Anjo Salvador - 20  

Posted by Diego Bastet in



Sessão 20


Base do Monte Konsvow - Fronteira de Edhervarsrt - Escudeiro 8 de 590E




É quase metade do dia quando os herois conseguem retornar à seu acampamento, trazendo notícias e tencionando traçar planos. Prioridades são determinadas em vista da natureza da missão: Matar um alfa certamente envolverá enfrentar uma matilha de lobisomens, e tal leva à possibilidade de mordidas e, com isso, a contração de licantropia.

Dividem as lendas bem como os “fatos” que conhecem, tentando armar-se para melhor enfrentar seu inimigo. Ao total, as seguintes informações são conhecidas:

-Licantropos são amaldiçoados com uma mordida. Uma vez mordido a febre é quase imediata, e pode matar.
-Como criaturas das trevas, pessoas mordidas caso sobrevivam se transformarm ao pôr-do-sol.
-Antes que a pessoa se transforme pela primeira vez é possível lhe aplicar uma infusão de acônito, também chamado de belladonna, um veneno potencialmente letal. A erva pode “matar a fera”, salvando o paciente.
-A natureza Sombria de licantropos os protegem de todas as armas comuns; apenas “metal da verdade” (prata) corta sua verdadeira essência por baixo da fera, sendo capaz de matá-los.

As seguintes informações são pedaços reconhecidos como verdade por um ou outro, mas não necessariamente por todos em todas as regiões, e logo sua veracidade e/ou eficiência não podem ser verificadas.

-Licantropos possuem alergia à prata, sua pele queimando ao toque.
-Podem sentir prata, que brilha incomodamente à sua visão.
-Acônito pode demorar à matar a fera e exigir múltiplos dias de aplicação, mas uma vez aplicado evita a transformação até sair do corpo.
-Licantropos ficam insanos ao anoitecer. Alternativamente só são capazes de se transformar durante a noite.
-Licantropos não se lembram do que ocorre quando transformados.
-Licantropos transformados à mais de uma Lua Cheia tornam-se completamente psicóticos.
-Caso o Alfa de uma linhagem seja morto, todos seus “descendentes” revertem a maldição. Alternativamente somente os mais novos que uma Lua Cheia.

Eleonora sabe como preparar a infusão, que de fato não é apenas acônito, e sim contém algumas outras ervas que servem ao mesmo tempo de veneno ou antídoto, dependendo da região. A infusão que conhece, uma mistura oleosa com base de gordura animal, contém além de Acônito as ervas Vulto Noturno (também chamada de belladonna pelo povo), Cicuta e Meimendro. A mistura, bastante tóxica se ingerida, e serve para combater outras infecções e maldições em seu povo, podendo ser aplicada sobre a pele ou alternativamente absorvida por mucosas através de um consolo; informação final que não causa pouco constrangimento aos mais púdicos Roderic e Rose-Marrie.

 Propósitos medicinais. Pior que é sério.


Como Edhervarst é uma terra de descendentes dos povos antigos, Ivdan explica, muito de sua cultura ainda é enraizada nos costumes antigos, mas conforme tais costumes são deixados de lado por vezes a bela flor do acônito as vezes é plantada em canteiros e inadvertidamente ingerida por crianças. As tristes mortes resultantes ou fazem o povo lembrar do conhecimento antigo e respeitá-lo ou, inversamente, culpá-lo e banir a planta de suas vilas. Felizmente a captção do acônico não há de ser um problema nas terras altas onde estão, clima mais propício à planta que além de muito bela “dá em qualquer lugar” de acordo com Ivdan, que acalma Kniaz sobre o assunto.



Não apenas Kniaz, mas Rose-Marrie também procura Ivdan a fim de pedir-lhe um favor. Em tom suavemente furtivo, a garota pede para o caçador tentar localizar uma flor dourada e vermelha que conforme descreve Ivdan reconhece pelo nome de Sol Vermelho. O caçador não conhece nenhum uso particular para a flor que lhe seja digno de nota, e em um momento de esperteza evita indagar a fundo as razões da garota.

“Não é muito comum”, menciona o homem, “mas farei meu melhor.”

“Não é mesmo”, concorda Rose-Marrie. “Mas não perca tempo com ela; se a ver, ótimo, se não, não tem problema”, completa a garota, que se aproxima e dá um beijo na face esquerda de Ivdan. “Obrigada, mestre caçador.”

Ivdan não exatamente está acostumado com interações sociais pacíficas e amistosas com pessoas “normais”, e não consegue evitar corar e ficar sem jeito conforme a companheira vai embora.

“Não conhece o beijo de uma garota, tenente?”, brinca uma batedora durona, uma mulher marcada pela guerra e usando um tapa-olho. “Posso dar-lhe umas bitocas para acostumar-te”, brinca.

“Não é nada disso”, responde o arqueiro, duro e sem-jeito. “Agora foquemos-nos em nossa missão. É, a missão. Ahem.”



***

Após discutir com Kniaz e o ferreiro local qual seria a melhor utilização de seu tempo para cobrir armas em prata (um conjunto de flechas para Ivdan), Roderic aproveita que vê Rose-Marrie pelo acampamento e parte atrás dela, inclusive a assuntando quando chama por seu nome. O cavaleiro pede que ela o acompanhe em uma caminhada, e revela sua preocupação com sua atitude na noite anterior. “Perder-te, seria um golpe grande demais a todos nós, especialmente a Kniaz. Temo de pensar no pântano que afundará sem ti”, comenta o jovem.

A moça porém não recebe exatamente bem suas palavras, e suavemente rechaça suas preocupações com afirmações de que sabe se cuidar. “Nem tu nem Kniaz importam-se com minhas preocupações; és passada a hora de sentirem na pele”, chega a comentar, deixando claro seu desagrado com a atitude temerária de ambos.

Por fim Roderic reafirma suas preocupações, mas esforça-se em deixar claro que não a está cobrando, e sim preocupado com sua segurança pois tem carinho por ela e preocupar-se é de sua natureza. De primeiro Rose-Marrie se surpreende e não responde ao abraço de Roderic, mas eventualmente ela derrete as defesas para com o amigo e aceita o abraço. “Ahn, as pessoas falam Roderic... e eu ainda não sou seu par”, diz divertida, soltando-se após o abraço se estender por alguns instantes, “Ainda”, completa em brincadeira, deixando Roderic para trás, corado e com alguns soldados a sua volta rindo.

 Plena Prosa Púrpura

***

“Ahhh, como pode!”, grita um soldado jogando as cartas que segurava à mesa.

“Ele é muito sortudo!”, briga um outro soldado, vendo as moedas serem tomadas.

Dan jogava cartas com alguns soldados em descanso, sentados ao chão em volta de uma ex-caixa de legumes agora re-propositada como mesa de jogos.

“Não é sorte, meu amigo. Seria sim uma quantidade significativa de habilidade. Um olho vencedor”, discorre lentamente o falso mago de guerra conforme pega a pilha de moedas para si.

