronzeavam.



O resto de nos foi a casa do professor Mario Constantini. Não tivemos sorte em falar com ele, apesar de que um senhor bem elegante e gentil falou com nos. Eu não sei o que ele falou mas temos uma entrevista com ele amanha de manha. Com o professor Mario. Há sim, vimos também a filha dele. Acho que era. Ou a esposa. Deve ser a filha. Era tão bonita quanto a Nualia falava.



Como tínhamos a tarde livre, pedi para me acompanharem a fazer uma espada nova. Uma de madeira. Luna não quis ir. Khain é uma cidade bem grande, e tem um comercio bem interessante. As pessoas gostam de musica por aqui. Sempre há um senhor tocando violino ou um daqueles instrumentos estranhos que é uma caixa com uma parte mole no meio que tem que ficar esmagando e puxando e fazendo careta enquanto se aperta uns botões nos lados e sai um som bem feio, mas que de alguma forma parece legal. Não sei o nome.



Tem vários garotos de rua também. Um deles tentou roubar a sacola do Lorde Gaborn, mas este agarrou a criança e deu um cascudo que quase desmaiou o tadinho. Ele é um homem severo, o Gaborn. Sempre que cruzamos com alguém com aparência de guerreiro ele o encara. A maioria vira o rosto. Estou acostumada a companhia de pessoas altivas, mas este homem, Lorde Gaborn, parece que traz a morte aprisionada em seus olhos negros.



Comprei minha espada em uma loja que tinha uns cachorrinhos de madeira muito bonitinhos. E uns coelhos também. E um mamute pelado. Queria mostrar pro Lúcian, ele não acredita que tem mamutes pelados no sul.



Bom, passei a tarde conversando com as pessoas da cidade. Elas passaram muito sofrimento. Um marceneiro chamado Vincenzo teve sua família inteira morta pela praga. O padeiro Luigi, que se dizia um artista do pão, teve sua loja saqueada e incendiada por bandidos. A senhora Lucrécia teve seus três filhos mortos porque quiseram esconder um amigo homem-rato deles. Queria ter tempo para ajudar todos eles.



Pedi para o Lorde Xeloksar localizar um chefe da gangue local para tentar falar com ele para parar de fazer mal a estas boas pessoas. Não deu certo. Lorde Xeloksar não acredita que eles estão fazendo isto porque querem. Ele acha que eles não tiveram outra oportunidade. Eu discordo, mas não vou discutir com ele sobre os méritos da criminalidade. Não agora.

Me aperta o coração ver gente boa, gente honesta, denegrida deste jeito. Vivendo em medo e carregando um sofrimento que não deveria ser deles. Como podem os ricos e poderosos simplesmente ignorar isto?



Acho legal como as pessoas me reconhecem de armadura. Elas apontam para mim e falar aquele idioma estranho delas, mexem com as mãos, cutucam umas as outras, apontam e gesticulam para mim, na maioria das vezes com olhos arregalados de quem não acredita o que vê. É legal. Apesar de fazer calor. Armadura é quente demais.



A senhorita Lindriel me pediu para ir com ela a festa hoje de noite. Faz anos que não vou a uma festa. Os outros parecem animados. Inclusive Lorde Gaborn que comprou um elegante traje negro para ir. E Lorde Xeloskar também, se portanto como Barão que é. É um Thaar bastante belo, este meu companheiro de aventura, e ele sabe disto. Vi ele se aproximando de uma das mais belas damas da festa e com um leve gesto faze-la corar e sorrir.



A senhorita Lindriel foi com o traje de sacerdotisa dela. É... Distrativo. Acho. Acredito que a logica dele seja para ser desafiador você olhar a sacerdotisa no rosto com aquele decote. A senhorita Lindriel tem belos seios, incomuns numa qesir.