Roderic a alguma distância observa mais uma partida ocorrer, tomando nota de como Dan mistura-se aos soldados, que apesar de chamá-lo de Tenente em nenhum momento o chamam de “senhor”. Após mais uma vitória, e novos grunhidos de derrota por parte dos soldados, o comandante interrompe a jogatina e solicita que Dan o acompanhe; e tão logo o vencedor crônico parte com Roderic mais três soldados unem-se a mesa, agora com chances de ganhar.

Roderic solicita sua companhia à ter com Kane, o cavaleiro negro. Ele fizera sua própria tenda a vários metros de distância do acampamento, e mantinha-se lá sozinho, lidando com o próprio equipamento e comendo o alimento que ele mesmo conseguira. Roderic estava preocupado com a lealdade do cavaleiro negro, e admitia não confiar nem um pouco em sua honra ou dignidade. Por ambas as razões preferia fazer uma demonstração de força, levando consigo Dan e mais dois soldados.

O cavaleiro negro os recebe tão bem quanto Roderic esperava, particularmente mal, não se dignando a chamá-los de “senhor” ou sequer levantar-se, aparentemente utilizando o honorífico “comandante” apenas por obrigação. Roderic o questiona sobre sua preocupação principal, se Kane estaria completamente disposto a entregar sua proeza marcial à causa, ao que o cavaleiro respondo com claro desagrado que o servirá em sua demanda à caráter de aprendizado, até ser dispensado pelo próprio Roderic ou seu aprendizado terminar.

Quando questionado sobre a duração de tal aprendizado, o cavaleiro claramente ignora a pergunta, mastigando seu coelho sem olhar para o comandante, para sua quieta mas presente ira. Ao invés de oferecer respostas oferece algo ao comandante, voltando de dentro de sua tenda com uma caixa pesada, que em seu interior possui algumas adagas envoltas em veludo. Uma adaga simples é oferecida à Roderic, que logo a reconhece como banhada em prata. “Para enfrentar o inimigo”, diz o cavaleiro negro, “Ou um último recurso”, adiciona sombriamente.



***

“Rose-Marrie?”, diz suavemente Kniaz.

A garota estava tendo com o cozinheiro do acampamento, que animadamente cortava pedaços de javali e os arremessava em um tacho com óleo fervente. As peças já fritas eram então colocadas em um grande barril com banha de porco, onde eram assim preservadas para ser retiradas e aquecidas durante a viagem.

A jovem, que acabara de recusar um pedaço da carne recém-frita, assusta-se com o avultuamento do gigante e quase dá um pulo, imediatamente seguido de segurar os ferimentos no torso.

“Desculpe, não fora minha intenção. Tu estás bem?”, preocupa-se o cavaleiro.

“Eu viverei... por Alene que susto...”, diz a moça, ofegante.

O gigante de Táurida diz-se preocupado com as ações da moça na noite anterior, sobre como ela colocara-se em risco e o quanto o deixara preocupado. De começo a jovem cruza os braços, aguardando por nova crítica como Roderic fizera. Ao invés disso é pega de surpresa quando Kniaz a agradece.

“Eu só queria dizer-lhe: Obrigado”, diz Kniaz.

De primeiro a moça fica sem reação, apenas olhando para o gigante com expressão atônita. Logo o choque passa e ela pisca algumas vezes antes de corar, sorrir e então abaixar a cabeça.



Lembrei! O nome da moça que vejo a rose-marrie é Emma Roberts!


“Eu só fiz meu melhor para proteger-lhe, Kniaz”, ela diz, tímida.

O homem abre seu coração então, explicando que nos últimos tempos têm-se entregue demais à ira e à maré do combate, deixando de pensar como um homem correto deveria fazê-lo e entregando-se ao pragmatismo brutal pelo qual Le’Berry era famoso. Não fala apenas da ira de combate que banha tudo de vermelho, mas diz também do cinismo desonrado do “prático”, um caminho que não queria trilhar. O gigante fica envergonhado de não ser digno da confiança dela, de não ser digno da imagem de seu irmão ou de sua história, ou mesmo do pedido de uma mãe em não matar seu filho.

“Kniaz quebrador de promessas”, ele diz, de cabeça baixa, em voz repleta de mágoa.

É interrompido de continuar falando porém quando a jovem lhe pousa o polegar sobre os lábios.

“Não...”, ela diz suavemente.

“Hm....”, o homem mumunha mas fica quieto.

“Tu apenas cometeste erros. O fato que estás a procurar corrigir teus métodos já o é suficiente para garantir-lhe absolvição”, diz a moça. “Já basta para mim”, ela adiciona, soltando seus lábios e o abraçando, repousando sua cabeça no avantajado peitoral do gigante.

Não apenas Kniaz tem seus fantasmas, mas a própria Rose-Marrie não consegue conter as lágrimas quando também lhe pede desculpas; desculpas pela atitude que mantém, por esconder tantos segredos, por não poder confiar a eles muitas coisas que indagam; desculpas por lhes faltar com o respeito da confiança quando confiam nela.

“Eleonora está certa... e eu peço desculpas...”, ela diz, segurando soluços.

“Eleonora é um pouco dura...”, começa o guerreiro.

“Ela me odeia!”, interrompe a moça.

“...ela...ela não te odeia...”, tenta consertar Kniaz. O cozinheiro próximo meneia a cabeça, discordando de Kniaz e revelando que estava a prestar atenção. “Tu nos contará o que puder, quando pduder. O mais importante é que saibas que até lá eu estarei ao teu lado. E te ajudarei a pagar seja qual for tua dívida.”

O momento termina com os dois se olhando por longos instantes em silêncio, antes de o clima passar e a moça corar, afastando-se e desejando a Kniaz uma boa tarde.






  ***

Conforme o dia passa, em um momento que acredita que Kniaz não esteja lidando com nada sério, Roderic o chama para uma conversa. Sua intenção com essa conversa é pessoal, ele deixa bem claro, e revela estar preocupado com o estoicismo de Kniaz.

Roderic revela suas preocupações, aponta como o considera como o mestre em armas do acampamento, e como lutou ao seu lado por tempo o suficiente e em situações terríveis o suficiente, seja sob comando de Le’Berry ou sob seu próprio, para confiar instintivamente nele. Ele não é capaz, porém, de chamá-lo de amigo, e enquanto compreende o desejo de Kniaz por privacidade, preocupa-se que sua solidão possa os prejudicar.

O comandante aponta como Kniaz tem estado afastado, e como isso tem afetado mesmo sua mão de espada; a propensão à armadilha do cinismo e da atitude prática, bem como a ira temerária. “Tu não precisas suportar todo o peso que carrega sozinho, homem!”, chega a comentar Roderic, mas sente que tanto suas preocupações quanto comentários acabam por alcançar ouvidos surdos, pois Kniaz fecha-se ainda mais e mal lhe responde.

“Era isso, comandante?”, finaliza o grande guerreiro privado.

***

Era mais tarde quando Eleonora saira de sua tenda, após ter recebido a visita de um Kniaz preocupado com a licantropia. Eleonora não era uma especialista no coração dos homens, mas sabia que dada sua história era compreensível sua preocupação, e assegurara-lhe que não apenas conhecia o antídoto como sabia prepará-lo com maestria. Preocupando-se com seu imenso companheiro, procurara também por Rose-Marrie, que encontrara triturando ervas junto de um aprendiz de alquimista.

Eleonora é uma mulher com certa beleza; não a mais pura e graciosa das mulheres, mas seus dotes físicos de busto, pernas e quadril certamente chamam a atenção. Seus cirrados olhos verdes e volumosos cabelos laranjas, que entre seu povo a tornam tão desejável, entre os civilizados lhe marcam como uma bruxa pagã estereotipada porém, o que unido à sua atitude grosseira aos padrões de Eimland e sua fama por ferocidade e comportamente explosivo, criam-lhe uma aura de Beldade Perigosa por onde passa no acampamento.

O aprendiz de alquimista não é imune à fama da beldade druidica, e rapidamente se levanta e se retira ao ver Eleonora aproximar-se, olhos abaixados a fim de não encarar a fera. Rose-Marrie prepara-se, inspirando fundo, visto que Eleonora é a pessoa com quem menos divide um elo, e também pelo claro desgosto e asco que a druidesa tão seguidamente demonstrara para com ela.

Eleonora viera desarmada, porém, figurativamente falando, pedindo para conversar coma garota longe dos ouvidos de outros. Às beiras do acampamento e envoltas pela relva, a druidesa tenta fazer seu melhor para demonstrar simpatia à nobre. Diz que respeita sua decisão de proteger quem lhe importa, e que em seu lugar faria o mesmo; diz  que sabe respeitar aqueles que cuidam dos seus; bem como elogia sua decisão em fazer-lhe independente da opinião dos outros.

Mas Eleonora o faz como forma de semear a terra, como os civilizados insinuam-se nas vidas dos outros e conquistam-lhe a confiança antes de tirar seus segredos. Se o fazia por malícia ou não, ou se notava que o fazia, seria difícil difícil dizer, mas Rose-Marrie não se abre perante alguns simples elogios, e quando Eleonora pede que seja um pouco mais aberta com a natureza de suas habilidades a jovem acaba por ficar na defensiva.

Sem exatamente muita paciência para tal, Eleonora pressiona Rose-Marrie, severamente apontando-lhe como seria mais fácil lidar com os problemas se ela tivesse uma noção do que enfrenta; sobre como ela jamais carregaria leite para lidar com a situação da noite anterior, e que tal quase lhe custara a vida.

“Eu não posso falar!”, exclama a mais jovem, de olhos cerrados.

“Não estou pedindo que me teus segredos, garota, apenas que dê-me algo para ajudar-lhe!”, rosna a druidesa.

“Eu não posso! Por que tu não entendes?”

“Pelo senhor da galhada, eu entendo”, esbraveja a druida, que logo é interrompida.

“Então cesse de questionar-me!”, grita Rose-Marrie antes de sair a passos rápidos da presença de Eleonora.

Eleonora cerra os punhos que tremem de raiva.

“...eu desisto...”



 "No one knows what is like
to be Barbarian
behind green eyes"
 
- Leonora incompreendida


Ermo - Edhervarsrt - Escudeiro 10 de 590E

Os cavalo cruzavam o ermo a um passo dedicado mas não cansativo, conforme seguiam para a região indicada no mapa. Ivdan fizera um bom trabalho em explicar a região para eles, animadamente contando como Edhervarst possui grandes extensões de colinas, montes e florestas com Banns que possuem pouco contato com as regiões mais civilizadas e vilões que viviam suas vidas inteiras nos charcos, campinas e florestas sem nunca ver figuras das grandes cidades.

Roderic estava perdido em seus pensamentos, lembrando-se da conversa que tivera com Zigrun. Tentara se aproximar do homem para talvez estreitar seus laços, pedindo-lhe que o ensinasse algumas de suas técnicas; técnicas uteis para que nem sempre Roderic precisasse encarar seus oponentes pela frente. A reação do ex-bandido o surpreendera quando Zigrun o puxara de canto e lhe dera uma bronca sobre atitude. “Todos nós temos nosso trabalho!”, esbravejara, “Tu és a luz brilhante que inspira esses homens a serem tão grandes quanto ti. Eu sou a figura negra que não querem desagradar, que desagrada mesmo seu senhor com sua desonra. Assuma meu papel, e verá sua tropa ruir!”, ele dissera.

Ponderava sobre sua atitude e as noções de honra e desonra, conforme lembrava-se da convera que tivera com Mida antes de partir. Havia lhe visto treinar excessivamente nos ultimos dias, dedicando-se mais do que outros soldados, constantemente coberta de hematomas e com aparência cansada.

“Um coração inspirado tem a força de dez braços, comandante”, ecoavam as palavras de Kniaz. “Mas eu não sou Roderic Calhart, Comandante das Lâminas Púrpuras!”, dissera Rose-Marrie. “Tu és a luz brilhante que inspira esses homens a serem tão grandes quanto ti. Eu sou a figura negra que não querem desagradar”, falara Zigrun.
Lembrava-se como havia procurado a garota antes de retirar-se a seus aposentos, e a encontrara jantando em mesas simples onde os soldados comiam. Conforme aproximara-se os homens levantaram-se rapidamente e deixaram a jovem sozinha, dirigindo pra outras mesas próximas. Ela reclamara sobre os boatos cruéis de que “Lord Calhart tem uma protegida”, que ninguém antes havia sido chamado pelos Tenentes dessa forma; ela havia sido explicada que tal era devido à sua condição, para proteger-lhe da inquisição, mas as bocas maldosas faziam questão de ignorá-lo.

“Eu não queria causar-lhe vergonha, Lorde Calhart”, ela dissera, e “Tu jamais seria capaz de envergonhar-me”, ele lembra-se de ter respondido. “Não? Olhe pra ti agora”, ela falara, apontando com os olhos em volta, e ele seguira, percebendo que quase todos os soldados em volta prestavam atenção na conversa dos dois, alguns pouco disfarçando e olhando reto para eles, a maioria das conversas tendo sumido. Ficara corado e sem-jeito, se levantara e retirara dali, desejando à jovem um célere boa-noite. “E comandante... Mida? Enamorada por ti”, foram as palavras de Dan anteriormente.





“Roderic Calhart!?”, esbravejava Eleonora, tirando Roderic de suas considerações. A druidesa apontava para uma torre simples à distância.