Quem estava muito bonita foi Luna. Um rapaz galante lhe fez um belo vestido que parecia que ia cair. Ela gosta disto. Em todo caso, era muito bonito, mesmo. Ressaltava bem como Luna é uma moça esbelta e curvilínea. Não é por nada que a Insaciável a abençoou! Os homens da festa pareciam querer quebrar os próprios pescoços para velos, e controlar os ventos para fazer aquela roupa temerária cair dela. Acho que esta era a intenção.



Falamos naquela noite com Karlanar. Lhe entreguei a arma de Raagras. Não gostei de faze-lo, me sinto como traindo ele, mas se isso servir para alguma coisa... Ele vem com uma conversa solta de que tinha que ajudar ele primeiro para então ele me ajudar, algo de ganhar a amizade. Não gosto dele. Não gosto dele nem daquele Akiak insano, o Bum. Não são de confiança.



Ele prometeu me ajudar. Espero que me ajude mesmo, detestaria olhar para Raagras e falar que sua arma foi aberta e desmontada por uma promessa vazia.  Ele disse que em uma semana poderia me confirmar. É o tempo que ele tem com a carabina.



Todos se divertiam. Menos Gaborn. Ele nunca parece se divertir, exceto quando come aquelas sementinhas. Ele é um homem estranho, que certamente lida melhor com um campo de batalha cheio de pessoas que querem sua cabeça que com uma noite quente numa mansão. Ele é um homem atraente, certamente, pela forma que as moças mais jovens o fitavam de longe. Pela minha experiência com a Cibele e com a Elizabeth, garotas jovens gostam de garotos maus. Gaborn parece não notar.



Falamos com a senhorita Felícia. O corpo da Rainha Sorshen é algo digno das lendas: A rainha da luxúria, algo difícil de esquecer. Eu já vi muitas coisas, mas nunca como os seres humanos se pareciam nas primeiras eras. Sua pele parecia tão macia e seus cabelos tão negros e sedosos, seus olhos e seus lábios...



Deve ser terrível, estar presa em um corpo de outra criatura. Ela demonstrava incomodo ao ser chamada de Sorshen ou ser elogiada. Pelo que a Celeste contava, a senhorita Felícia era uma mulher mais varonil, e custa-lhe viver na expectativa que se tem daquela que leva o corpo de Sorshen.



Ela explica sua parte da historia. Coisas não batem. A maioria sim, mas no final. Nualia estava lá, estava lá quando a magia de sangue se tornou Ashardalon, ela fez alguma coisa. Não houve o sangue de Dragdar... Ashardalon não é Dragdar. Pode não ser.



E mais, Tiphon estava lá. O mesmo marido de Elizabeth. Os estrelas negras sempre souberam do que aconteceu. Porque eles não vieram até mim, até Izack?



Até onde vão as maquinações de Nualia?



***

Diário de Lindriel (traduzido do Silari) 



22 de Guerreiro - Ano 11 da Quarta Era


Sol, mar e areia.



É deveras interessante notar que mesmo morando na costa eu não tenha a oportunidade de aproveitar essas três simples coisas diariamente. Não faz-se necessário dizer que a costa de Elhedond não favorece praias de areias brancas, e sim penhascos rochosos e portos fétidos, mas é de se imaginar que um morador conseguiria tempo para aproveitar as belezas naturais da região.



As milhas ao Sul fazem toda a diferença. Não apenas pela costa abençoada e os agradáveis graus a mais que elevam a temperatura de “deselegantemente frio” para “confortável”, mas também pela situação. Os outros desesperam-se e tencionam viajar por todos os cantos de Khain tencionando fazer todo o possível dentro do curto espaço de horas em que o sol ilumina essa bela terra. Agarram-se ao dia como se fosse seu último. Mortais.



Sua ânsia de viver e alcançar lhes faz acreditar que estão vivendo o presente ao máximo. Humanos em particular adoram fazê-lo. Correndo de um lado ao outro improvisando planos e tentando escavar uma solução. E durante isso esquecendo de aproveitar as imagens, sons e sabores que Khain tem a oferecer. Claro que o que Erika e os seus estão atrás é algo importante, mas o mundo não acabará amanhã, e se o fizesse eu preferiria passar meu último dia banhando-me em sol e recuperando minha cor do que andando por docas fétidas...



Temos um jantar para ir hoje. Conheço o gosto Alarani, e histórias o suficiente sobre nosso anfitrião para esperar tudo menos um, como ele colocara, “jantarzinho”. Um encontro com personalidades é o mais provável. Um baile talvez se Tu permitir.



Oportunidade. Tolo em fornecer-nos tal oportunidade.



Não deveriam preocupar-se com becos, canais e docas. Misturam-se com a escória do mundo e gastam seu precioso -e curto, admito- tempo; tudo quando a noite será de Ouro e Prata, e nisso possuímos “alguma” vantagem. É certo que o Alarani tentará engambelar-nos. “Uma semana”, provavelmente será seu ardil; talvez mais, caso possua tanta coragem quanto gosta de aparentar. Admiro sua coragem, não, é mais que mera coragem: É audácia. Tu ensina-nos à admirar nossos inimigos, afinal, e admiro sua audácia.



Erika seria decididamente ingênua em atender seu pedido. Que sirva de teste, vejamos o quanto a famosa Paladina é hábil em lidar com os homens. Será capaz de notar suas intenções e evitar ser presa em sua teia? Ou tombará vítima da peçonha disfarçada com doce sorriso?



O suspense me excita. Tanto que me pego escrevendo essas palavras em um diário. O furor me cora e sinto-me particularmente viva, essa curiosidade me corroendo de forma agradável por dentro, me deixando no melhor dos humores. Não consigo esconder o sorriso. Graças à Ti por essas emoções.



Mas não devo perder o foco. A dúvida quanto a força, ou ainda a fraqueza, da humana é tão doce apenas quanto sua irrelevância. Nada resultará dessa interação. É previsível e tão claro quanto essas águas que tocam meus pés. Mas se a fada sombria acredita ser capaz de parar o inexorável avanço do sol então ela está plenamente enganada.



Tolo em fornecer-nos tal oportunidade.



Khain está acostumado com os sacerdotes da Imperdoável. Distantes e agradáveis, uma fonte de informações e conselhos respeitadíssimos. Conheço seu templo, um altar em uma bela sala, um local de encontros, negócios e palavras sussurradas, apenas para convidados. Não esperam pela Insaciável, pelo furor e vulgaridade que somos capazes de prometer. Estão acostumados com a ameaça do açoite do ferro. Não esperam por Ouro, não esperam por Prata.



Preciso estar radiante como o sol de Khain. Por isso a praia. Ou talvez isso sirva como desculpa para a praia. Reforçarei a beleza pálida d’ela com pós e maquiagens; os dias de viagem em um navio fizeram mal à sua clareza, e uma aparência mundana não nos servirá de nada. Como Prata Verdadeira Luna irá cortar pela carne dos convidados e revelará a verdade oculta. O sol inexorável raiará para banhar-nos em frutos do duro labor. Luna nos conseguirá alguma coisa, um atalho. Aposto em uma forma de conseguirmos correspondermo-nos com a monarca; aposta alta, mas nada que duas sacerdotisas não consigam. Uma carta entregue à suas mãos servir-nos-ia muito bem. Só faz-se necessário um bom alvo.



Contorço-me de prazer ao imaginar a face de Karlannar ao receber tais notícias.



Ah Intensa, sinto-me juvenil hoje. Pareço uma ninfeta atrevida com risinhos tolos, escrevendo um diário deitada nas areias de uma praia, o inexorável sol às minhas costas. Tu faz sentir-me viva hoje. Banhar-me-ia nua em homenagem à Tua forma, mas não tenciono ser presa hoje.



Sentirei o toque das águas mais uma vez antes de meditar; faltam poucas horas para o crepúsculo e preciso controlar-me. Os anos perto de humanos estão fazendo com que eu aja como uma mortal: Mal posso esperar o anoitecer.

Tua glória ilumina-me ó Insaciável, sou o mero avatar de Tua radiância. Torne-nos Tua ferramenta.