Ivdan havia lhes informado que se não estivesse errado a região demarcada no mapa seria uma antiga fortaleza da Ordem do Lobo Branco, uma irmandade de cavaleiros altruistas que defendiam o ermo e o povo comum por puro dever e bondade. Forte Kalapeck era seu nome. Tal incitara teorias de Eleonora que talvez a antiga ordem na verdade fosse composta por servos de Makar ocultos, noção que fora rechaçada com severidade por alguns, mas de forma especialmente vigorosa por Kniaz e Roderic. Desde então a druidesa estivera “nos cascos” para com os dois.

A torre simples colina abaixo deveria ter uns cinco andares, mas o que principalmente lhes chamava atenção era o campo à sua volta: Mais de uma dúzia de cabeças decepadas e em estados diversos de putrefação estavam empaladas em estacas em volta da guarnição, uma verdadeira visão de horror.

“Talvez seus “cavaleiros brancos” estejam mais sujos do que imaginas... comandante”, adiciona cruelmente Eleonora, com um sorriso malvado partindo-lhe os lábios.



***

Quando o grupo de doze pessoas chega à base da torre, a porta principal à construção e de lá de dentro sai um cavaleiro em armadura.

“Louvado seja o criador, visitantes!”, grita o homem, por trás de seu elmo. “Sou Lorigrad, da Irmandade do Lobo Branco.”

“Sou Roderic Calhart, e esses são meus Lâminas Púrpuras”, grita roderic, descendo do cavalo e subindo o lance de degraus até o homem.

“Lâminas Púrpuras? Ouvi esse nome, mercenários que lutam por paz e justiça; homens de coração honrado. Sejam bem vindos  à essa humilde fortaleza da Irmandade, apesar de que temo que nos procura em tempos sombrios”, diz o cavaleiro, entrando apressadamente.

“O que ocorre, cavaleiro?”, indaga Roderic, acenando para que seus homens venham, enquanto entra pela torre.

O ambiente é simples e com amodações espartanas, como o é típico à Irmandade, mas há algo de diferente: A porta fora reforçada e barricada, e as seteiras fechadas com pedra e argamassa. Um outro cavaleiro aproxima-se do grupo que logo entra, ainda ajustando os avambraços de sua pesada armadura de placas, com uma expressão bastante cansada mas ainda firme no rosto.

“Sejam bem-vindos ao Forte Kalapeck, fortaleza da Irmandade do Lobo Branco. Sou o Tenente-Cavaleiro Aerun, responsável por esse posto e homens”, ele fala, olhando em volta. “Apesar de não haver muito mais.”

“Logo o sol cairá e os lobos atacarão. Disporamos fogueiras em volta dos estábulos para proteger seus animais”, diz o outro cavaleiro, voltando do fundo com lenha aos braços. “Se o Criador assim permitir eles sobreviverão.”

“Iremos ajudar-lhe!”, diz Eleonora rapidamente pegando a lenha a levando para fora.

“Precisa de ajuda, passarinha?”, indaga ironicamente o cavaleiro negro Kane, que recostara-se de braços cruzados nas escadas.

“Perdão, achei que tu não tratasse com fêmeas”, também ironiza a druidesa.

“Não coisas importantes”, adiciona o cavaleiro, ainda a observando carregar a lenha.

Conforme retorna com o outro cavaleiro do lobo branco para pegar mais lenha, e nota que nenhum outro de seus companheiros move-se para ajudar, e sim apenas discutem com o tenente-cavaleiro, a druidesa esbraveja, apontando para a lenha: “Algum -homem- disposto a fazer valer seus colhões aqui???”




Forte Kalapeck - Edhervarsrt - Escudeiro 11 de 590E

A noite fora uma de vigilia e tensão para os que ficaram de guardas, mas, ao final, fora um silencioso teste à sua força de vontade e resiliência, sem nenhum ataque.

O tenente-cavaleiro havia lhes explicado tudo o que sabia: Os lobisomens atacavam essas terras a algumas semanas, e da quase dezena de homens que comandava Lorigrad fora o único que sobrara após as diversas lutas. Ele acreditava que um de seus homens tinha sido amaldiçoado com licantropia em suas viagens, e em sua loucura acabara infectando outros e espalhando a praga pela região. Desde então eles vivem em estado de cerco, com ataques noturnos constantes pelas feras que tentam escalar a torre, bem demonstrado pelas marcas. Como um ato de respeito a seus visitantes ele inclusive esfrega pelo rosto um símbolo de Alene feito em prata, que causá-lhe nenhum efeito adverso; todos seguem o gesto, deixando claro que nenhum dos lados possui espiões licantropos.

O cavaleiro lhes explicara que durante o dia ele e seus homens faziam rondas em um perímetro próximo de terras habitadas locais atrás do ninho das feras, bem como retardatários exaustos após uma noite de frenesi. Essas lutas acabaram por reduzir a força de seus homens ao número que vêem agora, muitos feridos e infectados, que tiveram que ser postos à prata quando o acônito não lhes salvava.

O tenente mostrava-se bastante abatido ao relatar seus feitos, especialmente por que muitos dos corpos queimados lá fora, cujas cabeças foram empaladas em estacas, eram corpos de seus próprios homens ou de pessoas normais da região; e especialmente pelo fato de que independente da fera que enfrentem, os cadáveres que ele decapita e queima são de pessoas, não de monstros, pessoas que eles juraram proteger e que agora falhavam. O espetáculo horroroso conspurcava seus nomes, mas assustava os lobos.

Quando questionado por que não partiam, vistas suas reduzidas forças, ele lhes explicara o voto da Irmandade, o dever solene de proteger o homem comum das depredações de um mundo cruel. “Se não protegermos o homem comum, quem irá? Tal não é um fardo, e sim uma honra”, explicara.

À manhã o tenente-cavaleiro Aerun e o cavaleiro Lorigrad partem para sua ronda diária, hoje em rumo à norte, até próximo de terras cultivadas de um lorde local. Decobririam notícias, rastreariam ninhos e reparariam armadilhas, o que ocupava um pedaço de sua rotina diária, antes de retornar à guarnição para descansar um pouco à tarde e preparar-se para a noite de cerco.

“Que Alene guie seus passos, e que o Criador garanta-lhes retorno seguro”, despedia-se o cavaleiro. “E tomem cuidado com o Toque do Lobo; não anseio por ter de sacrificar mais companheiros.”



***

Ivdan, bem como Eleonora e Dan seguiram para a floresta ao longo do dia a fijm de rastrear as criaturas. Seu objetivo seria localizar rastros e talvez a localização de um covil, enquanto o resto do grupo ficaria para trás a fim de conseguir lenha e reforçar as defesas da torre. Estavam já a algumas poucas horas caminhando, por vezes encontrando algum ou outro rastros, os assovios festivos de Dan o único som que ouviam.

“Diga-me, mestre arqueiro”, iniciava Dan olhando para seus companheiros, “como saberemos exatamente quando encontramos um lobisomem de fato, e não um simples lobo?”

Eleonora retocava a pintura de guerra em volta dos olhos e ignorava a pergunta. Ivdan por outro lado deixa os rastros para trás e passa por Dan, não sem antes colocar-lhe a mão suja de terra sobre um ombro.

“Eu lhe garanto, meu caro, que eles nos encontrarão primeiro.”

***




A profecia de Ivdan prova-se verdadeira conforme já retornavam para a torre, sem obter real sucesso em sua busca, quando subitamente enxergam um lobo à distância, que logo foge. A visão do lobo logo é seguida por uma sequência infernal de uivos, vindos de diversas direções.

“Não temam! Sempre uivarão a fazer com que a matilha pareça maior!”, rosna a druidesa, sacando o cajado ao mesmo tempo que seus companheiros também preparam suas armas.

E tal como começaram os uivos param, e logo são seguidos por latidos e rosnados conforme seis feras licantrôpicas correm em sua direção, suas garras rasgando o chão por onde passam, suas mandíbulas pingando baba e maldição.

Chocam-se então com as feras. Fuga não é uma opção, não apenas pelo fato que lobos caçam dessa maneira, atacando presa que foge uma a uma, bem como o estado ainda frágil de Eleonora e Dan apenas significaria que ficariam para trás. Os monstros lutam com selvageria e decisão implacáveis, saltando por sobre seus inimigos e tentando lhes derrubar com seu peso.

Ivdan consegue afungentar uma das feras conforme lhe acerta uma flecha de prata no torso, mas logo o embate é uma bagunça, com os herois sendo separados e atacados por oponentes diversos. Eleonora equilibra as chances ao implorar o auxílio dos espíritos, sendo agraciada com a materialização de uma matilha de lobos gigantes espectrais que partem ao encontro dos nêmesis licantropos.

É com certo terror porém que Eleonora logo nota que as feras espirituais são lentamente sobrepujadas pelas físicas; suas mandíbulas fantasmagóricas capazes de rasgar um homem em pedaço, mas incapazes de causar ferimentos duradouros nos lobisomens, cuja carne logo sara frente a ferimentos que não são de prata. A druidesa luta ferozmente, mas seus golpes pouco fazem, e ela é jogada ao chão por um dos seres que cai sobre seu corpo. Ela defende-se colocando o escudo entre os dois, afastando a mandíbula que tenta morder-lhe o rosto e pescoço, mas o ser começa a arrancar pedaços da lateral do escudo, e com um movimento forte empurra-lhe o escudo de lado. Eleonora consegue salvar-se da mordida certeira por muito pouco, ao enfiar por reflexo o antebraço na boca do monstro, como um freio de cavalo, impedindo-lhe assim a força total da mordida. A criatura a mastiga e começa a mexer a cabeça para estraçalhar-me o membro, mas logo cai morta conforme duas flechas certeiras de Ivdan penetram-lhe a nuca.

Enquanto isso Dan choca-se com uma das criaturas, a empurrando para longe da caída Eleonora, mas é surpreendido por um dos monstros que joga-se sobre ele tencionando mardar-lhe ao chão. Dan não consegue com a força da criatura e perde o equilíbrio, caindo para trás, mas sua famosa sorte sorri mais uma vez, conforme ao cair acaba por cair sentado em um tronco caído que não havia notado antes. Sentado ao invés de caído o guerreiro consegue usar o peso do monstro contra ele mesmo e arremessá-lo para longe, ambos se pondo de pé rapidamente logo após.

O demonologista salta sobre o lobisomem então, adaga de prata em mãos, evita um golpe de garra e entra pela defesa do monstro, com uma mão segurando seu focinho lupino para longe e com a outra desferindo-lhe seguidos golpes no torso com o punhal de prata dado por Kane. Após uma sexta estocada ele larga o ser, já sem forças, que cai ao chão com um baque surdo, e ao notar os diversos lobisomens que cercam Ivdan e Eleonora derrotando sem dificuldade os lobos espirituais, joga-se por cima do tronco enquanto saca o cajado do arquimago Veograd.

“Abaixai a cabeça!”, grita, conforme estica o cajado da direção dos monstros.

As runas do elegante cajado se acendem em um luz rubra, percorrendo sua extensão da base até a ponta como um rastro de pólvora; a cabeça de incendeia conforme a luz do ambiente abaixa, e logo uma esfera de fogo do tamanho de uma bala de canhão dispara do cajado e em meio as criaturas, explodindo no impacto em uma imensa bola de fogo e mandando os monstros de um dos lados do campo de batalha pelos ares em diversas direções.



Ivdan corre até a ferida Eleonora e curva-se sobre ela, usando as costas para protegê-la da explosão, conforme uma segunda bola de fogo cruza o ar deixando um rastro de fumaça e explodindo contra o outro lado do campo de batalha. Os lobisomens erguem-se esfumaçados da explosão, que enquanto não os fere os atordoa com o impacto, mas Ivdan não perde tempo em disparar flechas contra dois deles, que certeiras os mandam ao chão. Em desvantagem, os dois lobisomens sobreviventes fogem pela floresta.

Dan olha para trás, em direção ao monstro que esfaquera, apenas para encontrar o corpo de uma mulher simples, talvez uma fazendeira comum, esfaqueado e morto onde o monstro estaria. Logo compreende o abatimento do tenente-cavaleiro, ao ver os corpos dos monstros mortos retornarem a aparência humana; homens, mulheres, jovens, velhos, pessoas normais brutalmente assassinadas.

“Dan, precisamos sair daqui!”, grita Ivdan que ajuda Eleonora a colocar-se de pé.

“Eleonora! Tu estás bem, querida?”, preocupa-se o demonologista, que apesar de ser amigo de todos possui certo elo com a druida.

A druidesa por sua vez não perde tempo nem recuperando o fôlego antes de abrir a armadura de couro na altura do antebraço para inspecioná-lo. Silêncio se faz ali quando vêem que seu braço possui profundas marcas de mordida, e Eleonora rapidamente tira da mochila bandagens limpas e banhadas em medicamentos que usa para enfaixar o ferimento antes de cobri-lo com a armadura.

“Precisamos retornar ao acampamento fantástico mestre Ivdan”, acelera Dan. “A bela Eleonora precisa de uma daquelas infusões de acônito”, e então olha para cima, notando a luz clara do começo do entardecer, “...antes que seja tarde demais...”



***

Não perdem tempo em retirar-se do local e seguirem de volta para o acampamento, e em seu caminho Ivdan, que marcha à frente, vê uma de suas flechas de prata manchada de sangue. Em um raríssimo momento de falta de atenção Ivdan vai até a flecha para recuperá-la, mas logo ouve um som de estalo e joga-se de lado: Uma armadilha de laço se revela ali, que o teria erguido até os galhos. Rolando pelo chão o patrulheiro saca o arco e aponta uma flecha de prata na direção de uma figura que sai de trás de uma árvore.

É uma mulher comum, de cabelos curtos castanhos. Deve ter perto de seus quarenta anos pelo corpo passado de seu primórdio, tem a pele completamente suja de terra e um ferimento à flecha no ombro; Ivdan reconhece na hora o primeiro lobisomem que acertara e que então fugira.

“O que queres de nós, fera?”, rosna o patrulheiro.

“Vós atacais meu povo; nós atacaremos o teu!”, diz a mulher, em tom irado.

“Tu atacas vilas e repassa para frente tua maldição, vil criatura”, exclama heroico Dan.

“Não pedimos por nossa condição; deixem-nos em paz!” a mulher monstro ruge uma última vez, antes de colocar-se para correr deles, no meio do caminho transformando-se em um lobo e misturando-se com a vegetação.

***

“Eles chegaram! Por Alene, Eleonora está ferida!”, grita um dos soldados do lado de cora da construção de pedra da Irmandade, chamando a atenção dos outros.

Roderic se mostra presente ali, expondo sua bela figura sem camisa enquanto ajudava no trabalho pesado de cortar lenha. Kniaz também os recebe, enquanto o cavaleiro negro Kane ainda encontra-se de armadura e elmo, sentado à sombra das escadas.

“Fomos emboscados”, grunhe Ivdan ao se jogar sentado ao chão, cansado.

“A belíssima Eleonora fora suavemente mordida por uma daquelas vil criatutras. Estávamos em menos número, mas nossas bem-desenvolvidas habilidades foram capazes de sobrepujar-lhes”, delonga-se Dan, enquanto coloca Eleonora sentada.

O demonologista carregava a druidesa no colo, uma vez que rapidamente a febre começara a lhe tomar e acabaram para, a contragosto da própria, achar melhor que ela guarde suas forças para enfrentar a fera e o veneno.

“Por Alene! O acônito!”, exclama Kniaz enquanto Dan ainda explica, correndo para dentro da torre.

“Alguém impeça que ele faça algo que há de me matar, sim?”, diz a druidesa limpando o suor da testa, e um soldado logo a responde, correndo ambiente adentro atrás de Kniaz.

“E o alfa?”, pergunta um esperançoso Roderic ao cansado Ivdan.

“Nem sinal, comandante”, meneia a cabeça o patrulheiro.

“Foste mordida, passarinha?”, diz o cavaleiro negro, que vasculha a mochila.

Eleonora rola os olhos e logo diz, irônica: “Não confias mais na proeza de teus olhos?”, e é surpreendida quando o cavaleiro que se aproximava espirra o conteudo de um frasco em seu rosto como quem desperta alguém com gotas d’água. Conforme o líquido de cheiro ocre escorre por seu rosto, cabelo e armadura, a druida lança um olhar feroz para o homem de armadura.

“Para que isso, homem?”, esbraveja Roderic.

“O poder das trevas lhe compele, força negra!”, diz o cavaleiro esticando a mão enluvada para Eleonora, em um cântico profano em voz gutural que provoca preocupação nos demais e um meio sorriso descrente na druidesa. “Ohn-ba ikpor. Rashar-ura. O poder das trevas lhe compele. Dhaurr esa!”



Para a surpresa dos presentes os olhos de Eleonora rolam para trás, e ela ergue o rosto como se em convulsão. O cavaleiro negro continua.

“Mostre-me a direção de seu progenitor! Ohn-ba ikpor! Dsakir neirhas!”, ordena o homem de armadura, e o braço ferido de Eleonora se ergue, trêmulo, apontando em uma direção, Norte.

O homem para de entoar, e retorna à sua bolsa. Eleonora volta a si, notando a passagem de tempo mas sem se lembrar do que aconteceu, e os outros parecem atônitos. Questões lançadas ao cavaleiro negro não invocam respostas. Finalmente ele retira um frasco de metal da mochila e vira o elmo na direção de Ivdan.

“Acreditas no criador?”, ele diz em voz suturna.

Ivdan pensa “acredito na criatura”, mas responde timidamente: “...sim...?”

“Hmph. Que pena”, o homem grunhe, e joga o frasco dentro da mochila.

“Importa-se explicar o que está fazendo, Le’Berry?”, pede em tom de ordem Roderic.

“Nós cavaleiros negros não somos apenas guerreiros mal-educados”, diz o homem, pegando outro frasco.

“Não -apenas-”, murmura Eleonora.

“As trevas abrem-se e revelam verdades àqueles com estômago para encará-la”, ele continua, abrindo o elmo. “Sarabaás envurgoh. Karadhras”, ele recita, e então bebe o conteudo, aparentemente grosso, do frasco.

O homem torna-se ainda mais estranho, olhando em volta mas através das pessoas, não apenas como se perdido em pensamento ou enxergando o que outros não vêem, mas também farejando o ar. Rapidamente ele se levanta e entra pela torre, seguido de seus curiosos companheiros. Lá dentro ele murmura que há algo errado.

“O que estás vendo, homem? Diga?” ordena Roderic.

“...um demônio vive aqui...”, ele diz baixo.

Todos se surpreendem, e olham em volta. Eleonora estranha, pois não notara véu fraco nessa região.

“...hm... vermelho... não, magenta... Desejo?”, ele murmura.

“Ele está aqui agora?”, pergunta um dos soldados.

“Não... um rastro, uma marca de presença... Um demônio vive aqui a um bom tempo, para ter deixado uma aura tão indelével... Hm...”, ele diz saindo para fora da torre novamente, seguido de alguns soldados.

“Eleonora, o acônito...”, murmura Kniaz, que fora impedido de mexer com o acônito por um dos soldados, conforme Eleonora chacoalha um dos fracos de infusão de acônito pronta.

“Não te preocupe, gigante, já engoli coisas piores”, diz a druida de forma tranquila.

Sua atitude não inspira total confiança porém, e um silêncio cúmplice se faz entre os homens do local, que sabem que apesar de forte Eleonora ainda não se recuperara da Peste e que seu corpo ainda está fraco. Dan tenta dizer algo, mas é interrompido pela voz do cavaleiro negro lá fora xingando.

Quando observam, vêem que ele chuta os corpos queimados ao lado da torre. Roderic sai para indagar-lhe a razão de conspurcar os mortos, mas o cavaleiro é mais rápido. “Todos decapitados. Nada que sirva. Teremos que marchar Norte e fazer isso da forma antiga... comandante.”

“Diga-se de passagem que inclusive é a mesma direção para onde os cavaleiros da Irmandade dirigiram-se. Dado que após nosso embate um dos lobisomens nos ameaçou, acredito que os altamente nobres e fantasticamente altruistas guerreiros da Ordem possam estar sim em severo perigo de vida, ou diria ainda, de transformação”, deslonga-se Dan.

“Se as lendas forem verdade matar o alfa irá evitar que Eleonora transforme-se”, diz Kniaz, pegando o machado.

“...hm...”, pensa Roderic olhando para o acônito, “...e ela não precisaria do veneno...”

Kniaz encaixa o machado no laço.

“Precisamente.”

 Kniaz



***

É com dedicação e celeridade que avançam pela floresta, conforme a febre de Eleonora piora e o cavaleiro negro Kane entrega-lhe seu manto de peles para aquecer-se. Estão algumas horas norte adentro quando finalmente Ivdan encontra algo que lhes chama atenção: Um rastro de alguém correndo pela floresta termina em rastros de combate de one apenas uma pessoa sai, ferida e sangrando. Esses rastros levam o grupo a encontrar uma figura morta perto de uma árvore, um homem nu sujo de terra e repleto de ferimentos feitos por animal, sua garganta arrancada por uma mordida. Seus ferimentos parecem ter sido causados por um lobisomem, mas o fato de que ele mesmo estava desnudo, sujo e com aparência selvagem leva os herois a considerarem a possibilidade de que talvez os lobisomens se enfrentem.

A trilha que seguem é difícil, quase cortar puramente floresta adentro, pois o assassino selvagem não deixara rastros. As habilidades de rastreamento de Ivdan e Kane os levam até uma clareira entre as árvores, onde uma gruta pequena refufia-se à sombra da floresta. O que essa gruta tem de especial em relação a todas as diversas outras dessa região é uma quantidade significativa de ossos por perto, indicando a toca de um animal.

Bem como roupas e peças de armadura espalhadas.

Observação cuidadosa os revela que as peças de armadura parecem ter pertencido aos cavaleiros da Irmandande, especialmente devido às ombreiras cinzas com tema lupino que viram o capitã-cavaleiro usar. De primeiro imaginam agressão, mas logo notam que as peças de armadura não foram dilaceradas a garra nem possuem sangue; foram arrancadas de fato, com possível celeridade e jogadas a esmo, mas suas tiras não foram cortadas nem por faca nem por garra.

Alguns imediatamente desesperam-se quando chegam a conclusão que algum dos homens é o alfa, especialmente quando Kane nota a mesma presença demoníaca que sentira na torre. O demônio que passa muito tempo lá também o faz cá. Começam a traçar um plano de ação, mas logo um grito de dor corta o ar vindo de longe floresta adentro, e antes que possam dizer algo Ivdan dispara a frente, arco em mãos, em direção ao som.

“Ivdan! Tenente!”, grita Roderic, mas é em vão, pois o patrulheiro não pára.

Roderic toma Kniaz consigo para acompanhar Ivdan, deixando Eleonora para trás sob os cuidados de Kane. A druidesa até ensaia reclamar, irada, mas quando seu primeiro passo falha e quase cai de joelhos, pingando suor frio, reconhece que não será capaz de fazer muito, e deixa que seus companheiros partam.

 

"Cuidada pelo cavaleiro negro", soa como nome desses livrinhos de romance erótico

***

Alcançam Ivdan quando o homem já não corre mais, mas sim cuidadosamente avança pela floresta, evitando fazer som. Alguns poucos minutos de avanço em silêncio forçado os brindam com a localização de algo, mas uma visão que prefeririam não encontrar: Uma mulher estava ali morta, talvez com quase quarenta anos, desnuda, uma marca de garra cortando-lhe o rosto, e tanto sua perna quanto braço direitos arrancados e jogados para longe.

Enquanto os dois cavaleiros preocupam-se com a morta ainda quente, Ivdan interessa-se mais em encontrar o rastro de seu assassino, mas é surpreendido ao ver algo acima. Sob o galho de uma das árvores um imenso lobisomem branco os observa, e tão logo Ivdan cruza olhos com ele o monstro salta sobre o grupo.

Demonstrando grande agilidade, Dan joga-se por sobre Roderic, evitando que as garras longas como adagas do monstro rasgassem o comandante. Kniaz por pouco evita destino semelhante, fazendo com que seu escudo metálico sofra-o em seu lugar.

Tão logo pousa, o monstro cai de joelhos, notando apenas agora um ferimento que o enfraquece: Uma flecha de prata de Ivdan trespassa-lhe o abdôme. Irado de dor pelo ferimento, o monstro lança-se por sobre os herois, usando seu tamanho signifticativamente maior, talvez dois metros e meio de altura para não apenas mantê-los na defensiva como desorganizados.

Defendem-se como podem, mas a falta de armas de prata significa uma ofensiva menos hábil do que esperam, especialmente devido a ferocidade dos ataques. Roderic divide o campo, porém, conjurando de além do véu uma cortina de fogo que assusta a criatura e a faz dar passos para trás. Mesmo com poucas flechas de prata Ivdan aproveita a distração da criatura que se afasta das chamas para disparar outra flecha, que certeira atravessa o inferno e aloja-se no peito do lobisomem.

A fera terrível uiva, inicialmente pensam que de dor, mas logo claramente respondido por outros uivos cada vez mais próximos, conforme outros lobisomens menores avançam sobre o grupo, cobrindo a retirada de seu alfa. Os herois são forçados a enfrentá-los, mas graças a proeza marcial de Kniaz e Roderic, o embate logo se encerra, com um monstro morto ao chão e outro fugindo pela floresta, impossibilitando que Ivdan tenha uma linha de tiro. Sábio, o patrulheiro não gasta suas poucas flechas de prata, ao invés disso acelerando os outros a seguir o rastro do alfa ferido, que agora sangrava.




***

Eleonora escondia-se no mato junto com o cavaleiro negro quando vê a fera ferida a flecha de prata entrar pela clareira. O monstro manca, sem forças, e Eleonora nota que a prata lhe surte algum efeito quando vê que seus pêlos prateados começam a cair. O monstro finalmente cai de joelhos e então curvado, seu corpo diminuindo e transformando-se novamente em um corpo humano.

Incerta de como agir Eleonora busca a opinião de Kane, que a reprime por sua falta de iniciativa. Por orgulho ferido a druidesa larga a capa e arma-se de escudo e cajado, saindo de seu esconderijo e em direção à clareira, a fim de confrontar o alfa.

“Quem sois tu?”, ela diz em voz alta.

“Acabe... com isso”, murmura o alfa.

Mas tal  não ocorreria tão facilmente; Eleonora mais sente do que vê alguem surgir ao seu lado, talvez literalmente do nada, e tem tempo de pouco mais que abaixar-se e rolar para longe de um golpe de espada mirado a decepar-lhe a cabeça.

Erguendo-se com dificuldade, a druidesa vê ali o outro cavaleiro da Irmandande, Lorigrad, que aponta-lhe a espada ameaçadoramete.

“Mortais... tão previsíveis...”, ele provoca.

Eleonora exige que o demônio abandone o corpo que possui e parta para além do véu, deixando o capitão-cavaleiro sob seus cuidados, e logo é rechaçada, chamada de “pândega” por forçar tão sem graça piada.

Ele a explica como encontrara Aerun, retornando de meses de serviço para sua família, mas sendo amaldiçoado pelos servos de Makar por pura crueldade, por crime não maior do que ousar usar o símbolo do lobo branco. O homem matara sua família em seu frenesi, e mesmo com toda sua força de vontade estava em frangalhos quando o demônio o encontrara. Agora ele dava ao cavaleiro o que ele queria, um propósito; ele não sabia que era um licantropo, e em sua mente era o último bastião de proteção contra os lobisomens que infestavam essa terra. Irada, Eleonora tenta então provocar o demônio com ofensas, declarando que ele vive uma vida falsa e que deseja nada mais nada menos que imitar os mortais.

“Ofensas? Tal é o tipo de conversa que provoca homens mortais. Não há nada que possa dizer que me fará perder a cabeça, mulher. De fato, tal concepção é mesmo cômica”, ele diz. “Que tal ao invés de lançar-se como minha inimiga não preferes ser amiga minha?”

“Do que falas, demônio?”, rosna a druidesa enfraquecida.

“Eu posso dar-lhe o que quiser. O que teu coraçãozinho mortal quiser. Em troca partirei com ele, e não nos veremos mais”, tenta negociar.

Eleonora o rechaça, rosnando sobre como não precisa de nada. Divertido o demônio a contraria, dizendo que seu coração diz o contrário, apontando o quanto ela se sentira impotente, inútil, não apenas perante a Peste como também perante o grande plano cósmico que se abre perante ela e seus companheiros. A ruiva enfurece-se, e tenciona partir sobre o monstro, mas esse reage mais rápido e depois de um olhar firme Eleonora encontra-se incapaz de mover-se, seu coração batendo em uma frenética taquicardia que lhe remove as forças.

“Ah, Eleonora. Tu és fraca. És insignificante”, diz ele, preparando-se para a espadada mortal.

“Mas eu não sou”, diz a voz soturna de Kane, que sai das sombras perto de demônio e arremessa-lhe um líquido no rosto.

Onde o líquido toca a pele do demônio ferve e esfumaça, o fazendo berrar de dor. Não consegue reagir rápido o suficiente para evitar um segundo borrifo no rosto, e logo o cavaleiro negro joga-se por sobre ele, uma mão em seu pescoço e outra com um símbolo sagrado apertado contra sua testa, sussurrando um ritual antigo, algum tipo de exorcismo. O demônio cai para trás com o peso do cavaleiro, enquanto Eleonora cai de joelhos, voltando a controlar o corpo.

“Pela madrugada, o que diabos é isso?”, grita um esbaforido Ivdan quando alcança a clareira.

Aproxima-se rápido do cavaleiro negro, mas Eleonora faz um gesto para que páre. “Um exorcismo...”, ela murmura. “Lorigrad estava possuido...”

 Saia desse corpo que não te pertence! O poder das... trevas... capirotídicas... te compele.

***

Ivdan saca uma flecha de prata, pronto para abater o homem ferido, mas Roderic o ordena para não fazê-lo. Discutem então sobre como a vida de um homem não vale o risco que correrão caso não possuam a infusão do mestre de Konsvow, e não abaixa a arma. Após o segundo aviso ignorado, porém, o cavaleiro negro salta por sobre o arqueiro, suas duas mãos em seu pescoço estrangulando-lhe com força. O arqueiro até tenta defender-se e empurrá-lo para longe, mas o peso do homem e sua armadura impedem tal, e contenta-se a dividir socos com o homem.

É somente com a intervenção de Kniaz que conseguem tirar o cavaleiro negro de cima de Ivdan -visto que eleonora o puxar, especialmente doente, era tão efetivo quando calmamente solicitar que parasse-, e o arqueiro não perde tempo em ameaçar de morte Kane e lançar-lhe todas as ofensas que é capaz.

“Já matei um Le’Berry; não seria difícil matar outro, garoto”, ameaça, com a boca sangrando pelos socos que levara.

“Que sorte que não sou um”, responde o cavaleiro negro afastado.

Sem a presença do demônio expulso pelo exorcismo do cavaleiro negro, a memória retorna ao Irmão do Lobo Branco, que recorda-se de sua maldição, e subitamente parece receber consciência dos brancos que preenchiam seus últimos dias. Cansado, o cavaleiro pede que o ajudem a completar seu dever, que o matem, que dêem a ele uma morte rápida, uma morte de soldado.

Roderic se prontifica a fazê-lo, mas o cavaleiro negro o para.

“Não suje tuas mãos com sangue inocente, Comandante”, diz Kane.

“É por uma causa justa”, responde Roderic.

“Sangue justo ou injusto marca igual. Não marque teu brilho, nem tua mente.”


Cidadela dos Cavaleiros Negros - Fronteira de Edhervarsrt - Escudeiro 14 de 590E

De posse do coração do alfa decapitado por Kane, os herois marcharam de volta ao acampamento e à sombria fortaleza. Fizeram questão de queimar os corpos que encontraram, bem como realizar uma missa improvisada pela alma dos homens (da qual nem Kane nem Ivdan participaram). Eleonora recuperava-se da infusão de acônito ainda, mas já estava mais corada e com mais forças.

O demônio havia dito que lhe ofereceria uma pequena prova de seu poder, que ela não transformar-se-ia em licantropo, mas a druidesa sabiamente não confiara em suas palavras e tomara a infusão. Tivera de ser cuidada a noite inteira por seus companheiros, e acorda extremamente fraca, mas o sol raiara e ela não transformara-se; havia sobrepujado a Fera.

Levados a uma sala ritual, o acinzentado Mestre Kendal prepara as infusões. O ritual é parte alquimia e parte taumaturgia, pois o homem prepara uma mistura aquecida com diversos ingredientes incluindo Verbena, um pedaço do coração do alfa, e um pouco de seu próprio sangue, o qual faz escorrer de seu pulso sem a necessidade de abri-lo. O último ingrediente é um pouco do sangue de cada um na própria poção, que servirá para criar o elo simpático de sangue. Ivdan não se contém em dizer assustado que o homem é um monstro de magia negra, ao qual é delicadamente respondido que caso o ofenda novamente em seu lar ele e seus companheiros serão arremessados da muralha.

“Eis a infusão de cada um. Não confundam-se e não bebam a de outrem, ou não surtirá efeito. Tão logo a bebam vós... efetivamente morrereis, e recebereis algumas de minhas habilidades. Não preocupem-te, a condição será temporária, e ao raiar da próxima alvorada retornarão a seu semblante vivo.

Uma coisa, porém; quando estiverem nessa condição, ei de sentir a Fome, uma sensação de angústia muito maior do que qualquer coisa que sentiram ou ei de sentir. Não alimentai-te de sangue humano, independente de quanta fome tiver, ou tu se tornará como eu e morrerá para o a luz e o conforto do toque humano. Aguentai até a alvorada, e vós sereis livres.

Agora ide. Ide e sobrepujai nosso inimigo.”